Djavan lança disco com música que fez para Michael Jackson

Djavan lança disco com música que fez para Michael Jackson – 11/11/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Em 1986, o produtor Quincy Jones, um dos mais importantes do mundo, pediu uma formação a Djavan. Ele queria uma música para Michael Jackson gravar no disco “Bad”, o sucessor de “Thriller”.

“Não acreditei muito e não mandei em tempo hábil. Só mandei por insistência dos meus filhos, oito meses depois, quando ele já estava mixando o disco”, recorda o cantor.

Djavan perdeu o prazo, mas não a música. Ela sai agora com o título de “Pra Sempre”, em “Improviso” —seu novo disco, lançado nesta terça-feira (11), que vai render uma turnê por estádios e arenas no ano que vem—, com letra inspirada no rei do pop.

“Tinha feito naquele ‘djavanês’, e em cima pus a letra de agora”, diz. “O Quincy promoveu um encontro no estúdio em que ele [Michael] estava gravando. Ele era uma pessoa dissemelhante, mas um paixão. Sofreu muito desde que nasceu. Fruto daquele pai louco [Joe Jackson] que impunha métodos bizarros [como oito horas de ensaio por dia e surras].”

Mas pescar ideias no pretérito é uma exceção para Djavan, que diz gostar de “pão quente, de fazer e manducar”. As dez faixas inéditas de “Improviso” foram feitas dois meses antes de serem gravadas.

Desde o primeiro disco, de 1976, ele lança um trabalho novo a cada dois ou três anos. Quando termina uma turnê, diz, está exausto física e psicologicamente. “Só uma música novidade me traz a vida de volta, me salva. Não é que eu queira, eu preciso fazer.”

“Improviso” dá sequência a “D”, de 2022. Na filete “Falta Ralar”, ele segmento da reparo dos filhos e netos adolescentes para assumir o eu-lírico de uma rapariga de 15 anos que vive um romance com um rapaz marrento, que só anda com fones de ouvido e não sabe beijar.

Em músicas porquê “Um Affair”, o cantor segue sua infindável investigação do paixão, que em “Um Brinde” ele entrelaça ao fazer artístico —cantando que “ir detrás do paixão é um jazz”. A procura por combinações de palavras, melodias e harmonias é descrita de forma metalinguística na filete que dá nome ao novo álbum.

Mesmo a única música não inédita de “Improviso” se relaciona com o presente. Ele quis gravar “O Vento”, formação que fez com Ronaldo Bastos em 1987 para Gal Costa, em seguida a morte da amiga, há três anos. A baiana, afirma Djavan, foi sua maior tradutor.

“Foi quem mais gravou e entendeu as minhas músicas. A Gal era muito músico”, afirma. “Éramos amigos. Ela era um pouco mais velha e me dava conselhos.”

“Sonhar”, outra novidade de “Improviso”, é um rock em que o sonho surge porquê saída para um mundo em guerra. “O sonho tem a responsabilidade de conduzir ao porvir”, ele diz. “É em sonho que você determina ações e eventos.”

Foi assim com “Samurai”, um de seus maiores sucessos. Djavan estava nos Estados Unidos gravando o disco “Luz”, de 1982, quando um produtor americano perguntou se ele queria colaborar com Stevie Wonder, planeta do soul.

“Ele disse ‘você tem uma música para o Stevie participar?’. Eu disse que não, mas faria”, diz. “Fui ao hotel e sonhei com a música —não sei se sonhei antes ou depois do pedido. Mas foi o sonho que usei quando escrevi. No dia seguinte, já levei pronta. Tudo na vida é motivação. Eu ia deixar passar isso, o Stevie Wonder?”

Na quadra, Djavan achava que sua música poderia ser mais compreendida fora do Brasil. Ele só passou a vender mais no terceiro e quarto álbuns, em 1980 —”Alumbramento” chegou a 30 milénio cópias e “Seduzir”, a 60 milénio.

“Já achei um escândalo”, diz. “Mas o salto veio mesmo com ‘Luz’, que vendeu 500 milénio. Isso era impensável para uma pessoa que fazia música que eu fazia. Passei de uma vida de dificuldade com aluguel, morando num apartamento pequeno num bairro periférico, porquê era Vila Isabel, para uma mansão na Barra da Tijuca.”

Foi uma mutação. A sobrinha não queria mais andejar de ônibus porque era parente de Djavan. “Eu tinha o sege que eu quisesse, morava nessa moradia, tinha tudo”, diz. “Isso não é saudável. É a família que segura o quidam que cai nessa situação. Se eu não tivesse família, tinha ‘despirocado’.”

Por razão da origem pobre, ele diz, nunca gostou de ostentar. “Sempre achei mal-parecido, tive vergonha. Nunca tive um sege conversível, que sempre quis. Porquê vou passar num bairro pobre, com pessoas vivendo em dificuldade, com a capota viradela?”

A cena remete à puerícia do artista. Ele morou numa avenida importante de Maceió, a Santa Rita de Cássia, no bairro do Farol, vendo o contraste entre casas populares —porquê a dele— e os prédios e casarões da vizinhança.

