“Ah, você tem dança.” Foi logo que, posteriormente uma das sessões de gravação do álbum “Certas Coisas”, Hélio Delmiro sinalizou a Augusto Martins que havia liga no bate-bola deles —ter dança seria um pouco uma vez que ter experiência de tocar no dança ou, no sentido translato, ter cancha, jogo de cintura, habilidade de trafegar com poder por diferentes estilos.
Lançado pouco antes da morte do lendário violonista, em junho, o disco testemunha o dança da dupla, num repertório que tem Tom Jobim e Lulu Santos, Henri Salvador e Roberto Carlos.
Precisa e sem sobras, exatamente uma vez que seu violão, a fala de Delmiro aponta a intimidade e a espontaneidade que marcou todo o processo. Dança, enfim. Gravado no estúdio da mansão de Martins, entre longas conversas regadas a vinho no terraço no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, o disco foi pilotado por por Moacyr Luz, colega do violonista desde que tinha 15 anos.
“Eu estava produzindo um disco de Augusto, o ‘Minhas Digitais’, e achei que ficaria lítico invocar o Hélio para botar um violão em ‘Retrato’”, conta Luz, referindo-se à música de Tom Jobim que o próprio Delmiro gravou no clássico álbum “Elis & Tom”, de 1974. O violonista fez um intentona com acento blues, levando para o tom menor canções originalmente em maior. O efeito é surpreendente —e fez a dupla mudar os planos.
“Quando acabou a gravação de ‘Retrato’, ficou o Augusto chorando de um lado, eu nervoso do outro e o Hélio achando perdão de tudo”, diz Luz. O produtor se voltou para o cantor: “Não dá para botar essa tira no ‘Minhas Digitais’, isso é outra coisa”. Era o embrião de “Certas Coisas” —não por eventualidade, “Retrato” é a tira de lhaneza do álbum.
O repto, logo, passou a ser uma vez que trazer Delmiro para o projeto. “Não sabia uma vez que estava a cabeça do Hélio. Ele era um rosto muito na defensiva”, conta Luz. A preocupação fazia sentido. O músico era visto tanto uma vez que genial uma vez que imprevisível, o que se reflete em sua trajetória.
Ao mesmo tempo em que reúne álbuns fundamentais para a música instrumental brasileira, uma vez que “Samambaia” e gravações históricas com nomes uma vez que Elis, Milton Promanação, Sarah Vaughan, Nana Caymmi, João Bosco, Clara Nunes, ela inclui uma rotina de reclusão e movimentos inusuais, uma vez que ter se tornado pastor evangélico.
“A gente conversava entre nós: ‘Augusto, não vamos assustar o Hélio, vamos vagarosamente, gravar duas’”, recorda Luz. “Aí a teoria virou gravar um EP, três ou quatro”, acrescenta o cantor. A segunda foi “Porquê Vai Você”, cantiga de Antonio Marcos e Mário Marcos, sucesso na voz de Roberto Carlos. O próprio Delmiro se surpreendeu com a gravação. “Ali acho que a gente ganhou ele”, diz Martins.
Vieram logo “Sinal Fechado”, de Paulinho da Viola —que inicialmente ele não queria gravar, mas que acabou por fazer uma leitura profundamente sensível e original. Isso aconteceu com outras canções, a resistência seguida da entrega.
Foi assim com “Jardin d’Hiver”, do repertório de Henri Salvador. Ele achava a estrutura da música um tanto repetitiva, não estava motivado a gravá-la. “Comentei com Moa: ‘É uma pena, porque eu adoro a cantiga, minha mulher adora’. Aí ele disse: ‘Fala isso para o Hélio!’ Não deu outra: foi matador. Hélio respondeu: ‘Se a Claudia adora, a gente vai fazer, vai caprichar e vai transpor lindo’”. O incidente dá uma exemplar de uma vez que o afeto estava imbricado ao processo artístico do violonista e do próprio disco.
Única que tem unicamente guitarra no comitiva, “Jardin d’Hiver” traz de maneira nítida o olhar de Delmiro. Na introdução, ele apresenta duas frases musicais curtas, de três notas cada, que transforma numa espécie de motivo. “Ele usa a coisa da repetição, que ele tinha percebido que havia na música, em seu obséquio. Ou seja, o que seria um defeito vira uma qualidade. É uma cabeça músico impressionante”, diz Martins.
Sua cabeça músico, no estúdio, se mostrava em forma de rigor e fluidez. Nunca passava a música ou ensaiava antes de entrar no estúdio. “Quando errava ele parava e falava: ‘Errei cá, vamos encetar de novo’”, lembra Luz. “Eu respondia: ‘Pô, mas estava bom demais, a gente emenda’. E ele: ‘Não, não, joga tudo fora, apaga pelo paixão de Deus. Vou fazer outra coisa totalmente dissemelhante’.” E fazia, tão boa ou melhor que a outra.
Assim foram se juntando ao repertório canções de espectro variado —as gravações ocorrendo em paralelo às de “Minhas Digitais”, álbum lançado ano pretérito. De Lulu Santos, foram pinçadas a faixa-título “Certas Coisas” e “De Repente”, ambas parcerias com Nelson Motta.
Chico Buarque aparece com “Bye Bye Brasil”. “Estávamos mudando de governo e eu sentia que o Lula vinha para reconstruir o Brasil, trazer o Brasil do interno, do matuto, guerreiro, intuitivo, malabarista, esse Brasil do ‘Bye Bye Brasil’”, diz Luz.
Há ainda uma parceria de Luz e Martins, “Estreito”, com sabor de samba-choro clássico. Clássicos dos bailes, “Contigo Aprendi”, de Armando Manzanero, e “All the Way”, eternizada por Frank Sinatra, ganharam também leituras da dupla. Assim uma vez que “Fé Cega, Faca Amolada”, de Milton Promanação e Ronaldo Bastos, e o samba-canção “Se Alguém Telefonar”, de Alcir Pires Vermelho e Jair Amorim.
Com seu dança, Martins ofereceu o complemento exato, ao mesmo tempo contido e significativo, ao violão de Delmiro. Ele conta que não acreditou quando percebeu que estava gravando o primeiro disco de voz e violão do violonista. “Ele não fez isso com ninguém”, afirma o cantor, que define “Certas Coisas” não uma vez que um álbum de releituras: “É um disco de conversas. Em cada tira tem um diálogo acontecendo”.
“E há um reverência profundo pelas canções”, Luz acrescenta. Augusto concorda e aprofunda logo os sentidos das conversas que se dão ali. “A gente não está tentando melhorar ou mudar a história. Está dialogando com ela, reconhecendo o que veio antes e colocando a nossa voz.”
O olhar de Delmiro sobre “Sinal Fechado”, portanto, aponta —preciso e intuitivo uma vez que seu violão— para a espírito de “Certas Coisas”: é música e conversa.
