Diário falado de Leonilson vira livro após ser barrado – 08/01/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Em 22 de agosto de 1991, Leonilson fez o teste para deslindar se era portador do HIV. Horas depois, teve um sono intranquilo. “Agora são duas da madrugada, acordei assustado. Comecei a tremer, a tremer, a tremer, porquê se estivesse com muito indiferente, e fiquei com susto. Estou uma rima de nervos. Acho que não tenho zero, não”, narrou o artista para o gravador que carregava sempre.

Um mês depois, ele relatava o resultado do teste —positivo. Nas semanas seguintes, embora não pensasse no ponto 24 horas por dia, disse que o HIV era a primeira coisa a passar pela sua cabeça ao convencionar. Contou não ter susto de morrer e se questionou, em palavras dilacerantes, porquê revelar o diagnóstico, à idade uma sentença de morte, para seus pais e irmãos.

As confidências do artista que fez dos seus bordados, desenhos e pinturas um retrato da geração perdida para a Aids podem ser lidas agora num livro com a reprodução de trechos das fitas gravadas por ele nos três anos anteriores à sua morte, que aconteceu em 1993, em decorrência da doença. Caminhando na rua, em aeroportos pelo mundo ou no quarto de sua moradia em São Paulo, José Leonilson registrou 19 cassetes com impressões do cotidiano, alegrias, desejos e medos. Nem todas as fitas foram completadas nos lados A e B.

Dezesseis dessas fitas serviram de base para o livro “Leonilson: Diários de uma Voz”, a ser vendido a partir de 19 de janeiro, numa tiragem de milénio exemplares, exclusivamente no site do Projeto Leonilson. O volume foi editado pelo romancista e vencedor do prêmio Jabuti João Carrascoza com suporte da organização responsável pelo montão do artista —um medalhão da arte brasileira que, desde o ano pretérito, tem sua obra nas mãos da toda-poderosa galeria Almeida & Dale, não envolvida com a publicação.

As gravações, deixadas pelo artista com o galerista Eduardo Brandão, com quem dividia a moradia, são secção do folclore da cena artística no Brasil. Elas serviram de matriz para um livro anterior, do final dos anos 1990, cuja publicação foi barrada pela família de Leonilson, que à idade não teve entrada à transcrição das gravações, segundo a sobrinha do artista, Gabriela Dias Clemente. “Oriente livro foi trazido para a família e para o Projeto Leonilson no calor do luto. A situação não cabe cá a gente falar, mas não foi reconhecido ser feito”, ela diz.

A negativa não impediu que “Frescoe Ulisses”, título do volume editado e organizado por Ricardo Henrique, um estudioso de literatura e colega a quem Leonilson havia encomendado a produção do livro, fosse xerocado e circulasse de maneira informal depois da morte do editor. Oriente caderno de centena páginas, mas, ficou restrito a amigos e profissionais das artes, sem nunca ir para a gráfica.

A edição que sai agora, logo, traz a público, pela primeira vez, uma secção representativa dos diários falados de Leonilson —ainda que com diferenças significativas em relação à versão que já circulou, sobretudo no tocante à homossexualidade do artista, explorada com mais detalhes no livro não autorizado.

Num causo que está em ambos os livros, Leonilson vai para o banheiro de um avião se masturbar com um rapaz. Ethan, um varão “de olhos profundos” e “boca linda”, viraria uma preocupação do artista. “Porquê posso gostar de um faceta que nem sei quem é, que mora em Jerusalém? Não tenho nenhuma referência. A gente foi ao banheiro do avião, ele gozou rapidinho. Porquê é que eu posso gostar de um faceta assim? Estou sofrendo agora, cá, sofrendo por desculpa dessa minha loucura”, disse o artista.

Esta é praticamente a única cena erótica da novidade publicação, que trata seu personagem porquê uma pessoa profundamente melancólica que quer um namorado a todo dispêndio, um ingênuo a sonhar com caras que não estão a termo dele. Fissurado em amores impossíveis, sem vida sexual, de repente ele aparece com Aids. O leitor fica sem entender, com a sensação de que faltam peças neste quebra-cabeça.

Por outro lado, o Leonilson do livro não publicado é mais multíplice, referto de vontade de viver, menos depressivo. Ele fantasia com um rapaz de bermuda e sem camisa que pinta a moradia de um colega, “um Rambo trigueiro dos olhos verdes”. Narra cenas sexuais em saunas. “Entrei na sauna a vapor, ele tava lá sentado, pelado, gostoso, com um pauzão. Ficou aquele flerte. Eu sentei perto dele, fiquei olhando pra ele, ele ficou olhando pra mim.”