O pequeno Djavan vivia na moradia das vizinhas enquanto a mãe trabalhava. “Ela foi obrigada a transpor daquele endereço porque não tinha porquê remunerar”, diz. “Me deixou lá e elas [as ‘madrinhas’] não quiseram me entregar. Quem promoveu a restituição fui eu. Com uns 12 anos, passei um término de semana no bairro que minha mãe se mudou [Pitanguinha] e não quis voltar.”

Sua timidez particularidade, diz, veio da geração sob “olhares rigorosos de proteção” da mãe e do racismo. “Era muito tímido também por razão da minha exigência de ser preto”, diz. “Minha mãe dizia que nem todos os espaços são feitos para negros. Não diria isso para meus filhos. Eles têm de ir onde quiserem.”

Na puberdade, Djavan trocou o futebol, que praticava nas categorias de base do Núcleo Sportivo Alagoano, o CSA, pela música. Mas não sem atrito com a família, que queria vê-lo militar. “Todas as famílias queriam que seus filhos fizessem curso de sargento”, diz. “Além de ser um ocupação federalista com segurança, tinha uma certa pompa. O pobre achava aquilo lindo e necessário.”

Em recusa a esse rumo, Djavan fugiu para a moradia de um primo no Recife, onde morou por um ano e meio antes de voltar a Maceió. “Venha, mas não vai ter quantia, só comida e roupa lavada”, ele recorda de ter ouvido da mãe. “Voltei e fundei a LSD.”

O nome da orquestra era uma abreviatura de luz, som e dimensão, e Djavan diz que não tomava ácido. “Maceió era visagem e eu tinha 16 anos. Só descobri depois que dois [integrantes] fumavam e cheiravam. Nunca consegui chegar perto. Só vim testar o primeiro fundamentado com 36 anos. Já muito velho, né?”

Djavan se sentia incompreendido na família e também na orquestra. Se o conjunto que tocava Beatles em clubes e eventos era visto porquê um tanto moderno, ele era mais.

O artista desenvolveu seu estilo primeiro com Luiz Gonzaga e a bossa novidade. “Mas eles eram um pouco preconceituosos. Não tinha preto na bossa novidade. O único era o Johnny Alf, que sofria distanciamento. Eram louros de olhos azuis. Não estou falando mal, é um indumentária. Eram filhinhos de papai —talentosos, mas não tinha preto.”

Os Beatles foram uma libertação dos acordes complexos da bossa novidade —ainda que ele nunca os tenha posposto em sua obra. “Aquele segundo disco, a envoltório preta com as quatro caras, eu tomei um choque violento”, diz. “Eles vieram mostrar porquê usar acordes perfeitos sem ser piegas. E mesmo assim ainda havia dissonância. Era muito multíplice.”

Quando vendeu tudo que tinha e se mudou para o Rio de Janeiro, aos 23 anos, Djavan conta que “Maceió começou a tarar 500 toneladas na minha cabeça”. Tanto quanto uma procura pela curso, sua mudança foi uma fuga. “Me vi no Rio muito jovem, sem experiência, sem quantia e sem ter o que fazer. Sentava nos bancos da rossio General José Osório para chorar.”

Naquela quadra, ele diz, Djavan sofria de “um mal terrível para um menino jovem”, o de ter sua música contestada por todos que poderiam lhe perfurar portas. Mesmo com a curso já em curso, o alagoano só teve uma injeção de autoestima ao ser asilado pela escol da MPB —de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque.

O cantor reencontrou os amigos recentemente, na sintoma contra a PEC da Blindagem e a anistia aos condenados por tentativa de golpe de Estado. Hoje, celebra a possibilidade de o encontro em Copacabana ter realizado —na ditadura, diz, seria impossível.

Se aos 16 anos ele nem sequer sabia o que era o regime, em 1979, passou a não ter dúvidas. Foi recluso depois de entrar numa loja de instrumentos em São Paulo, indiciado de tentar roubar o piano que ia comprar. A experiência inspirou uma música, chamada “Preto”, que acabou censurada.

“Não soube da repreensão na quadra, porque eles esconderam a letra”, diz. “Só soube recentemente, porque uma pessoa descobriu isso e me procurou. Tive uma surpresa. Vi a letra e me lembrei de tudo.”

Mais do que questões materiais, o cantor sempre se sentiu incompreendido. Seja pelo jeito pessoal de tocar violão, pelos andamentos e ritmos incomuns de suas músicas ou por suas letras —até hoje vistas porquê herméticas.

Djavan escreve desenhando cenas, porquê quem faz um filme, ou buscando um sentido pela aglomeração dos versos, sempre levando em conta o som das palavras. Labareda isso de “simbiose entre sonoridade, significado e a urgência rítmica do momento em que a termo vai ser inserida”.

Entendido ou não, o alagoano passou a ser admirado por gente porquê Quincy Jones e Stevie Wonder e se firmou de maneira duradoura no imaginário popular. É uma trajetória tão rara quanto sua música. Um tanto que Djavan vê mais porquê um rumo inescapável.

“Volta e meia estou passando uma música para os músicos, e eles batem o pé no [compasso] ‘um’. Fico olhando, digo que não é ali, e eles, ‘promessa?’ É engraçado. Eu não queria ser dissemelhante, mas sou. Se pudesse, não seria, porque me deu muito trabalho a vida inteira.”

Folha

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