'elã' marca encontro de isabel teixeira com cia. mungunzá

‘Elã’ marca encontro de Isabel Teixeira com Cia. Mungunzá – 06/10/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Maria Bruaca, personagem interpretada por Isabel Teixeira no remake de “Pantanal”, aparece de forma indireta na peça “Elã”, em edital do Sesc Pompeia, em uma parceria da atriz e diretora com a Cia. Mungunzá.

Ela é citada por Oswaldo do Morango (Marcos Felipe), um dos protagonistas da encenação, que sonha em ter a diretora renomada na transporte de uma montagem teatral e é ignorado. “Vendida para a Orbe”, grita o mercante de frutas de Atibaia, ao esgotar as possibilidades de contato com a artista. Diz, ainda, que ela imitou Ângela Leal, a Bruaca da primeira versão da romance, e apela, dizendo “volta para a base”.

A base, no caso, é o teatro onde Isabel Teixeira construiu sua curso antes de fazer sucesso nas tramas globais, e a volta aconteceu na vida real, com a peça de grupo que ela aceitou guiar, em um processo colaborativo ao lado dos sete integrantes da Cia. Mungunzá e da professora aposentada Dilma Correa, convidada para o trabalho.

Antes de estrear, “Elã” já tinha um lugar guardado na história do teatro paulistano. Depois a temporada no Sesc Pompeia, o espetáculo será o último a ser apresentado no Teatro de Contêiner, na Luz, sede da Mungunzá prestes a ser desalojada pela Prefeitura de São Paulo.

A companhia deve ser transferida para outro espaço, mas não há porquê negar o simbolismo de uma lanço encerrada na região, há décadas tomada pela cracolândia —cuja concentração também desapareceu, sem explicação.

A resistência do grupo, que ocupou um terreno municipal e construiu o Teatro de Contêiner em 2017, aparece de forma metafórica na peça, porquê um apelo pela perenidade da arte no contraponto ao cenário distópico do núcleo de São Paulo e de tantos outros lugares do mundo em guerra permanente.

Mas, outrossim, a ação municipal contra a permanência do teatro atravessou os ensaios para o espetáculo de forma muito real. Teixeira estava no Contêiner no dia em que a Guarda Social Metropolitana tentou retirar membros do coletivo e da ONG Tem Sentimentos de um prédio incluso.

Ela olhou para fora e viu artistas sendo carregados por guardas, em cena que rapidamente chegou às redes sociais e mobilizou a classe teatral. Entre uma plenário e outra sobre a desocupação, o processo criativo seguiu em frente e o confronto não é citado diretamente no espetáculo.

“Elã” foi construída porquê uma teia com oito histórias criadas pelos integrantes do elenco a partir do método “A Escrita na Cena”, desenvolvido pela diretora desde 2008.

São elas a história de um andarilho dentro de um jogo de videogame; a de um ator/vendedor de morangos que tenta convencer a diretora famosa a guiar seu próximo espetáculo; a de uma mãe que entra na peça do fruto e, aos poucos, se libera do papel que ele tenta impor; a de uma mulher que mata a família para realizar o sonho de ser cantora de boate; a de outra mãe que retoma o poder feminino e a sexualidade; a de um empreendedor da morte; a de uma mulher-aranha que tece o tramontana do mundo e a de um homem-bomba que estimula a filha a mudar a forma de olhar o mundo.

“As histórias são um manobra de fabulação. Fabular é um pouco inerente a qualquer ser humano”, diz Teixeira.

Um resultado editorial, “O Livro de Linhas”, foi lançado junto com a estreia da peça e fez segmento da geração do espetáculo. A diretora e os atores iniciaram a aproximação durante um processo de mergulho no Ateliê do Velho Livreiro, em São Bento do Sapucaí, com todos dedicando-se ao trabalho de encadernação artesanal.

A Cia. Mungunzá e a diretora partiram do argumento “linhas e fronteiras” e do libido de explorar limites pessoais e artísticos.

De concordância com o método “A Escrita na Cena”, todo ator é também um plumitivo, por meio do corpo e da voz. Improvisos filmados são transcritos e recebem devolutivas provocativas da diretora, também gravadas e transcritas. “A repetição do ciclo cria uma lesma de escuta, resposta e invenção”, diz Teixeira.

A artista usou o método com Mateus Solano na peça “O Figurante”, estimulando o ator a explorar a originalidade em seu primeiro solilóquio, que esteve em edital no início do ano na capital paulista.

Em seu repertório recente, tem também “Jandira – Em Procura do Bonde Perdido”, o último texto de Jandira Martini, morta no ano pretérito, para o teatro, com direção de Marcos Caruso. O encontro artístico com Caruso é um dos frutos da recente história do sucesso dela na TV. “Deu match”, ela brinca. A atriz gostou da televisão e vice-versa.

Os anos de experiência na companhia teatral dirigida pela brasileira Christiane Jatahy, que inclui o uso de câmeras em seus espetáculos, facilitaram o trajectória da tradutor da Bruaca.

Ou por outra, a atriz observou e assimilou a paixão televisiva de atrizes porquê Adriana Esteves, com quem contracenou na romance “Paixão de Mãe”, e se entregou à labuta, com a intensidade que marca sua personalidade. “Não tenho temor de trabalho”, afirma.

Folha

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