Denise fraga e tony ramos emocionam em peça sobre memória

Denise Fraga e Tony Ramos emocionam em peça sobre memória – 14/08/2025 – Mise-en-scène

Celebridades Cultura

“O Que Só Sabemos Juntos”, com direção de Luiz Villaça, é um espetáculo que une dois ícones da dramaturgia brasileira – Denise Rochedo e Tony Ramos – em uma narrativa sensível e profundamente humana. A peça mergulha em temas uma vez que memória, ancestralidade, afeto e os laços que nos unem e separam, apresentando um diálogo rico e emocionante entre seus personagens.

A peça começa no terreno do palpável: “Qual seu quina predilecto em mansão?” e “O que levaria consigo se tivesse somente um minuto para fugir?” são perguntas que despertam histórias reais na plateia. Objetos cotidianos ganham significado afetivo nas mãos de Tony Ramos e Denise Rochedo – um relógio quebrado, uma epístola amarelada, a descrição de um tapete herdado.

Quando Tony introduz um trecho de “Tio Vânia”, a peça ganha outras camadas. Na cena em que um pai, diante de uma mansão inundando, pede à filha que salve “o livro vermelho” (uma edição da peça de Tchékhov), o espetáculo cria um diálogo entre ficção e veras. O livro que o personagem escolhe salvar entre todas as posses fala justamente sobre arrependimentos e vidas não vividas – ecoando a pergunta que Denise fará em seguida: “O que nos define, o que fizemos ou o que deixamos de fazer?”

A pergunta ressoa de forma privativo porque surge organicamente das histórias antes compartilhadas. Um objeto herdado traz consigo não só a memória da avó, mas talvez os planos que ela não concretizou. O livro marcado contém tanto as páginas lidas quanto as lições não aplicadas.

Denise conduz essa transição com leveza e sensibilidade. Quando um testemunha menciona que salvaria fotos da família, ela pergunta: “E das que não foram tiradas, o que nos resta?” Tony, enquanto isso, folheia o livro de Tchékhov uma vez que quem procura respostas nas páginas alheias. A direção une esses elementos com uma iluminação que gradualmente transforma objetos em sombras e pensamentos em luz.

O momento mais potente ocorre quando as histórias do público, o texto de Tchékhov e a reflexão sobre sonhos não realizados se entrelaçam. A peça sugere que talvez nossos livros salvos – sejam eles objetos reais ou memórias intocadas – falem tanto sobre nós quanto nossas ações visíveis, e que no espaço entre o que foi vivido e o que foi somente imaginado, encontramos os fios mais frágeis e verdadeiros que nos conectam aos outros.

No final, fica a sensação de que todos saímos carregando nosso próprio “livro vermelho” imaginário – aquele que, numa emergência, revelaria o que realmente somos.

Três perguntas para…

… Denise Rochedo

Porquê vocês criam um envolvente de crédito para que o público compartilhe histórias tão pessoais no início do espetáculo?

Acho que essa crédito vem de muito tempo. Desde 2008, eu recebo o público na porta, criando proximidade. Quando eu fiz “Retrato Falado” [quadro de humor baseado na vida real no “Fantástico”], a gente sempre falava: “Não podemos rir dela, mas podemos rir com ela”. É sobre respeitar a história do outro, ser uma homenagem, não uma chufa.

Em “Eu de Você”, recebemos quase 300 histórias pessoais, cheias de vulnerabilidade. Isso me deixou ainda mais responsável e honrada com a crédito delas. Em “O Que Só Sabemos Juntos”, eu prelúdios conversando de forma oriundo — “É sua filha? Onde moram?” —, sem perguntas diretas. No início, as pessoas desconfiam, mas, quando percebem que meu interesse é genuíno, surge um fulgor nelas. É lindo ver isso.

Desenvolvi técnicas para me concentrar, olhar nos olhos, mesmo com gente chamando e pedindo foto. É um manobra de escuta. E o Tony Ramos entrou nessa com a gente. Ele poderia encontrar difícil, mas faz com tanto paixão… É emocionante ver ele se conectando com o público, ouvindo histórias e recebendo gratidão. A TV te dá um público, mas não essa proximidade. Ver ele se emocionar com isso é muito bonito.

Enfim, é uma construção que vem de anos, de saudação, escuta e essa troca que nutre a todos.

De que maneira você descreveria a dinâmica de cena com Tony Ramos nesse formato tão pessoal de peça?

Essa peça é dissemelhante do “Eu de Você” — talvez até mais perigosa. Estamos ali, olho no olho, em conversas com a plateia. E estar ao lado do Tony nesse terreno — escorregadio, mas delicioso — nos uniu muito. Foi lindo ver o prazer dele em trebelhar neste lugar.

Quando ele propôs fazer um tanto juntos, depois de se emocionar com “Eu de Você”, ele disse que queria justamente isso: interação, emoção à flor da pele. E vejo ele feliz nesse espaço. Detrás do palco, a gente sempre divide as histórias que ouvimos. A peça traz um mar de vivências, e ele se entrega totalmente.

É uma felicidade estar ao lado dele, desse príncipe da gentileza, esse grande camarada. Já éramos próximos, mas ver seu exaltação com essa experiência — esse teatro dissemelhante, que nem sei se chamo de “peça” — tem sido lindo. A reverberação disso tudo tem sido muito privativo. A gente vê coisas mágicas acontecendo.


Por que o público deveria transpor de mansão para ver “O Que Só Sabemos Juntos” em vez de consumir entretenimento em mansão?

O teatro é um lugar valedoiro – e talvez fique ainda mais. Quando você vai, desliga o celular e se entrega, acontece um tanto vasqueiro hoje: um mergulho profundo. No cinema ou em shows, as pessoas ficam checando o telefone, mas no teatro há esse pacto. Aqueles primeiros minutos sem distração te levam a um estado que poucos conseguem entender sozinhos hoje.

É uma vez que um sonho coletivo – todo mundo acreditando na mesma história, sentindo juntos. O teatro fortalece a imaginação, um tanto que as telas estão nos roubando. E tem mais: é onde você descobre que não está sozinho. Ri e se reconhece naquilo. Simone de Beauvoir dizia que a arte traz o “consolo da fraternidade”. É isso.

Se alguém diz que não vai ao teatro porque é custoso, eu pergunto: “Quantas cervejas você toma num rolê?” Se for quatro, sugiro pegar o quantia de duas e ir ao teatro – tem ingressos acessíveis, tem teatro de perdão até. Depois, toma as outras duas com os amigos, mas agora com a cabeça enxurro de histórias. O teatro potencializa tudo.

Tem gente indo pela primeira vez e saindo transformada. É sobre restabelecer o fascínio pela vida. A existência não é fácil, mas no teatro você se sente secção de um tanto maior. Vale cada minuto fora de mansão.

Tuca – rua Monte Contente, 1.024 – Perdizes, região oeste. Sex., 21h; sáb., 20h e dom., 17h. Até 28/0. Duração: 90 minutos. A partir de R$ 100 (meia-entrada) em sympla.com.br e na bilheteria do teatro.

Folha

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