Ministério Da Cultura Estuda Retomar Prédio Que Abrigou O Dops

Depois de 10 anos, antiga sede do Dops no Rio caminha para tombamento

Brasil

Palco da repressão política no século pretérito, o prédio do vetusto Departamento de Ordem Política e Social (Dops), no núcleo do Rio de Janeiro, uma joia da arquitetura, terá o tombamento definitivo deliberado no termo do mês. O martelo será derrotado na reunião do Juízo Consultivo, instância máxima do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Vernáculo (Iphan) no dia 26, com transmissão ao vivo pela internet. O processo tramita há mais de uma dezena no órgão.

O Iphan justifica o tombamento pela valia histórica e artística do imóvel e destaca o “papel simbólico (da instituição) nas lutas sociais e políticas em obséquio da democracia e da liberdade”, afirma o instituto em nota enviada à Filial Brasil. Com a medida, qualquer diferença no imóvel precisa ser comunicada e aprovada pela instituição.

Se efetivada, a medida atende também pedidos da sociedade social e do Ministério Público Federalista (MPF). Há mais de 40 anos, entidades de resguardo dos direitos humanos reivindicam a instalação ali de um núcleo de memória que retrate a violência do Estado contra grupos sociais e políticos.

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Rio de Janeiro (RJ), 11/11/2025 - Foto feita em  24/11/2014 – Prédio da antiga sede do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), durante visita da Comissão da Verdade, em 2014, na Rua da Relação, no centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 11/11/2025 - Foto feita em  24/11/2014 – Prédio da antiga sede do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), durante visita da Comissão da Verdade, em 2014, na Rua da Relação, no centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Antiga sede do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) no Rio ainda guarda documentos da quadra da ditadura – Foto Tomaz Silva/Filial Brasil

Inaugurado em 1910, de inspiração francesa, o prédio foi construído para ser a sede da Polícia Federalista da quadra. Possui carceragens, com celas solitárias e salas de testemunho com isolamento acústico, por exemplo. A posse é do governo federalista, mas o imóvel está doado para a Polícia Social do Estado do Rio de Janeiro desde a dezena de 1960, sob a requisito de uso para fins policiais e com a obrigação de preservação do imóvel.

Fechado há mais de uma dezena, o prédio está em estado de conservação precário desde pelo menos 2014, quando a Filial Brasil esteve no sítio, com a Percentagem Estadual da Verdade do Rio de Janeiro.

Até o início dos anos 2000 chegou a funcionar no prédio um embrião de Museu da Polícia Social, mas que não foi para a frente. Do sítio, mal acondicionado, foi resgatado nos anos 2020 o montão da Coleção Nosso Sagrado. Foram retirados de lá mais de 500 objetos de religiões de matriz africana, apreendidos pela polícia fluminense entre 1889 e 1964, hoje sob a guarda de lideranças religiosas e do Museu da República, que é federalista, em seguida ampla campanha.

O Coletivo RJ Memória, Verdade, Justiça e Reparação esteve no vetusto Dops recentemente, durante vistoria do MPF, em 2024. Se, por um lado, a entidade se deparou com um prédio deteriorado, afrescos cobertos, vitrais quebrados, documentos empoeirados e ensacados e móveis embrulhados, por outro encontrou salas porquê foram deixadas pelos agentes da repressão. A entidade conseguiu restaurar segmento dos documentos ensacados em parceria com o Registo Público do Estado do Rio de Janeiro (Aperj). 

“O Dops tem muitos elementos autênticos”, disse Felipe Nin, do coletivo. “Desde que o prédio deixou de funcionar porquê a sede do Dops, ele não teve nenhum outro uso. A gente tem, em 2025, um prédio com todos os elementos originais de quando ele funcionava porquê uma secretaria da repressão”.


Comissão Nacional da Verdade realiza diligência no Hospital Central do Exército, local da morte de Raul Amaro Nin Ferreira. Na foto, Felipe Nin Ferreira, sobrinho de Raul Amaro Nin Ferreira (Tomaz Silva/Agência Brasil)
Comissão Nacional da Verdade realiza diligência no Hospital Central do Exército, local da morte de Raul Amaro Nin Ferreira. Na foto, Felipe Nin Ferreira, sobrinho de Raul Amaro Nin Ferreira (Tomaz Silva/Agência Brasil)

Felipe Nin, do Coletivo RJ Memória, Verdade, Justiça e Reparação, visitante antiga sede do Dops no Rio – Foto Tomaz Silva/Filial Brasil

Segundo ele, estão lá os “armários de armamentos, com a matrícula Dops, insígnias, as carceragens, a sala onde os documentos foram produzidos pela lucidez, o mobiliário, a sala onde era o gabinete de Filinto Müller, com a mesa dele, o recanto, é impressionante”, destacou. Ex-chefe da polícia de Getúlio Vargas, Müller era um verdadeiro carrasco, segundo os registros históricos, tendo sido responsável pela repressão a estudantes, indígenas e presos políticos, porquê Pagu, Carlos Mariguella, Graciliano Ramos, e fundamental na extradição de Olga Benário, judia, à Alemanha nazista.

O coletivo do qual Nin faz segmento é responsável da denúncia que deu origem ao interrogatório do MPF, em 2024, para investigar o desleixo do prédio e de documentos e a violação do recta à memória. Na investigação, a Polícia Social apresentou ao órgão seu projeto de núcleo cultural que, segundo o pesquisador, é incompatível com o de um lugar de memória.

“É um projeto que exalta a Polícia Social, a sua história, mas que não cita o Dops em nenhum momento, nem Müller, e que transforma a carceragem feminina, por exemplo, onde passou Olga Benário, Nilze da Silveira e muitas outras, em um bistrô”, disse Nin. “É um projeto de apagamento”, avaliou.

Com o tombamento, os espaços do prédio não poderão ser descaracterizados. A carceragem feminina, cujas paredes têm inscrições que datam dos anos 1950 e 1980, devem ser preservadas.

Segundo Nin, que é arquiteto, o prédio é um dos mais importantes da história política, tendo recebido opositores dos governos desde o início do século pretérito. Entre eles estão nomes porquê Nize da Silveira, Abdias Promanação, Olga, Luís Carlos Prestes, durante o Estado Novo, sob o governo de Getúlio Vargas, entre 1937 e 1945 e na ditadura militar. Vários foram também torturados no sítio, delito contra a humanidade para o qual o não há receita, de conciliação com leis internacionais.

“Esse prédio representa um pretérito que o Estado brasílico quis extinguir, não quis enfrentar”, disse Nin, que é também sobrinho de Raul Amaro Nin, recluso arbitrariamente pela ditadura, que passou pelo Dops e morreu em seguida tortura em 1971, sob custódia. “Por isso, é importante essa luta, para que essa memória seja lembrada, para que a gente possa mudar as instituições e para que esse tipo de atuação não se repita”.

Com o tombamento, ele acredita que o imóvel ficará protegido de intervenções que não considerem o pretérito da repressão, enquanto a posse não é revertida pelo governo federalista.


Rio de Janeiro (RJ), 11/11/2025 - Foto feita em  24/11/2014 – Prédio da antiga sede do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), durante visita da Comissão da Verdade, em 2014, na Rua da Relação, no centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 11/11/2025 - Foto feita em  24/11/2014 – Prédio da antiga sede do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), durante visita da Comissão da Verdade, em 2014, na Rua da Relação, no centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Prédio da antiga sede do Dops, no Rio, está em estado precário – Foto Tomaz Silva/Filial Brasil

A farmacêutica Ana Bursztyn Miranda, que foi presa por três vezes no Dops, em função de sua atuação contra a ditadura, disse, em 2015, que um lugar de memória contribui contra a violência de Estado.

“A tortura, por exemplo, acontece ainda hoje. Precisamos conseguir diminuir a violência de Estado para que o terror que imperou naquela quadra não volte”, disse ela. Na quadra, Ana participou de protesto do Movimento Ocupa Dops para marcar o Dia Internacional de Combate à Tortura.  

Em nota à Filial Brasil, a Polícia Social confirmou o interesse no prédio e em instalar no imóvel um núcleo cultural, mas não detalhou o projeto.

Fonte EBC

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