Maria Bruaca, personagem interpretada por Isabel Teixeira no remake de “Pantanal”, aparece de forma indireta na peça “Elã”, em edital do Sesc Pompeia, em uma parceria da atriz e diretora com a Cia. Mungunzá.
Ela é citada por Oswaldo do Morango (Marcos Felipe), um dos protagonistas da encenação, que sonha em ter a diretora renomada na transporte de uma montagem teatral e é ignorado. “Vendida para a Orbe”, grita o mercante de frutas de Atibaia, ao esgotar as possibilidades de contato com a artista. Diz, ainda, que ela imitou Ângela Leal, a Bruaca da primeira versão da romance, e apela, dizendo “volta para a base”.
A base, no caso, é o teatro onde Isabel Teixeira construiu sua curso antes de fazer sucesso nas tramas globais, e a volta aconteceu na vida real, com a peça de grupo que ela aceitou guiar, em um processo colaborativo ao lado dos sete integrantes da Cia. Mungunzá e da professora aposentada Dilma Correa, convidada para o trabalho.
Antes de estrear, “Elã” já tinha um lugar guardado na história do teatro paulistano. Depois a temporada no Sesc Pompeia, o espetáculo será o último a ser apresentado no Teatro de Contêiner, na Luz, sede da Mungunzá prestes a ser desalojada pela Prefeitura de São Paulo.
A companhia deve ser transferida para outro espaço, mas não há porquê negar o simbolismo de uma lanço encerrada na região, há décadas tomada pela cracolândia —cuja concentração também desapareceu, sem explicação.
A resistência do grupo, que ocupou um terreno municipal e construiu o Teatro de Contêiner em 2017, aparece de forma metafórica na peça, porquê um apelo pela perenidade da arte no contraponto ao cenário distópico do núcleo de São Paulo e de tantos outros lugares do mundo em guerra permanente.
Mas, outrossim, a ação municipal contra a permanência do teatro atravessou os ensaios para o espetáculo de forma muito real. Teixeira estava no Contêiner no dia em que a Guarda Social Metropolitana tentou retirar membros do coletivo e da ONG Tem Sentimentos de um prédio incluso.
Ela olhou para fora e viu artistas sendo carregados por guardas, em cena que rapidamente chegou às redes sociais e mobilizou a classe teatral. Entre uma plenário e outra sobre a desocupação, o processo criativo seguiu em frente e o confronto não é citado diretamente no espetáculo.
“Elã” foi construída porquê uma teia com oito histórias criadas pelos integrantes do elenco a partir do método “A Escrita na Cena”, desenvolvido pela diretora desde 2008.
São elas a história de um andarilho dentro de um jogo de videogame; a de um ator/vendedor de morangos que tenta convencer a diretora famosa a guiar seu próximo espetáculo; a de uma mãe que entra na peça do fruto e, aos poucos, se libera do papel que ele tenta impor; a de uma mulher que mata a família para realizar o sonho de ser cantora de boate; a de outra mãe que retoma o poder feminino e a sexualidade; a de um empreendedor da morte; a de uma mulher-aranha que tece o tramontana do mundo e a de um homem-bomba que estimula a filha a mudar a forma de olhar o mundo.
“As histórias são um manobra de fabulação. Fabular é um pouco inerente a qualquer ser humano”, diz Teixeira.
Um resultado editorial, “O Livro de Linhas”, foi lançado junto com a estreia da peça e fez segmento da geração do espetáculo. A diretora e os atores iniciaram a aproximação durante um processo de mergulho no Ateliê do Velho Livreiro, em São Bento do Sapucaí, com todos dedicando-se ao trabalho de encadernação artesanal.
A Cia. Mungunzá e a diretora partiram do argumento “linhas e fronteiras” e do libido de explorar limites pessoais e artísticos.
De concordância com o método “A Escrita na Cena”, todo ator é também um plumitivo, por meio do corpo e da voz. Improvisos filmados são transcritos e recebem devolutivas provocativas da diretora, também gravadas e transcritas. “A repetição do ciclo cria uma lesma de escuta, resposta e invenção”, diz Teixeira.
A artista usou o método com Mateus Solano na peça “O Figurante”, estimulando o ator a explorar a originalidade em seu primeiro solilóquio, que esteve em edital no início do ano na capital paulista.
Em seu repertório recente, tem também “Jandira – Em Procura do Bonde Perdido”, o último texto de Jandira Martini, morta no ano pretérito, para o teatro, com direção de Marcos Caruso. O encontro artístico com Caruso é um dos frutos da recente história do sucesso dela na TV. “Deu match”, ela brinca. A atriz gostou da televisão e vice-versa.
Os anos de experiência na companhia teatral dirigida pela brasileira Christiane Jatahy, que inclui o uso de câmeras em seus espetáculos, facilitaram o trajectória da tradutor da Bruaca.
Ou por outra, a atriz observou e assimilou a paixão televisiva de atrizes porquê Adriana Esteves, com quem contracenou na romance “Paixão de Mãe”, e se entregou à labuta, com a intensidade que marca sua personalidade. “Não tenho temor de trabalho”, afirma.
