Uma poder do teatro contemporâneo, o germânico Thomas Ostermeier, de 56 anos, diretor universal da prestigiosa companhia Schaubühne, de Berlim, sabe muito muito o que quer da arte. Por isso mesmo não faz a menor questão de mostrar falsa simplicidade. Pacato em um dos salões da Grande Ópera de Avignon, ele pontua as suas respostas por alguns autoelogios, gargalhadas histriônicas e emprega expressões do tipo “o meu teatro” ou “a minha estética”.
Naquela noite, o encenador acabara de apresentar o seu “Pato Selvagem”, clássico do norueguês Henrik Ibsen, considerado o espetáculo mais aguardado da 79ª edição do Festival de Avignon, que acontece agora no sul da França. Provocador de primeira hora, Ostermeier se tornou um crítico ferrenho do teatro pós-dramático, aquele sem uma história ou personagens.
Nesse paisagem, ocupa até uma posição solitária, se considerada a programação deste ano do festival. “Meu teatro não põe a estética antes de tudo. Meu teatro põe em primeiro lugar o porquê. Por que recontar determinada história? Qual é a pergunta que gostaríamos de compartilhar com o público? Não oferecemos respostas, mas perguntas”, afirma Ostermeier, interrompendo a entrevista, para, irritado, exigir silêncio integral no salão. “Estar ligado a uma narrativa é a grande revolução no mundo atual. Esse teatro desconstruído é uma lanço que foi cumprida nos anos 1980. Acho que continuar com isso hoje é tombar num maneirismo.”
Publicado por suas posições de esquerda, Ostermeier apresenta, porquê sempre, razões políticas para se opor às encenações pós-dramáticas. Segundo ele conta, essas montagens não oferecem uma sátira ao capitalismo. “Eu denunciei esse tipo de espetáculo, que não promove reflexões, mas só descreve a situação terrível da nossa sociedade, mantendo o capitalismo em funcionamento, assim porquê o realismo socialista mantinha funcionando a União Soviética”, diz ele. É um engajamento que se faz sentir, cá e ali, na montagem de “O Pato Selvagem”.
O cenário, por exemplo, posto sobre o palco italiano, fica em uma estrutura giratória. De um lado, observamos a família rica da história e, do outro, uma lar muito pobre. É uma representação visual que pode ser associada ao pensamento dialético mais rudimentar.
Escrita em 1884, a peça, que estreou no ano seguinte em Bergen, na Noruega, narra o inferno da vida de Hjalmar Ekdal, fotógrafo malogrado, agora vivido pelo ator Stefan Stern. Certa noite, ele e seu pai, o velho Ekdal, encarnado por Falk Rockstroh, são convidados a ir até a residência da poderosa família Werle, com a qual mantém uma amizade de anos.
Na ocasião, Hakon Werle, papel de Thomas Bading, oferece um jantar em homenagem ao fruto, Gregers, personagem de Marcel Kohler. Em um momento, Hjalmar e Gregers ficam a sós e têm uma conversa privada.
É a partir daí que o fotógrafo começa a perceber que toda a sua vida é uma farsa. Ele afirma ter sido ajudado financeiramente por Hakon Werle, o que possibilitou seu enlace. Surpreso, Gregers vai falar com o pai e descobre mais informações. Pouco a pouco, ele atua porquê um paladino da verdade, fazendo o camarada se confrontar com as mentiras da sua vida.
O fotógrafo descobre que sua mulher, Gina, papel de Marie Burchard, é a ex-amante de Hakon, de quem recebe uma mesada para manter as contas da família em dia. Pior, Gregers, sempre tão entusiasta da verdade, faz Hjalmar saber que Hedvig, vivida por Magdalena Lerner, não é sua filha, mas de Hakon, provocando, enfim, uma tragédia aterradora no desfecho do texto.
Precursor do teatro realista, Ibsen já explorava elementos do simbolismo nessa peça. Esse título que soa até estranho faz referência ao bicho de estimação de Hedvig. Porquê está no texto, o pato selvagem serve porquê metáfora para todos nós, que habitamos o lodo do rio, rodeados por mentiras sem as quais não podemos viver. É o noção de pataratice vital, criado por Ibsen. É curioso que, uma dezena posteriormente encenar “Um Inimigo do Povo”, uma peça do mesmo responsável, mas sobre a verdade, Ostermeier se volte agora para a pataratice.
Se há dez anos o diretor atacou as fake news, agora lhe interessa mais o drama da vida privada. “Eu defendo a verdade na esfera pública, mas todo mundo mente um pouco no cotidiano. A pataratice vital faz a gente não se confrontar com o miserável estado de nós mesmos”, afirma o encenador. “No fundo, a peça diz que é preciso ser muito poderoso para suportar o caos. É um espetáculo sobre o caos moral.”
Fundada em 1962, a Schaubühne, que Ostermeier dirige há 30 anos, se dedica a montar peças clássicas e grandes textos contemporâneos, quase sempre com texto político. Quanto aos atores, o diretor afirma gostar de explorar a anfibologia porquê estratégia.
Em “O Pato Selvagem”, por exemplo, o elenco desenvolve os personagens com sistema do russo Constantin Stanislávski e, de repente, passa atuar à maneira do teatro homérico do germânico Bertold Brecht. No início do ano, ele dirigiu a atriz Cate Blanchett em uma montagem de “A Gaivota”, de Anton Tchekhov.
“Ela é um grande bicho do teatro, talvez melhor no teatro do que no cinema”, afirma. Ostermeier conta ter um método privado para harmonizar textos clássicos. Ele respeita o meio da narrativa, mas reescreve as bordas da dramaturgia, trazendo a peça para os nossos dias, um pouco, segundo ele, que não deve ser feito na ópera. “Eu nunca vou a uma encenação de ópera, porque isso tem me irritado demais. Não podemos transformar o contexto de Mozart para hoje. Eu vejo gente tentando viver um pouco que está morto. Logo, quando eu quero ir à ópera, eu vou a concertos.”
Ostermeir diz, por termo, estar em negociações para levar ao Brasil, no ano que vem, sua adaptação do romance “História da Violência”, escrito pelo francesismo Édouard Louis. Ele se gaba de ter sido o primeiro a harmonizar as histórias do camarada e afirma estar sendo imitado agora por outros diretores.
Entre as principais peças da curso de Ostermeier, está a sua leitura de “Hamlet” de Shakespeare, comentada até hoje. “As pessoas falam dessa peça porque era boa. Você já viu o meu ‘Ricardo 3º’? É ainda melhor”, diz, rindo.
