Dennis Carvalho a morte original de Odete Roitman 28/02/2026

Dennis Carvalho a morte original de Odete Roitman – 28/02/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Dos 78 anos vividos por Dennis Roble, pelo menos 64 se passaram entre estúdios e locações de TV. Mas mesmo que ele não tivesse seus créditos uma vez que diretor gravado em 31 novelas e onze séries, e atuado em 27 produções diante das câmeras, bastariam dois títulos para enaltecer sua biografia: o seriado “Malu Mulher” (1979-80), marco revolucionário para o feminismo, e “Vale Tudo” (1988-89), considerada por nove entre dez especialistas do ramo a melhor telenovela brasileira de todos os tempos, ao lado de “Roque Santeiro”.

Em “Malu Mulher”, onde também trabalhou uma vez que diretor, ainda subordinado a Daniel Fruto, foi o másculo tóxico que fazia par com a protagonista, vivida por Regina Duarte. Na função de ex-marido, Pedro despertava nela a autoestima que a levava a buscar independência afetiva e financeira. Ao abordar assuntos que hoje são ainda mais raros na TV, uma vez que monstruosidade, orgasmo e métodos anticoncepcionais, o seriado enfrentou problemas com a exprobação federalista, mas fez história ao levar reflexões inéditas à sociedade daqueles dias.

Em “Vale Tudo”, basta manifestar que foi Roble quem comandou as gravações da histórica sequência que revelava quem matara Odete Roitman, vilã icônica vivida por Beatriz Segall. Cenas de bastidores registradas pelo Fantástico, à estação, mostram o momento em que o diretor anunciou a todo o elenco que era Leila, personagem de Cássia Kis, a assassina. “Fiquei assustada. Nunca imaginei, era uma pessoa tão tranquila”, dizia uma telespectadora ouvida na rua por Glória Maria na ocasião. Pois é. O prova endossava a surpresa do público com a criminosa.

E só na manhã da mesma sexta-feira em que o último capítulo foi ao ar, Roble gravou as cenas que denunciavam a autoria do homicídio, a termo de evitar o vazamento da informação para jornais e revistas. Havia o risco de o spoiler chegar ao público pelas ondas do rádio ou de fofoqueiros de outros canais de TV, um tanto sem muito espaço naqueles dias em que as notícias demoravam mais a se espalhar: “Vamos matar Odete Roitman”, avisou ele, com cigarro Hollywood entre os dedos e o maço sobre a mesa de onde coordenava a edição.

“Pegar uma romance dessas, muito muito escrita, muito muito interpretada, uma história que você não conseguia parar de ver, e o sucesso que fez no Brasil inteiro… Eu acho que eu escrevi também o meu nome na história da televisão”, disse ele à reportagem do Fantástico.

Outra passagem histórica dirigida por Roble no capítulo final era o gesto da banana feito pelos braços de Marco Aurélio (Reginaldo Faria), empresário corrupto, ao sobrevoar a Baía de Guanabara com seu jatinho. A sequência fazia segmento de um projecto bem-sucedido de fuga do país, para não ser recluso.

Vinte e dois anos depois, o responsável Gilberto Braga, de novo sob direção de Roble, recriaria a cena da banana, dessa vez com Herson Capri no papel do empresário corrupto na romance “Insensato Coração”, e a percepção de que o Brasil de 2011 já não aceitava mais impunidade, o que levava o personagem a ser retido antes da fuga.

Corta. Saltemos para 2018: vendo que “Vale Tudo” voltaria a fazer sucesso no via Viva, o responsável constatou que a trama não havia perecido, pois ser honesto no Brasil ainda era uma prova de resistência sem valor. O dramaturgo portanto cancelou seu otimismo e lamentou que o país não tivesse mudado zero em 30 anos.

Parecia que não, mas alguma coisa havia mudado, sim. Roble seria desafiado a notar essa transformação em 2017, ao se ver confrontado por um movimento que ganhou força nas redes sociais e depois entre o próprio elenco de “Segundo Sol”, que questionava a exiguidade de atores negros no núcleo principal de uma romance ambientada na Bahia, estado onde mais da metade da população se declara afrodescendente.

A Orbe já fizera várias novelas na Bahia com maioria branca, sem nunca ter sido cobrada por isso antes. Novos tempos. Ao ser questionado sobre o tema na ocasião, o diretor respondeu a esta jornalista: “Não vamos forçar a barra, acho que a Orbe tem uma preocupação com isso, mas é uma obra de ficção, não é documentário, tem que ter uma licença poética”.

Normalmente comemorado pelos atores que dirigia, era pragmático nas decisões referentes ao set e também era muito capaz de desgostar a uns e outros. Em 2011, no início da produção de “Insensato Coração”, anunciou que Ana Paula Arósio estava fora da romance em seguida ela deixar de comparecer a gravações agendadas em Florianópolis. Arósio, que justificou sua exiguidade por questões particulares, pediu seu desligamento da Orbe em seguida. Paolla Oliveira assumiu seu papel.

Folha

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