Diplomatas indígenas relatam experiência em negociações da COP30

Diplomatas indígenas relatam experiência em negociações da COP30

Brasil

O termo kuntari katu, original das línguas indígenas nheengatu e tupi, significa “aquele que fala muito”. Na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, que registrou a maior participação de povos originários e comunidades tradicionais da história desses eventos, jovens indígenas não somente ocuparam as mobilizações de rua e os eventos de debate espalhados pela cidade, mas também participam diretamente das complexas negociações diplomáticas internacionais ainda em curso.

Esse processo foi provável graças a um programa de formação desenvolvido numa parceria entre os ministérios dos Povos Indígenas (MPI), das Relações Exteriores (MRE) e o Instituto Rio Branco, oriente último responsável pela formação de diplomatas brasileiros. Batizado justamente de Kuntari Katu, o curso durou mais de um ano e preparou 30 jovens indígenas, de todas as regiões do país, com uma sólida formação para atuar no processo de negociação da COP30, que termina nesta sexta-feira (21). A reportagem da Escritório Brasil conversou com três desses diplomatas indígenas, nos corredores da Zona Azul, a superfície solene de negociações.


Belém (PA), 19/11/2025 - Wasady Xakriabá, articuladora da Articulação de Juventude Xakriabá (AJUX), jovem liderança indígena, “diplomata indígena”, que está atuando nas negociações da COP 30. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Belém (PA), 19/11/2025 - Wasady Xakriabá, articuladora da Articulação de Juventude Xakriabá (AJUX), jovem liderança indígena, “diplomata indígena”, que está atuando nas negociações da COP 30. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Wasady Xakriabá, de Minas Gerais, diz que tudo que está sendo discutido na conferência impacta direta e indiretamente os povos indígenas – Foto: Tânia Rêgo/Escritório Brasil

“Tudo o que está sendo discutido na COP nos impacta direta e indiretamente. Quando vai para a adaptação nos afeta, quando se trata da mitigação nos afeta, o financiamento nos afeta, porque somente 1% desses recursos chega em nossos territórios, a gente se sente desassistido nesses espaços, por isso estar presente na negociação é importante, falando da nossa verdade. Nós somos nossos próprios porta-vozes, ninguém está falando pela gente”, afirma Wasady Xakriabá, de 28 anos, do setentrião de Minas Gerais.

Em Belém, ela vem acompanhando a Plataforma de Comunidades Locais e Povos Indígenas, mecanismo solene do Secretariado do Clima das Nações Unidas (UNFCCC, na {sigla} em inglês) para debater as questões desses grupos nas negociações climáticas.

O curso Kuntari Katu começou a ser desenvolvido em agosto de 2024 e foi estruturado para treinar os participantes com ferramentas essenciais para atuar nos fóruns internacionais. Os módulos presenciais abordam desde as complexidades do financiamento climatológico até os mecanismos de mercado de carbono, passando por temas uma vez que gênero, mitigação e a integração entre as agendas de biodiversidade e clima.

>> Acompanhe a cobertura completa da EBC na COP30 

As aulas foram ministradas por diplomatas experientes e especialistas do Ministério do Meio Envolvente e Mudança do Clima (MMA), garantindo que os alunos compreendessem tanto a teoria quanto a prática das negociações internacionais.


Belém (PA), 19/11/2025 - Eliel Camlem, indígena Xokleng, de Santa Catarina.  jovem liderança indígena, “diplomata indígena”, que está atuando nas negociações da COP 30. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Belém (PA), 19/11/2025 - Eliel Camlem, indígena Xokleng, de Santa Catarina.  jovem liderança indígena, “diplomata indígena”, que está atuando nas negociações da COP 30. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Indígena do povo Xokleng Laklãnõ de Santa Catarina, Eliel Camlem acompanhou as discussões sobre as metas de adaptação climática na COP30 – Foto: Tânia Rêgo/Escritório Brasil

Estudante de relações internacionais, Eliel Camlem, de 24 anos, é indígena do povo Xokleng Laklãnõ, de Santa Catarina. Na COP30, ele acompanhou as discussões sobre as metas de adaptação climática, que avançou na definição de 59 indicadores. “Muita coisa sobre esses espaços eu aprendi na graduação, mas teoria e prática são coisas diferentes. O que eu posso realçar sobre estar e aprender nesses espaços, e que muitas vezes não dos damos conta, é a força que os indígenas possuem, mesmo sendo poucos acompanhando a negociação”, aponta.

