Foram algumas horas até iniciar essas linhas. Sentei-me decidida a homenagear Djavan, um dos maiores cantores e compositores da história deste país. Um gênio.
A princípio, pensava em redigir sobre uma vez que ele é a representação de um músico “sofisticado popular”, cuja existência, além de pomposo, quebreira crenças racistas e limitantes enraizadas na indústria músico brasileira — uma vez que a de que, se a música é para o povo, logo ela não pode ser sofisticada.
Mas, ao submergir nos vídeos de suas entrevistas da última semana, esqueci-me do tempo e das intenções. Com 50 anos de curso, Djavan está amando uma vez que nunca —pois o paixão nunca é igual— e inspirado uma vez que sempre. Sabedoria, causos e novidades fizeram as horas voarem, em uma viagem através de suas mensagens.
Depois disso, ouvi pela primeira vez o seu mais recente álbum, “Improviso”, motivo das entrevistas. A ordem pode parecer estranha, mas aprendi que sua voz é a última a chegar à melodia. Primeiro vêm os arranjos, o grave, a bateria, os sopros, as cordas. Só depois a letra. Uma produção independente, de quem escreve o que quer e canta o que sente. De quem trabalha muito, mas dorme tranquilo com a certeza de que o resultado vai ser o que espera.
Percebi, logo, que seria inevitável redigir, também, sob esse impulso do improviso. Finalmente, é impossível ouvi-lo falando e cantando sobre paixão sem deixar que um pouco afete o corpo e a escrita.
Portanto prelúdios. Foi com sua capacidade sempar, uma vez que o zum de besouro que ele imortalizou, que me vi encantada logo no início da jornada. Em entrevista a Lucas Brêda, Djavan falou de músicas que vieram em sonhos. Entre elas, a simplesmente grandiosa “Samurai”, pérola que compôs para Stevie Wonder. Ele conta que a melodia —com o início inconfundível “ai, tanto querer”— surgiu-lhe num sonho. É uma sintoma de esmola, dom, percepção e de todo um cosmo que o estrondo da cidade, o cheiro de fumaça e a luz das telas insistem em perturbar.
Nas entrevistas, soube mais sobre sua mãe, dona Virgínia Viana —uma líder comunitária e familiar de determinações inspiradoras, referência de conduta, lavadeira que sustentou cinco filhos. Ela foi sua base, previu o sorte radiante do rebento uma vez que cantor.
Dona Virgínia viveu em um mundo do qual negros e negras estavam excluídos de tudo.
Djavan lembrava de quando a mãe lhe dizia que, infelizmente, os negros não podiam estar em certos lugares. Nas entrevistas pude entender ainda melhor o contexto de quem protegeu os filhos uma vez que pôde da violência do racismo e construiu as fundações para que sua filiação tivesse um porvir dissemelhante.
Um porvir já presente, no qual podemos falar para nossas filhas e filhos sobre disputar a presença em todos os lugares, sem romantizar um sistema que permanece o mesmo. Uma vez que ele disse em bela entrevista para Maria Riqueza, do jornal O Mundo, “o preto continua sendo hostilizado, sendo preterido, o preto não é aceito de maneira procedente. O preto para conseguir uma posição ele tem que mostrar dupla capacidade, tem que trabalhar muito mais, estudar muito mais para chegar ao mesmo lugar aonde o branco chegaria com naturalidade”.
“Porque a sociedade formatou o mundo para o branco. É o branco que governa, é o branco que domina as ações do mundo. Eles fizeram esse mundo para eles mesmos. O preto só entra se for muito raçudo, se for muito foda. Se não for, não tem espaço”, completou.
E Djavan é muito foda. Há décadas, seus sucessos e shows lotados com públicos de todas as gerações fizeram dele um artista que experimentou a mudança social. Passou a poder ter o carruagem que quis e um patrimônio que não fez segmento de sua juventude. Uma vez que ele alerta na entrevista nesta Folha, transições uma vez que essas são um risco e já deixaram muita gente deslumbrada, perdida.
Portanto Djavan diz que, além da raça e do dom, ele nutre suas forças com sua família. “É a família que segura a cabeça do sujeito que cai nessa situação.” De coração cândido, fala do paixão pela sua companheira, Rafaella Brunini, com quem é casado há 28 anos, pelos seus cinco filhos e seus netos.
Muito mais poderia redigir sobre ele e suas palavras recentes, mas a inspiração encontra limites —no meu caso, o por vezes frustrante limite de caracteres. Estaria eu sob efeito, “djavaneada”? Pois chego ao termo e sei que daria para discorrer sobre seu paixão por imaginar e a vitalidade que isso lhe traz, o paixão aprendido pela reparo, o paixão que surgiu da solidão. Ou, ainda, sobre a coragem de se entregar ao paixão com a humildade sobre ele pouco saber.
A verdade é que qualquer síntese será inexaurível, pois Djavan é um oceano. E “djavanear” é mesmo tudo de bom.
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