'Diálogos sobre a Fé' ajuda a entender obra de Scorsese

‘Diálogos sobre a Fé’ ajuda a entender obra de Scorsese – 03/01/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

O título pode enganar. “Diálogos sobre a Fé” não retoma o macróbio gênero, em desuso na sua forma literária, que poderia caber muito num livro assinado por Martin Scorsese e pelo padre Antonio Spadaro.

Mas não há muito uma troca de ideias entre dois pensadores. Não, o jesuíta Spadaro —progressista, hoje avante do departamento de ensino e cultura no Vaticano em seguida mais de uma dezena porquê editor do jornal La Civiltà Cattolica— se põe porquê um curioso especializado.

Ao ler a introdução, em que o reverendo narra a série de encontros entre os dois, de 2016 a 2024, fica a sensação que muito do papo em si foi deixado de lado, editado ao longo do tempo para que as opiniões de Scorsese fossem o fio condutor, enquanto Spadaro se limita a expressar sua assombro e levantar a esfera para o artista.

Dito isso, “Diálogos sobre a Fé”, leitura rápida e prazerosa, envolve pela desembaraço de uma conversa relaxada, em que Scorsese propõe questões místicas com nitidez, sem desmandar do vocabulário teológico.

São respostas, em universal, mais simples que aquelas que dá em seus filmes —obra que constitui um mistério à segmento. Mas elas ajudam a mostrar porquê o catolicismo do responsável é mais do que um oferecido biográfico ou uma legado de família. É o seu modo de ver as coisas, e ignorá-lo será mais difícil depois desse volume.

Uma vez que ver “Touro Indomável” ou “Taxi Driver” e não pensar na questão da perdão? “É um pouco que acontece ao longo da vida, ela chega quando você não espera”, diz Scorsese a reverência desse divino obséquio imerecido.

Isto é, não há zero, para ele, que o varão possa fazer para “merecer” sua salvação, e o livre vontade —a capacidade de escolher suas ações— seria a prova de que nenhum direcção está definido.Há sempre porquê qualquer um voltar detrás, mesmo assassinos porquê os de “Os Bons Companheiros”, “Cassino” ou “O Irlandês”.

O mais saboroso são as pistas sobre porquê o cineasta octogenário percebe essas questões na sua obra. Ele desenvolve o pensamento sobretudo em relação a “Silêncio”, de 2017, inspirado no livro de Shusaku Endo, sobre a missão católica no Japão e sua repressão brutal no século 16, e depois em “Assassinos da Lua das Flores”, seu longa mais recente, sobre o massacre da tribo Osage, nos Estados Unidos.

Spadaro se surpreende ao ver porquê “A Última Tentação de Cristo” —a ambiciosa adaptação de 1988 do romance de Níkos Kazantzákis, ficcionalizando a vida de Jesus— é muito menos citado que “Caminhos Perigosos”, seu primeiro longa, de 1973, onde violência e religião se manifestam em plena vida moderna.

Scorsese lembra ainda que, na dezena anterior, na faculdade de cinema, planejava um filme sobre a vida de Cristo na Novidade York moderna. Mas desistiu em seguida presenciar a “O Evangelho Segundo São Mateus”, de Pier Paolo Pasolini, de 1964. “Havia tanta formosura crua e potência naquelas imagens. Pasolini deu uma iminência, uma urgência, à presença de Jesus, e seu Jesus não era uma estrela de cinema”, diz.

Comentários porquê esses dão a ver o pensador em sua melhor forma —a do cinéfilo entusiasmado, aquele mesmo que conduz “Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano”; aquele que não hesita em referir Arthur Penn, Roberto Rossellini, John Ford. Ou contrastar a “violência que fervilha em cada fotograma” de Samuel Fuller, com quem se identifica mais do que com os chineses John Woo ou Zhang Yimou, para quem tiroteios são encenados porquê balés.

Há ainda o leitor que reconhece a grandeza de Georges Bernanos, de “Quotidiano de um Pároco de Povoação”, mas que o considera muito severo em relação à ternura do nipónico Shusaku Endo. Ou ainda que, porquê Spadaro, tem grande assombro pela americana Marilynne Robinson, ainda que discorde da sua visão sobre a predestinação.

Para o cineasta, a crença e o questionamento da fé caminham juntos, nutrem um ao outro, enquanto a violência é uma questão de liberdade.

Há inclusive a anedota de quando Scorsese conversou com um monge que acompanhava o Dalai Vasa em Washington. O tibetano diz que havia visto “Gangues de Novidade York”, ao que o diretor responde, um pouco constrangido, que o longa era um tanto violento. “Ah, não se preocupe, é a sua natureza”, respondeu o religioso.

Scorsese se emociona, e compreende logo que, por mais habilidoso que possa ser ao produzir uma diversão, sua visão é um fruto de toda a geração conturbada no bairro de Little Italy, seu recolhimento na puerícia devido à asma, a valia do padre Francis Principe na sua formação, a quase opção pelo sacerdócio —até, enfim, a reparo dos cruzamentos entre família, criminalidade, culpa e salvação.

Uma visão de mundo que o incentiva a responder a um chamado do papa Francisco, sob a forma de um roteiro de um filme sobre Jesus. O texto já estava disponível na internet, mas sua inclusão no final do volume é o vértice da leitura.

Visceral, Scorsese interpreta uma passagem do livro de Mateus, em que Jesus diz que veio “não para trazer sossego, mas a gládio”. A partir de memórias e trechos de seus filmes, porquê do belo e subestimando “Vivendo no Limite”, em vez da pueril leitura da guerra santa que o trecho pode recordar, Scorsese escolhe lê-la numa cena prosaica no metrô de Novidade York.

Ele flagra uma troca de olhares entre um morador de rua e uma moça que se questiona se deve parar de olhar o celular e hesita em pegar um dólar na carteira, sob o risco de o pedinte ver que ela tem mais moeda.

É um gesto trágico de um mundo sem misericórdia, mas Scorsese encontra alguma resposta à gládio de Cristo nessa troca de olhares. “A vida nunca para. Porém, aquele momento pode transfixar a porta para uma mudança verdadeira. Agora, transpor a soleira? Já é outra história”, diz a própria voz em off de Scorsese no roteiro.

É um refrigério ver uma discussão dessa natureza num cenário em que o fundamentalismo ou o materialismo infantil encobrem outros horizontes. Pelo que aborda, e pela astúcia com que se discute, o livro é obrigatório para qualquer um que queira compreender a dificuldade da vida porquê um vale de lágrimas e perdão, e de Martin Scorsese —um varão e cineasta que sempre preferiu a lucidez ao desaforo.

Folha

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