Décio otero, do ballet stagium, criou dança militante 29/07/2025

Décio Otero, do Ballet Stagium, criou dança militante – 29/07/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

É verosímil identificar duas vertentes muito claras na dança cênica brasileira na segunda metade do século 20. Enquanto o Rio de Janeiro apostava no balé clássico, com o peso simbólico do corpo de dança do seu Theatro Municipal, São Paulo rompeu com a tradição e se fez moderna. Sem Décio Otero, no entanto, talvez essa história tivesse um caminho dissemelhante.

Ao se unir a Marika Gidali e fundar o Ballet Stagium, em 1971, ele inaugurou um jeito de fazer dança duplamente militante, com obras que aliavam engajamento social à luta pelo reconhecimento profissional de sua classe artística.

Porquê a estética clássica não era suficiente para dar conta dessa abordagem, Otero misturou referências de uma bagagem múltipla. Do início de sua formação, ainda no Brasil, incorporou toques de balé, neoclássico e jazz. Da curso porquê bailarino em grandes companhias na Suíça e na Alemanha, trouxe um aprofundamento nas bases modernas.

Em seu retorno ao país, em plena ditadura militar, já era muito evidente para ele que fazer arte implicava, necessariamente, posicionamento. Tomou portanto para si a missão de submergir na cultura brasileira, traduzindo-a no palco por meio de uma linguagem cuja principal premissa era estabelecer diálogo com um público espaçoso.

Dadas as dimensões continentais do país e a dificuldade de circulação de informação nos anos 1970, segmento desse trabalho significava levar a dança até onde o povo estava. Dentro de um ônibus, o Stagium viajou de Setentrião a Sul com interpretações muito particulares para obras de nomes porquê Guimarães Rosa e Plínio Marcos, e trilhas sonoras embaladas por compositores icônicos da MPB, uma novidade em uma quadra na qual a música de concerto ainda reinava entre as criações coreográficas.

Na maioria das vezes, as apresentações pelo Brasil profundo aconteciam diante de condições precárias, em espaços porquê ginásios escolares, praças e penitenciárias. A motivação para seguir vinha da riqueza proporcionada pelos encontros com a pluralidade do país, alimentando a originalidade e a produção artística de Otero e Gidali.

Durante uma de suas andanças, o par conheceu comunidades indígenas do Xingu, no Mato Grosso. O incidente deu origem a “Kuarup” (1977), um marco incontornável da dança brasileira.

Sem as amarras do financiamento estatal, com os bailarinos vestidos por Clodovil Hernandes em macacões verdejante e amarelo, o Stagium denunciou ali a preterição do governo militar com os povos originários. Por meio de gestos e movimentos, driblou a exprobação que pairava sobre o teatro, o cinema e a televisão para fazer sua mensagem repercutir em um momento no qual as vozes indígenas eram sistematicamente negligenciadas.

Todas essas inovações de linguagem e de abordagem mostraram ser verosímil fazer um outro tipo de dança no Brasil, abrindo espaço para o Corpo de Dança Municipal de São Paulo deixar as sapatilhas de ponta, em 1974, e adotar um viés moderno, rebatizado porquê Balé da Cidade de São Paulo. Deve-se muito ao Stagium, também, o surgimento de companhias porquê o Grupo Corpo, em 1975, e a Cisne Preto Cia de Dança, em 1977.

Otero foi uma máquina criativa. As sucessivas dificuldades financeiras, que fizeram o conjunto perder sua tradicional sede na rua Augusta, em 2021, para se acoitar na Funarte, nunca o impediram de renovar o repertório. Ano sim, ano não, novas criações eram incorporadas —ao todo foram mais de centena.

Elas se alternam entre posicionamentos mais politizados sobre as múltiplas realidades brasileiras, porquê em “Missa dos Quilombos” (1984) ou “Fon Fon” (2017), e homenagens à MPB que servem de cartão de visitante desses artistas às novas gerações. É o caso, entre outros, de “Stagium Dança Chico Buarque” (2005), “Adoniran” (2010) e “Maré Enxurrada” (2024), sua última geração, inspirada no cancioneiro imortalizado pela voz de Clara Nunes.

Para além de sua atuação nos bastidores, porquê coreógrafo —ainda na última quinta-feira, repassava correções ao elenco—, Otero também se manteve em cena até o termo. Em 2023, provocado pelo colega Luis Arrieta, voltou aos palcos no espetáculo “Corpos Velhos”, com o qual viajou ao Nordeste, foi ovacionado no Theatro Municipal de São Paulo e fez sua última apresentação no dia 12 de julho, no Sesc Franca.

Sentado ao lado de Gidali, dividindo a cena com outros bailarinos icônicos supra dos 60 anos, ele questionava a teoria de prazo de validade para sua arte e o porquê de ainda teimar nela mesmo quando o físico parece não responder mais. Na cena final, todos se levantam e caminham lentamente para a frente, encarando o público. Eles evocam um dos momentos mais emblemáticos de “Kuarup”, porquê se dissessem “ainda estamos cá”. E a verdade é que, mesmo diante do adeus, Otero ainda estará.

Folha

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