Carrascoza, o editor do novo volume, responsável por selecionar e organizar as falas do artista, diz que o que tem de mais importante nas fitas está no livro. “A gente não higienizou, pasteurizou zero”, afirma. Ele acrescenta, porém, que a novidade versão tem menos passagens eróticas porque algumas pessoas envolvidas não autorizaram a publicação das cenas e que “não tinha muita lógica” inventar nomes ou publicar exclusivamente as iniciais.

Todas as pessoas aparecem com seus nomes reais ou porquê Leonilson as chamava, porquê “Al”, epíteto de Adriano Pedrosa, hoje diretor-artístico do Masp, o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, que foi muito próximo do artista. Isso situa o livro numa idade e num contexto específicos —o rodeio da arte paulistano do início da dez de 1990— enquanto serve porquê memória daquele período.

Carrascoza dividiu o livro em seis cadernos temáticos. Por exemplo, um é sobre Leonilson porquê artista e a sua relação com seus colegas de profissão e os galeristas, outro se debruça na temporada do HIV e no termo de sua vida, e um terceiro trata dos seus amores de forma ampla, incluindo as amizades.

Na transcrição das fitas, o leitor acompanha as perambulações de Leonilson por Novidade York, Londres, Amsterdã, Paris e numa edição da Bienal de Veneza, seus encontros com amigos em São Paulo, seu susto terrível de contrair o HIV —”ser gay hoje em dia é a mesma coisa que ser judeu na Segunda Guerra Mundial. O próximo pode ser você”— e a façanha sexual no banheiro do avião.

Eduardo Brandão, que foi muito colega de Leonilson, conta que “ele era um faceta feliz”. Segundo o galerista, a melancolia do artista era aquela que todos temos sozinhos ao dormir e também vinha de uma injustiça social contra gays e judeus, a perseguição contra grupos sociais marginalizados que tematizou tantos bordados e pinturas do artista. “Ele não era uma pessoa triste que ficava num esquina. O Zé riu muito na vida.”

Brandão afirma ainda que seu colega teve amores, dos quais era atualizado quando ambos tomavam moca da manhã na moradia que dividiam. Ele labareda atenção para uma confusão que as pessoas costumam fazer entre artista e obra —porquê Leonilson abordava questões pessoais em seus trabalhos, “você acha que conhece o Leonilson intimamente”, mesmo que nunca tenha vista uma única foto dele. “Mas é um personagem.”

Gabriela Dias Clemente, a sobrinha de Leonilson e uma das responsáveis pela preservação do montão do tio e organização do livro novo, afirma que “não existe uma publicação com a transcrição integral das fitas” e que se tem a sentimento errada de que o livro dos anos 1990 é fidedigno ao que o artista narrou. Segundo ela, aquela versão foi editada e teve trechos interpretados pelo responsável, além de ter confusão nas datas, checadas com as agendas do artista para a publicação atual.

Clemente afirma ainda que não se pode tomar as gravações porquê uma autobiografia do artista, pelo indumento de elas serem esparsas e compreenderem exclusivamente seus últimos três anos de vida. Ela argumenta que o livro publicado agora traz histórias do ponto de vista de Leonilson, não verdades absolutas sobre porquê as coisas aconteceram para quem conviveu com ele.

Quando os trechos foram mandados para aprovação de quem está no livro, ela conta, algumas pessoas afirmavam que as coisas não tinham se pretérito da maneira narrada pelo artista. Mas a versão dele prevaleceu, sem que sua fala fosse editada ou modificada. “Ali é uma verdade do Leonilson e para o Leonilson,” diz ela.

Outra diferença entre os dois volumes é que no primeiro poucas pessoas são identificadas pelos nomes —a maioria aparece porquê personagem da “Odisseia”, de Homero. Por exemplo, Leonilson é Ulisses, sua mãe é Hécuba e Ethan, o rapaz do avião, é Circe. Segundo Brandão, a teoria dos pseudônimos foi do editor do livro e o propósito era “produzir literatura, levar a obra para um outro lugar, não permanecer tão regional”. “Era a ficção do Leonilson”, ele diz.

Diferenças à secção, ambos os livros retratam um artista em subida que, porquê Cazuza na música e Caio Fernando Abreu na literatura, teve a sua vida tolhida pela Aids quando estava em ebulição criativa, aos 36 anos. Segundo Brandão, “o Zé gostava muito de viver, tinha muitos planos”.

Folha

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