A recente exoneração da regente Ligia Amadio da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, a OSMG, desencadeou uma vaga de reações indignadas de maestros, instrumentistas, compositores e associações de músicos.
A saída de Amadio dos cargos de regente titular e diretora músico da orquestra tem mobilizado segmento expressiva da cena brasileira do repertório clássico nas últimas semanas. Aliás, nas redes sociais, há manifestos e comentários sobre o incidente assinados por nomes e grupos da América Latina e da Europa, uma vez que a Orquestra Sinfônica Vernáculo, da Argentina, e a Associação Mulheres na Música, da Espanha.
No sábado (31), até foliãs do Carnaval de Belo Horizonte protestaram contra a exoneração da regente. O conjunto Sagrada Profana, formado por mulheres, levou às ruas uma tira com os dizeres: “Viva Ligia Amadio”.
A OSMG, que completa meio século neste ano, é um dos principais corpos artísticos do Palácio das Artes, na capital mineira. Esse multíplice público é governado pela Instalação Clóvis Salso, a FCS, que está vinculada à Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais, a Secult.
A crise foi deflagrada no dia 26 de novembro do ano pretérito, quando a percentagem de cultura da Tertúlia Legislativa de Minas Gerais promoveu uma audiência pública para debater a precarização do trabalho dos músicos do estado.
Convidada para falar pela percentagem, Amadio disse que a OSMG era “a orquestra mais mal paga deste país”. “Eu tenho a honra de dirigi-la, mas tenho a vergonha de que os músicos sob a minha direção enfrentem essa situação. Vou expor quanto ganha um músico de fileira quando entra na Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, patrimônio público cultural e histórico deste Estado. Um músico de fileira ganha R$ 1.618,72 [por mês]”.
“Músico de fileira” é uma frase usada para se referir aos instrumentistas de uma orquestra que se sentam da segunda fileira para trás, ou seja, que não são líderes do seu naipe.
Pouco mais de um mês depois da audiência, no início de janeiro, Amadio foi avisada pela instauração de que seu contrato havia sido encerrado.
Questionada, a FCS afirmou, em nota, que o contrato foi encerrado devido a uma readequação da programação neste ano. “Para comemorar os 55 anos do Palácio das Artes, [a fundação] decidiu homenagear regentes que já estiveram adiante da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e fazem segmento dessa história, convidando-os para conduzir as apresentações previstas para 2026”.
Sobre o salário, a organização disse que a remuneração média dos integrantes da orquestra, considerando a folha de pagamento de janeiro deste ano, é de R$ 7.868,91. Segundo a instauração, nenhum integrante recebe R$ 1.618,72, uma vez que havia afirmado Amadio. A menor remuneração deste mês era de R$ 4.289,10, e a maior, de R$ 14.356,88.
A reportagem teve chegada a contracheques de três instrumentistas concursados da OSMG. Um desses músicos, há 12 anos na orquestra, recebeu pouco mais de R$ 1.600 uma vez que décimo terceiro salário em 2025. O valor inclui descontos com previdência e assistência médica.
A remuneração de outro integrante, também com 12 anos na OSMG, ficou em torno de R$ 4.500 em dezembro pretérito. O valor contempla gratificações e descontos. Um terceiro contracheque, de um instrumentista há 25 anos na orquestra, mostra o valor de pouco mais de R$ 7.000, também com gratificações e descontos.
Procurada pela reportagem, a maestra Ligia Amadio preferiu não comentar a decisão da instauração.
“A maestra Lígia Amadio precisa ser respeitada, valorizada e reconhecida pelo óptimo trabalho adiante da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, umas das orquestras mais importantes do Brasil e por sua dedicação e preocupação com os músicos. Um contrato de um maestro sério e comprometido com o trabalho nunca poderia ser terminado assim”, comentou Roberto Minczuk, maestro da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo e um dos principais regentes do país.
Por meio das redes sociais, outros maestros lamentaram a decisão, uma vez que Carlos Prazeres, da Orquestra Sinfônica da Bahia; Cinthia Alireti, da Sinfônica da Unicamp, a Universidade Estadual de Campinas; e Tiago Flores, da Orquestra de Câmara da Ulbra, a Universidade Luterana do Brasil.
Também vieram à tona críticas à exoneração assinadas por instrumentistas renomados, uma vez que os violinistas Elisa Fukuda e Emmanuele Baldini, spalla da Osesp, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, e os pianistas Clara Sverner, Jean Louis Steuerman e Maria José Carrasqueira.
“É simplesmente lastimoso que, por tutorar o interesse de seus músicos (…), foi afastada da orquestra para a qual ela trouxe sua dedicação totalidade”, escreveu Steuerman. Compositores, uma vez que João Guilherme Ripper e Rodrigo Lima, também se manifestaram.
A Associação Mulheres na Música, da Espanha, pediu “a adoção de medidas de reparação que restituam o bom nome e a distinção profissional” da regente. Grupo que reúne mulheres adiante de orquestras e coros no mundo todo, o Simpósio Internacional das Mulheres Regentes também lançou epístola de espeque a Amadio.
Um subscrição que pede o retorno dela à OSMG reunia mais de 13 milénio assinaturas até a publicação deste texto, na noite de terça (3).