Entre os principais desafios enfrentados na mesa de negociação pelos jovens do Kuntari Katu está a disputa por conceitos que vão nascer nos documentos finais. “Uma coisa que a gente sempre diz é que a UNFCCC tem um léxico próprio. Logo, quando alguém tenta introduzir uma novidade vocábulo para esse léxico, acaba gerando um grande entrave nas negociações e acaba parando tudo”, relata Jean Truká, de 24 anos, do povo Truká, de Pernambuco. Também inserido na Plataforma de Comunidades Locais e Povos Indígenas, ele revela que houve embates com outros países para inserir o noção de demarcação territorial.

“Quando a gente tarifa demarcação, dentro da mesa de negociação, os outros países não aceitam porque não é um noção entendido da mesma forma no resto do mundo”, exemplifica Jean, formado em gestão ambiental.


Belém (PA), 19/11/2025 - Jean Anjos, indígena Truka, jovem liderança indígena, “diplomata indígena”, que está atuando nas negociações da COP 30. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Belém (PA), 19/11/2025 - Jean Anjos, indígena Truka, jovem liderança indígena, “diplomata indígena”, que está atuando nas negociações da COP 30. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Jean Truká, de Pernambuco, cita o linguagem uma vez que um dos obstáculos para a participação indígena nos espaços de negociação da COP – Foto: Tânia Rêgo/Escritório Brasil

“Até o noção de povos indígenas em outros países, muitos não se identificam dessa forma, principalmente o pessoal da China, por exemplo. Eles não se identificam uma vez que povos indígenas e, às vezes, nem uma vez que comunidades tradicionais”, acrescenta Eliel.

O travanca do linguagem também é um repto para a participação dos indígenas nos espaços de negociação. “A gente chega em salas de reunião e, muitas vezes, não tem nem português, só o inglês e o espanhol. Logo, eu me pego pensando na participação dos nossos anciãos, caciques e das nossas lideranças nesse processo de negociação, isso pode dificultar a incidência dos povos indígenas”, observa Wasady. Mesmo assim, pondera, não há zero que possa estagnar o protagonismo dos povos tradicionais no zelo com o planeta.

“A gente está trazendo não só nós nossas vozes enquanto pessoas, mas a voz das florestas, das árvores, dos animais, porque eles não podem falar, né. E a gente está ali vivenciando, logo a gente meio que se torna porta-voz de todos os seres que habitam nossos territórios.”

Idealizadora do Kuntari Katu, a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, explica que o formato foi pensado para prometer não somente a presença dos indígenas nos espaços, mas desenvolver capacidade de mediação nos debates negociais que ocorrem nessas conferências.


Belém (PA), 21/11/2025 - Ministra do Povos Indígenas, Sônia Guajajara, fala durante divulgação dos projetos comtemplados pelo Restaura Amazônia em Terras Indígenas, na COP30. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
Belém (PA), 21/11/2025 - Ministra do Povos Indígenas, Sônia Guajajara, fala durante divulgação dos projetos comtemplados pelo Restaura Amazônia em Terras Indígenas, na COP30. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

A ministra do Povos Indígenas, Sonia Guajajara, na COP30 – Foto: Bruno Peres/Escritório Brasil

“Quatro representantes do Kuntari Katu já estiveram na COP16 da Biodiversidade, em Cali, na Colômbia, e uma participou da COP29 do Clima em Baku, no Azerbaijão. Na preparatória de Bonn [Alemanha], 23 alunos do curso estiveram presentes para compreenderem os desafios que encontrariam em Belém. Agora, as lideranças estão incidindo nos debates da COP30, levando a tarifa indígena para as mesas. Kuntari Katu significa aquele que fala muito. É isso o que esses jovens estão fazendo: falando sobre suas realidades e a influência dos territórios indígenas para a mitigação da emergência climática dentro dos espaços decisórios”, destacou a ministra.

Fonte EBC

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *