Deixei o inconsciente falar, diz rubel sobre disco beleza

Deixei o inconsciente falar, diz Rubel sobre disco Beleza – 20/06/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Rubel estava passando um mês na lar da mãe, se recuperando de uma cirurgia cardíaca pouco depois do lançamento do álbum “As Palavras”, de 2023. Entre partidas de “Driver”, game de PlayStation que jogava na juventude, ele pegava o violão para passar o tempo. Sem compromisso, o artista começou assim a produzir as canções de “Venustidade. Mas Agora a Gente Faz o que Com Isso?”, disco que apresenta neste final de semana no Sesc Vila Mariana, em São Paulo.

“Fui compondo sem perceber”, diz Rubel. “Pegava o violão, gravava um negocinho, jogava. No término de 2023, fui resgatar esses áudios e vi que tinha umas 40 melodias. Escolhi sete para terminar e, no primórdio de 2024, em um mês, escrevi todas as letras, porquê se fossem um livro de poesias.”

“Foi um caminho quase oposto ao de ‘As Palavras’, que era um disco muito racional, fundamentado em muitas pesquisas, em que eu queria objetivamente proferir certas coisas”, diz o cantor. “Agora, deixei o inconsciente falar. Escrevia a primeira frase que me vinha à cabeça.”

Desse treino emergiram imagens de naturezas diversas. Referências a versos de Aldir Blanc, a cenas de gravura entusiasmado, com um gambá sendo levado por um perfume, uma citação solta a Don Corleone ao lado de um livro de Rubem Fonseca. Em meio a elas, sentenças diretas porquê “você me faz tão muito” ou “tenho tanto pra viver”.

“‘Venustidade’ é meio misterioso para mim”, diz Rubel. “Porque me permiti, às vezes, ser distraído, uma vocábulo que carrega em si o ‘traído’”. A traição, no caso, é ao sentimento de controle do oração sobre si mesmo. “A gente, às vezes, quer muito ser alguma coisa. E esse disco não é sobre quem eu gostaria de ser. É sobre quem eu sou”.

Rubel se revela em versos porquê “Ando, não Quero Passar”. É ele mesmo quem destaca esta frase. “Não escrevi zero com um sentido único. Mas agora, vejo que esse verso fala também sobre essa corrida da curso, do mercado, dos números. Quero transpor um pouquinho desse jogo.”

Numa conversa com Tim Bernardes, Rubel conta, o colega ventilou uma teoria de “fazer um disco sem nem pensar em lançar, um tanto tão seu que você nem se preocupasse se ele sairia para o mundo um dia”. Foi um dos nortes que o guiou na feitura do novo álbum.

É difícil minimizar nesse processo a experiência da cirurgia para a correção de um prolapso na válvula mitral —o popular sopro no coração. Vislumbrar, aos 32 anos, ter seu peito lhano numa mesa de cirurgia, deixou marcas na relação de Rubel com sua própria existência e com sua música.

“Mais do que a cirurgia, o pré-cirúrgico alterou completamente a minha forma de viver a minha própria vida e a minha relação com o tempo”, afirma o compositor. “Porque acho que foi a primeira vez em que pensei, ‘talvez exista alguma chance concreta de que eu morra daqui a um mês’. Isso faz você entender quais são as prioridades reais da sua vida, sua relação com o trabalho e com o próprio sucesso.”

Veio, assim, uma urgência de pensar menos “na visibilidade, no quanto você é visto, no quanto você é estremecido, no quanto de ingresso você vende, no quanto de verba você ganha, nessas coisas que ganham uma proporção muito maior do que deveriam na vida de um artista”.

O que restou porquê foco? As pessoas amadas, o fascínio pela música que o levou a inaugurar a imaginar aos 12 anos. A venustidade, enfim, essa vocábulo que aparece no título, disfarçada em migalha de diálogo, coloquialidade —enfim, é essa a natureza da música, transportar venustidade ao nível do pavimento.

“Reckoner”, música do Radiohead que ele canta em “Venustidade”, é revérbero direto desse fascínio inicial pela música —e remete aos reencontros com o game “Driver”, com a lar da mãe, com a juventude, enfim. “Esse disco, ‘In Rainbows’, foi revolucionário na minha vida, marcou minha juventude. Na hora de gravar o álbum, essa música que eu não tocava há mais de dez anos de repente surgiu porquê se fosse novidade, porquê se fosse minha, e porquê se fosse prima de todas as outras do repertório.”

Outra filete do disco que não é de Rubel é “A Janela, Carolina” —na verdade, é uma versão em português sua para a música de El David Aguilar. “Eu tinha feito a versão há cinco anos. Ela não cabia no repertório de ‘As Palavras’, mas era perfeita para o ‘Venustidade’”.

Rubel descreve “Venustidade” porquê seu disco mais brasílico. Ele explica que se refere a uma forma de se fazer música no Brasil, sobretudo a partir das conquistas harmônicas e melódicas da bossa novidade. “O que tem de brasílico no álbum está muito nessa aproximação com essa maneira de redigir simetria, de encontrar caminhos que são um pouquinho improváveis, mas que são agradáveis ao ouvido também”, diz o compositor.

“A música brasileira é um patrimônio para a gente tutorar com unhas e dentes”, afirma Rubel. “Temos que tentar dar perpetuidade a isso o sumo provável, dentro das nossas limitações. Porque é milagroso. É muito poderoso esse nível de inventividade, de gramática que se construiu cá”.

Construído sobre cordas, voz e violão, “Venustidade” teve porquê referência maior exatamente dois desses milagres a que Rubel se refere —os discos “Amoroso”, de João Gilberto, e “Fina Estampa”, de Caetano Veloso. Os arranjos orquestrais de Henrique Albino —e de Arthur Verocai, em “Reckoner”— sustentam o legado a que Rubel presta tributo.

“Venustidade” é portanto, uma maneira de Rubel exercitar —entre “Driver” e “Amoroso”, entre o sopro no coração e o migalha solto de uma conversa— o libido profundamente humano de driblar a morte.

“Essa é a origem do disco: porquê a gente ganha da morte em vida? Porque a morte vai lucrar da gente em qualquer momento, inevitavelmente. Mas porquê é que a gente ganha dela estando vivo? Uma vez que a gente faz essa vida ser maior do que a morte?”

Folha

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