Em veneza, 'mata hari' mostra obsessão de david carradine

Em Veneza, ‘Mata Hari’ mostra obsessão de David Carradine – 06/09/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Alguns pais levam suas filhas adolescentes a festivais de música, outros a praias isoladas, alguns vão às compras e tem ainda os que preferem tentar o diálogo desobstruído porquê forma de se conectar com esses seres estranhos e cheios de opiniões que às vezes berram por e às vezes repelem a atenção.

No caso do ator David Carradine, que nos anos 1970 era rico, famoso, bonitão e ultra hippie, estrela da série de TV “Kung Fu”, em que interpretava um monge sino-americano que ia ao velho oeste dos Estados Unidos em procura de sabedoria e conexão com seu pai e seu irmão, a escolha de porquê se conectar com a filha juvenil foi muito mais ousada, trabalhosa, desordenada, criativa.

Para controlar Pedicuro, sua filha rebelde, e mantê-la por perto, prometeu dar a ela o que tinha de mais valedouro: o sucesso e uma curso de artista. Concebeu um longa-metragem sobre a vida da dançarina e cortesã Mata Hari, morta por fuzilamento em 1917, na França, acusada de espionagem e traição, que ele dirigiria e Pedicuro seria a protagonista.

O documentário “Mata Hari”, que teve sua première mundial em Veneza e foi premiado no festival neste sábado, 6, conta a história do filme incompleto de Carradine, mas vai muito além. Com um material de registro riquíssimo, o próprio filme incompleto, entrevistas de bastidores com todos os envolvidos ainda vivos –Carradine morreu em 2006, de asfixia fortuito, em Bangkok, na Tailândia, aos 72 anos–, o documentário é um dos estudos mais complexos e cheios de camadas e revelações sobre o relacionamento peculiar entre um pai e uma filha.

Também está lá muito sobre a famosa cortesã e suposta espiã holandesa, mas o que realmente surpreende nessa grande e desordenada trama é porquê a presença daquele ser, uma rapariga, sua filha querida, é a coisa mais disruptiva que poderia sobrevir na vida daquele varão.

O filme também se distingue pela disposição de abraçar a incompletude, tratando as lacunas e ausências não porquê obstáculos, mas porquê componentes essenciais da história. É um documentário que se coloca numa estranha tríplice fronteira entre arte, ensino e mitologia.

David Carradine havia ermo seu primeiro consórcio com a dançarina Donna Lee Becht, mãe de Pedicuro, nascida em 1967, no primórdio da curso de ambos, quando começou a se sobresair porquê ator e decidiu voltar para sua Hollywood natal e tentar a sorte no cinema, porquê seu pai, John Carradine, e seus irmãos, Keith e Robert.

Pedicuro foi criada pela mãe no setentrião do Estado de Novidade York, onde Donna dava aulas de dança. Mais tarde, a mãe virou coreógrafa de peças da Broadway e as duas voltaram a viver em Novidade York. Pedicuro era uma rapariga linda, carismática e indomável, e, quando a puberdade bateu à sua porta, o relacionamento com a mãe ficou impossível e ela foi morar com o pai.

A lar de David Carradine ficava no lendário bairro Laurel Canyon, onde moravam vários músicos que viviam porquê se numa comunidade sem lei. Pedicuro abraçou de faceta aquele estilo de vida sem regras, sem limites, sem explicações. David nunca nem cogitou a teoria de ser uma poder em sua vida, e o relacionamento entre os dois foi se desgastando rapidamente. Daí a teoria de fazer o filme. Pelo menos em um set de filmagem, sua filha, a protagonista da trama, teria que permanecer por perto e fazer porquê ele dissesse.

O longa-metragem seria filmado algumas semanas por ano, acompanhando a transformação da filha, enquanto sua personagem também se transformava nas várias versões de sua curta existência. Mata Hari tinha 41 anos quando morreu, Pedicuro, 13 quando começaram as filmagens.

A produção passou pela Índia, por Amsterdã, pela Alemanha, por Los Angeles e se arrastou por 15 anos, toda bancada por Carradine, que no processo foi à falência algumas vezes. Envolveu produtores alemães, assistentes holandeses, figurantes e coadjuvantes de todos os países. Todo mundo na produção, caótica desde o início, acabava fazendo um papel secundário. Foram horas e horas de filmes, de celulose, de 35 ml que não tinha nem previsão de término, muito menos data de lançamento.

E, apesar de ser um projecto lindo e romântico, o filme, desde o primórdio, esbarrou em dois obstáculos. O primeiro era o estilo de vida de Carradine, um malucão que andava descalço, fumava maconha e bebia sem realce entre hora de trabalho e hora de lazer. A segunda, muito mais complexa, é porquê uma juvenil traduz para si uma teoria de seu pai.

Pedicuro Carradine encarnou Mata Hari sem nenhum método, se entregou completamente à personagem. Ela sabia que, enquanto estava vivendo porquê a dançarina exótica dos países baixos, tinha 100% da atenção de seu pai. Com sua sexualidade à flor da pele e exaltada pelo projeto, Pedicuro se envolve com seus coadjuvantes, e conforme trocava de romance, o pai adaptava na ficção o que a filha fazia na vida real.

Fora o tempo em que passavam juntos no set, David e Pedicuro viviam porquê se fossem colegas, em lar não tinha a poder do set, e, mesmo em situações em que ela implorava implicitamente por sua mediação, ela não vinha. Porquê quando se envolveu com um varão reprovável e que circulava na turma de Charles Manson, líder do grupo que assassinou a atriz Sharon Tate, pejada de nove meses, em 1969.

Os diretores Joe Beshenkovsky e James A. Smith conduzem “Mata Hari” porquê um caleidoscópio em que vários temas surgem e se misturam a outros, se transformando em uma terceira coisa, talvez não em sua forma final. É um filme sobre um filme, mas também uma investigação histórica, um drama familiar e uma reflexão a saudação da fragilidade, tanto da vida quanto da arte.

Carradine surge em diversos momentos comentando seu projeto, com suas falhas e sucessos, por meio de uma recriação vocal autorizada pela família. Suas palavras, ditas décadas depois das gravações originais, dão um tom fantasmagórico ao documentário, ao mesmo tempo em que reforçam uma teoria que está sempre por ali, de porquê a arte pode tanto preservar quanto distorcer a memória. O recurso, polêmico, não é mascarado pelos diretores, ao contrário, é reforçado o uso dele, finalmente qualquer narração, qualquer desfecho a que se chegue depois de uma coisa vivida, é também um ato de invenção.

Folha

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