No palco despojado do Teatro Estúdio, onde uma cadeira e um foco de luz são toda a cenografia, a atriz, diretora e dramaturga Denise Stoklos realiza uma proeza. Em sua montagem de “Mary Stuart”, atualmente em edital em São Paulo, ela não unicamente revive o embate histórico entre as rainhas rivais da Escócia e da Inglaterra, mas o internaliza, transformando um conflito político de séculos em um duelo visceral dentro de um único corpo.
Esta obra, que estreou originalmente em Novidade York em 1987, é a peça-chave que deu origem ao teatro forçoso, a linguagem cênica radical desenvolvida por Stoklos. O manifesto é simples: despir o palco de todo excesso para que a máxima teatralidade emane diretamente do ator. E cá, a teoria se faz prática de forma avassaladora. Stoklos é Mary Stuart, a rainha católica passional e prisioneira, e no momento seguinte, sem qualquer troca de figurino, é a calculista e soberana protestante Elizabeth I.
A transição entre as duas monarcas é um espetáculo à secção. Não se trata de uma simples mudança de tom, mas de uma transmutação completa. A postura, o ritmo da fala, o gesto e, principalmente, o olhar se alteram de forma tão contundente que a presença da outra rainha se torna palpável. A tensão não reside na troca de réplicas entre duas atrizes, mas na pujança conflitante que pulsa em Stoklos, tornando a disputa pelo trono da Inglaterra uma guerra travada em seu próprio corpo.
Ao encarnar não unicamente as duas rainhas, mas também as figuras masculinas que as cercam, Stoklos expõe a estrutura patriarcal que, em última instância, manipulava e restringia a domínio de ambas. A sangrenta disputa entre as primas, na visão da artista, torna-se uma poderosa metáfora para discutir temas universais e atemporais uma vez que a vexação, o tirocínio do poder, a liberdade e a requisito da mulher em esferas de comando.
A montagem surpreende ao lastrar a densidade trágica do tema com um humor amolado, quase demolidor. O riso, quando surge, não alivia a tensão, mas a aprofunda, revelando o sem razão das maquinações políticas e da fragilidade humana por trás das coroas.
Retornando a São Paulo em celebração aos 75 anos de vida e 57 de curso da artista, “Mary Stuart” prova sua assombrosa atualidade. É um trabalho que exige entrega totalidade do testemunha, convidando-o a desistir as expectativas de um drama histórico convencional. A experiência é uma submersão na potência do ator uma vez que meio nevrálgico do teatro.
Três perguntas para…
…Denise Stoklos
Você disse em uma entrevista que remontar um repertório é um “grande tirocínio positivo”. O que mudou na sua tradução de Mary e Elizabeth ao longo dessas três décadas? Alguma partitura cênica específica foi revisada ou alterada?
A remontagem não buscou mudanças, houve um proveniente enxugamento, mas zero que mexesse na estrutura da peça. A intenção não era de revisar ou modificar zero, por isso a remontagem seguiu os parâmetros fundamentais desde sua estreia.
O teatro forçoso é a base do seu trabalho. Para o público que vai te ver pela primeira vez, uma vez que explicaria esse noção de forma prática, usando “Mary Stuart” uma vez que exemplo?
“Mary Stuart” está baseada na concepção do ator em cena, uma vez que responsável, diretor, coreógrafo de si mesmo, e ainda usando princípios que eu diria repercutir o minimalismo nas repetições, quebras, dilatação de momentos específicos da cena.
Levar a peça para mais de 30 países e em 7 idiomas é uma conquista extraordinária. Houve alguma plateia ou cultura específica que reagiu à história de uma forma que te surpreendeu?
Em todos os lugares a reação foi sempre similar, o que só prova a universalidade do teatro. Mas quando estreei o espetáculo em Novidade Iorque, em 1987, no [Teatro] La Úbere, sem incerteza a ampla receptividade de público e sátira foram marcantes para mim.
Teatro Estúdio – r. Mentor Nébias, 891, Campos Elíseos, região médio. Qui., 20h e sáb., 17h. Até 27/9. Sessões extras: 21 e 28/9, 16h. Duração: 50 minutos. A partir de R$ 50 em sympla.com.br ou na bilheteria do teatro
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