Teria Djavan feito uma guinada para se aproximar do jazz? Finalmente, o 20° sexto álbum de sua curso, que chega três anos depois de “D”, tem o nome “Improviso”. Quando se fala em improviso na música, é fácil pensar no jazz e na liberdade artística do gênero.
Mas poucos compositores trabalham com tanta liberdade quanto Djavan. Desde o início da curso, há quase 50 anos, ele não faz jazz, pop, MPB tradicional ou samba. Não existem nem “os blues de Djavan”, uma vez que sugere Caetano Veloso em sua “Eclipse Oculto”. Djavan faz… música de Djavan.
Poucos, muito poucos, têm um DNA músico tão único. É um som fluido, inclassificável, sedutor, de canções que grudam no ouvido e letras que compõem um exposição tão único que pode suscitar qualquer estranhamento antes de um inevitável encantamento.
Além do sucesso popular, Djavan coleciona elogios dos maiores nomes da música, dentro e fora do Brasil. Grandes nomes incontestáveis, uma vez que Burt Bacharach e Quincy Jones, declararam sua espanto por ele. E existe até uma relação entre Jones e “Improviso”.
A fita “Pra Sempre” pode ser apreciada com delícia por fãs de boa música pop brasileira, mesmo que o ouvinte nem imagine que a origem dessa melodia é um pedido do lendário produtor. Jones queria uma música de Djavan para Michael Jackson trovar no álbum “Bad”, de 1987. Um pedido desses no momento em que Jacko era o maior popstar do planeta!
Mas o brasiliano atrasou o envio da música e a gravação não se concretizou. Agora, quase 40 anos depois, Djavan preenche a música com versos recentes, claramente dedicados a louvar voz e passos de dança do Rei do Pop. Talvez atraia a atenção midiática, mas é mais divertida do que relevante.
“Falta Ralar” é uma tentativa (bem-sucedida) de trocar as letras intrincadas escritas no famoso dialeto “djavanês” pelo suposto vocabulário de uma jovem jovem às voltas com um garoto um tanto complicado.
Se “Pra Sempre” e “Falta Ralar” soam divertidas, brincalhonas mesmo, Djavan é arrebatador quando resolve, de certa maneira, “falar sério”. A música que abre o novo álbum, “Um Affair”, mesmo ligeiro, descontraída, é mais uma construção de um letrista amolado, preciso, certeiro.
“Um affair, do jeitinho que se quer/ Não é pra todo mundo”. Assim, jogado no ar, o verso parece simples, querendo tanger engraçadinho, mas, encaixado na pegada um tanto “jazzy” da melodia, mostra que é uma pérola pop. E o álbum está repleto delas.
É curioso uma vez que Djavan consegue imprimir sua assinatura em faixas que tanto apresentam uma instrumentalização mais rarefeita, caso de “O Vento”, uma vez que em canções encorpadas, “cheias”, nas quais os músicos no estúdio parecem procurar todas as brechas possíveis para projetar seu som. É o caso da ótima “O Grande Muito”.
Para quem tem predileção pelos momentos do Djavan sambista, um lado de seu trabalho que alguns consideram o mais inovador, o álbum traz exclusivamente um sambinha, “Cetim”, que é romântico e envolvente. São versos delicados, uma vez que “o que é não pensar em você?/ não sei o que é isso, não”.
Embora Djavan exponha em “Improviso” algumas letras mais simples em conferência a outras fases de sua curso, seria insano pensar no álbum uma vez que um trabalho que possa atingir um público maior por justificação disso. Para dar nome aos bois, não deve chegar aos jovens que atualmente são alimentados com música simplória e sem cintilação.
Djavan continua um compositor peculiar. A proposta ousada de seu texto sempre carregou estranheza e frescor facilmente reconhecíveis pelas plateias, mas musicalmente Djavan também é um permanente inovador. Sua trama instrumental ainda está longe de ser um biscoito para as massas.
O que mais surpreende é que as ideias novas soam melodicamente mais complexas, mas com um apelo pop que tem pouco espaço na cena músico de hoje. Essa é certamente uma safra recente de canções, porque Djavan já cansou de proferir que não guarda coisas de um disco para outro, para gravar depois.
Ele afirma ortografar um repertório novo poucos meses antes da gravação de cada álbum, e em “Improviso” o que se ouve é um poeta querendo deixar evidente que procura a paixão. Vários momentos das 12 faixas do disco apresentam cá ou ali um varão referto de paixão para dar.
No ano que vem ele tem prevista uma turnê que deve passar por grandes arenas esportivas, nesta que é uma modalidade de show que parece ter sido a maneira que os grandes nomes da MPB escolheram para asilar os fãs de todas as gerações.
Djavan é um compositor poderoso para gerar o setlist que quiser para uma apresentação diante de dezenas de milhares de pessoas. Seus sucessos, principalmente dos anos 1980 e 1990, precisam ser contemplados. Mas seria interessante reservar pelo menos uma pequena fatia no show para esse Djavan de “Improviso”, com suas leves canções que derramam romantismo.
