Denise Stoklos reenvia 'Fax para Colombo' 30 anos depois

Denise Stoklos reenvia ‘Fax para Colombo’ 30 anos depois – 08/11/2025 – Mise-en-scène

Celebridades Cultura

Denise Stoklos acende fogueiras. E no palco íntimo do Teatro Estúdio, sua labareda mais urgente, “Um Fax para Colombo”, queima com a mesma ferocidade de 1992. Levante não é um retorno nostálgico; é um reencaminhamento vital de uma mensagem que teima em não ser entregue.

O fax do título é uma missiva de paixão e ódio, um SOS histórico, endereçado a um destinatário fantasma. A peça é um manifesto decolonial embuçado de solilóquio, onde Stoklos, com seu Teatro Necessário, raspa a superfície da história até sangrar. Sem cenário, sem excessos: só um corpo, uma voz e a verdade nua e crua.

Ela desmonta a conquista ultramarina. Colombo vira um “gnomo maléfico”, o “descobrimento” se revela um negócio sujo, e a colonização, uma feitiçaria que nos mantém subdesenvolvidos há 500 anos. Através do quotidiano de um náufrago latino-americano, Stoklos inverte o olhar. A história não é mais contada pelo vencedor, mas pela voz que sobrou – a dos povos massacrados, dos escravizados, das culturas soterradas.

Stoklos dança entre a filosofia cortante e o humor ácido, uma estratégia brechtiana para nos manter acordados. O riso não alivia o golpe; o afia. Em 50 minutos concentrados, ela conduz uma relação quase sagrada com a plateia. No Teatro Estúdio, com seus 100 lugares, somos cúmplices obrigatórios. Não há para onde passar do seu olhar ou da sua termo.

A atualidade da peça é seu trunfo mais trágico. Se o fax ainda precisa ser enviado, é porque as estruturas de poder que ele denuncia seguem de pé. A temporada paulistana, com ingressos populares e sessões gratuitas, é um ato de conformidade rara. É a estética da núcleo encontrando a moral da acessibilidade.

“Um Fax para Colombo” é um organização vivo de resistência. Stoklos exige rebeldia. E no escuro da sala mínima, sua voz, “que arde em chamas”, nos lembra que a descolonização não é um evento do pretérito, mas uma luta que se reacende a cada novidade plateia, a cada consciência que se recusa a admitir o mundo uma vez que nos foi (mal) descrito. O fax chegou. E a mensagem, persistente, clama por ação.

Três perguntas para…

… Denise Stoklos

A peça nasce em 1992 uma vez que um contraponto às comemorações dos 500 anos. Hoje, vivemos uma era de revisionismos históricos, mas também de negacionismos. Uma vez que fazer com que a sua sátira ecoe num cenário de tanta polarização?

Acredito que as críticas levantadas no texto “Um Fax Para Colombo” são muito contundentes, impossíveis de não serem feitas, entendidas e compartilhadas, quer pela direita quer pela esquerda. Menciono as opressões bárbaras que passaram os povos originários.

O Teatro Necessário propõe uma “redução de meios” para chegar a uma “ampliação de sentidos”. Em um mundo hiperestimulado e do dedo, por que a austeridade de um corpo solo e uma termo nua ainda é um ato tão radical e potente?

O teatro mantém esta função de trazer ao testemunha preenchimentos às suas buscas mais profundas da existência. E no FAX mesclamos a questão coletiva da invasão no Descobrimento da América com as descobertas pessoais de uma vez que podemos estar também nos exterminando, a nós mesmos, em nossas vidas particulares, por tantas razões às vezes nem integralmente percebidas.

O texto tem a densidade de um experimento filosófico, mas a pulsação de um poema. Uma vez que é o trabalho de ortografar para a cena quando a termo tem um peso tão político e o corpo é seu veículo de entrega?

Aí reside uma das bases do Teatro Necessário: estruturar uma linguagem que se aproprie do significado grande de “encenação”, lugar onde várias camadas de informação e de sentidos sensibiliza ao mesmo tempo, seja no macro e no micro, no coletivo e no pessoal, na história e na atualidade, mas sobre o outro e sobre o eu em conjunto. Para isso, emitindo durante o texto um jogo de entonações que surpreenda e capture aquele que está presente ao evento da cena no imediatamente agora e o envolva, para que saia mais potente do teatro.

Teatro Estúdio – rua Mentor Nébias, 891, Campos Elíseos, região medial. 12 e 17/11, às 20h; 20/11, às 16h. 19 e 25/11, às 16h*. Duração: 50 minutos. A partir de R$ 30 (ingresso popular) em sympla.com.br e na bilheteria do teatro

*sessões gratuitas, ingressos limitados


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Folha

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