“No léxico, façanha é tudo aquilo que tem resultado incerto. Mas, no caso profissional, entendemos que façanha é um tanto que deve ser oferecido no campo do imaginário, sem prescindir de uma organização meticulosa”.
A frase, de Luiz Del Vigna, diretor-executivo da Abeta (Associação Brasileira de Empresas de Ecoturismo e Turismo de Proeza), é um alerta para quem, seduzido com o crescente charme das atividades esportivas de, sim, façanha, quer saber quais precauções tomar antes de embarcar em uma grande furada.
Para a escolha das agências, ele ressalta que existe no site da associação uma vasta livraria com manuais que definem as medidas essenciais de segurança que devem ser seguidas na hora de montar e guiar alguém pelas matas e trilhas de qualquer esquina do mundo.
“O turista de façanha precisa procurar uma empresa competente, estabelecida e formalizada”, aponta Del Vigna. Ele recomenda pesquisar tanto o CNPJ da empresa, para saber se ela tem o cadastro obrigatório para a prestação de serviços do gênero, uma vez que o CPF do guia que vai seguir a atividade —é só dar uma pesquisada na internet para ter entrada à maior secção das informações que podem poupar o cidadão de uma roubada de cocuruto risco.
Entretanto, mesmo com tudo legalizado, é preciso ter evidente que qualquer risco sempre virá encaixado no esporte de façanha, o que costuma ser justamente o tempero de quem procura trespassar da rotina do dia a dia e se embrenhar pela natureza. E, para não deixar tudo aos cuidados dos deuses de plantão, algumas dicas devem ser decoradas e podem salvar vidas. Para isso, o blog perguntou a um técnico em levar grupos a áreas onde a natureza é mais desafiadora o que fazer e não fazer antes de botar a mochila às costas.
Segundo Adilson Teixeira de Souza, fundador do Clube de Proeza Atma, a primeira regra seria “sempre cuidar do outro uma vez que cuidaria de si mesmo” e ter certeza de que o passeio contará com pelo menos uma pessoa experiente para conduzir a jornada. Mas ele também dá as principais dicas que devem ser observadas para evitar perrengues variados.
1. Defina o trajeto, cheque a previsão do tempo, conheça os pontos de chuva e o tempo estimado de marcha, informando alguém de fora sobre o roteiro e o horário de retorno
2. Nunca saia do grupo sem avisar. Se alguém permanecer para trás, alguém com mais preparo deve acompanhá-lo mantendo contato com o grupo da frente. O grupo deve andejar no ritmo de quem está mais lentamente, evitando separações e exaustão.
3. Tenha um “líder” e um “fechador” no grupo. O primeiro define o ritmo e o segundo garante que ninguém fique para trás
5. Informações uma vez que pausas, perigos, inópia, sede ou mal-estar devem ser ditas sem vergonha.
6. Use roupas e mochilas visíveis, com cores chamativas que ajudam em caso de neblina ou perda de contato visual.
7. Ligeiro rádios ou dispositivo de emergência. Em locais sem sinal, localizadores GPS (uma vez que SPOT ou InReach) podem ser vitais.
8. Faça o checklist antes de iniciar a trilha, assegurando que todos têm, além dos equipamentos básicos devidamente conferidos anteriormente, um kit de primeiros socorros com seus medicamentos, comida e chuva suficiente para a jornada (alguma sobra sempre vai muito, mormente de víveres que não pesem e deem vontade, uma vez que nozes, frutas secas, chocolate etc), revestimento de chuva, lanterna e celulares carregados ou com modo avião e um silvo para sinalizar eventuais problemas. Mesmo que carregadores levem sua mochila mais pesada, certifique-se de ter junto ao corpo uma mochila menor, chamada de ataque, com todos esses itens.
9. Combine sinais sonoros e visuais para todos os membros do grupo, uma vez que gritos, apitos, bandeiras, lanternas piscando. A regra universal de 3 diz que três apitos, sirenes ou sinais de luz são pedidos de socorro e três pedras enfileiradas ou tocos em cruz são sinal de emergência.
Lembrando que trilhar não é um passeio no shopping center, o técnico recomenda manter sempre “um passo firme e consciente, olhando onde pisa, evitando tropicar e escorregar em raízes, pedras soltas e trechos úmidos e andando no ritmo do grupo, mantendo incessantemente a pessoa de trás à vista”. Paradas periódicas para sota também são fundamentais, e permitem que o grupo troque informações sobre o curso da jornada e o estado universal de cada membro da expedição.
“Exaustão não é frescura”, diz Silva, “mas um alerta de que o corpo está chegando no limite”.
Os sintomas de exaustão física e mental, aponta ele, são tontura, falta de foco, enjoo, tremores, fraqueza ou até desmaio. Nessa situação, ele recomenda “parar imediatamente, sentar-se ou deitar-se com as pernas elevadas, hidratar-se com chuva com sal ou isotônico, manducar um tanto ligeiro e energético (lembra das castanhas e chocolates aí de cima?), agasalhar-se para vigiar o calor do corpo e respirar fundo até recobrar a calma e calcular se é verosímil seguir na jornada.
“Mais importante que seguir em frente”, conclui o técnico, “é saber quando parar com sabedoria”.
