Emicida vive 'fase Racional' com trilogia que retoma o rap

Emicida vive ‘fase Racional’ com trilogia que retoma o rap – 29/11/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

“Quando os caminhos se confundem, é necessário voltar ao início”, Emicida cantou na primeira tira de sua primeira mixtape, “Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida, até que Eu Cheguei Longe”, de 2009. O rapper tinha uma música, “Triunfo”, a reputação de imbatível nas batalhas de rima, 24 anos de idade e uma curso a erigir. Voltar, logo, para onde?

A resposta ali é a mesma que a de agora —os Racionais MCs. Há 16 anos, Leandro Roque, nome de batismo do rapper, retratava uma confusão, a viabilidade de ter uma curso sem ceder os fundamentos do gênero que defende. Perguntava se “essa porra de ‘nós’ existe mesmo ou é outra teoria que ficou pra trás”, e rimava que “os MCs nem sabem mais se pedem um drink ou pedem silêncio, se cá é Disney ou Alcatraz, se nós é Rouge ou Racionais”.

Agora, ele se inspira —e, deliberadamente, revira— a obra do maior grupo de rap do Brasil numa trilogia reversa que batizou de “Emicida Racional”.

O terceiro volume, já lançado, é uma mixtape em que o DJ Nyack, seu leal escudeiro, encaixa faixas de voz de músicas antigas de Emicida em bases instrumentais do grupo de Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay. O segundo é “Mesmas Cores & Mesmos Valores”, que sai neste mês. É o primeiro álbum de estúdio do rapper desde “AmarElo”, de 2019, e também sua primeira obra desde que se separou do irmão, Evandro Fióti, com quem está envolvido numa disputa judicial milionária em torno do selo Laboratório Fantasma.

“Quantas coisas valiosas nós abandonamos em nome de outras que hoje a gente não acha que têm a solidez que imaginou que teria?”, diz Emicida. “Fizemos escolhas boas e ruins, e chega nesse momento em que sou tocado por aquela mesma sensação. Observo isso de um lugar difícil de entender —o de não julgamento. Olhar para a situação uma vez que um elemento da vida, me sentir, sei lá, perdido, desesperançoso e falar ‘é hora de voltar e pegar o que ficou ali detrás, porque esse é o caminho que eu gostaria de seguir para sempre’.”

Esse caminho é o rap. Não exatamente seus maneirismos sonoros —samples, scratchs, batidas de trap ou boombap—, mas o artesanato das palavras, seus sons e combinações. “Essa é a nossa risota enquanto rappers. É voltar para o início nesse lugar.”

É isso que Emicida faz em “Finado Neguin Memo”, do novo disco, em que estressa ao supremo as possibilidades de rima com palavras proparoxítonas. Também em “Os Memo Preto Zica”, em que constrói sua verso recombinando versos de músicas dos Racionais, por cima de um instrumental meio Jorge Ben Jor, meio Marvin Gaye. É uma colcha de retalhos que soa estranhamente familiar, uma vez que se ele sampleasse frases em vez de trechos de LPs antigos.

Em “Mesmas Cores & Mesmos Valores”, uma referência ao álbum “Cores & Valores”, lançado pelos Racionais em 2014, o rapper mete o dedo na obra do quarteto na forma e também no teor. Em “A Mema Terreiro”, reclama sua veia política de elaboração e denúncia do racismo —o mais próximo do que os fãs chamam de “Emicida do velho testamento”.

A música original, “A Terreiro”, retrata o show dos Racionais na Viradela Cultural de 2007, em que a rossio da Sé, em São Paulo, virou cenário de guerra em seguida ação da polícia. Agora Emicida narra sua versão daquela mesma noite ao lado dos rappers Rashid e Projota —os três estavam na plateia naquele dia.

Ele recria também “Quanto Vale o Show?”, em que Mano Brown desfila rimas uma vez que Pelé costurava defesas, enquanto convida o ouvinte a um passeio por sua mocidade nos anos 1980. “É uma roda gigante essa caneta. Você vai da chacina ao sucesso do Michael Jackson”, diz Emicida.

Se Brown começa por uma batida de partido eminente no pandeiro, o fã e rapper mais novo, em sua versão, lembra-se que o som do zíper da blusa remetia ao scratch que os DJs fazem nos discos de vinil. Dali, secção para outra jornada —a sua própria mocidade, na dez de 1990, até a morte de Sabotage, em 2003.

Na sua “Quanto Vale o Show Memo?”, Emicida rima sobre a eleição de “um presidente operário” em 2001. “As pessoas fazem essa associação [com o Lula], mas a risota é com ‘Uma Odisseia no Espaço’”, diz, citando o filme de Stanley Kubrick. “Ali o ser humano vê a possibilidade de fazer viagens intergalácticas. É um paralelo doido, porque é uma intervalo parecida com a de uma pessoa pobre e operária entender um lugar de reconhecimento uma vez que a presidência da República no Brasil.”

Seu processo de escrita, diz Emicida, é pormenorizado, em que ele vai riscando as palavras uma vez que pedra —”até transpor faísca”. “Procuro [no dicionário] a vocábulo e as formas de interpretá-la, porque às vezes varia a sílaba tônica. Muitas vezes você altera uma sílaba e muda todo o sentido. Tem coisas de uma subjetividade tão grande que não são captadas nem pelos fãs”, ele afirma.

Desde as batalhas de freestyle, Emicida sempre foi um craque das rimas, e nunca abandonou o rap. Mas em seus últimos álbuns —”O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Cá”, de 2013, e “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Lar”, de 2015, e “AmarElo”— ele foi caminhando para perto da MPB.

Em 2017, o rapper Don L lamentou que o rap só seria reconhecido enquanto arte a partir de movimentos desse tipo. “Se é MPBoy a grana vem/ Igual passarinhos voando/ Colando no Leblon vez em quando/ Pra chupar a Lavigne/ Mais do que o Athayde faz projecto/ Na sauna hype do Caetano”, ele rimou em “Eu Não te Senhor”, citando indiretamente “Passarinhos”, cantiga de Emicida com Vanessa da Mata, levada ao ukelele, e marco daquele momento.

Não era uma sátira a Emicida, uma vez que o próprio Don L esclareceu no mesmo álbum, na tira “Fazia Sentido”, mas ao ecossistema da música no Brasil. É uma vez que se o rap não se bastasse —ele precisaria do aval dessa escol da MPB.

Na última dez e meia, Emicida cantou em todos os grandes festivais do país , excursionou no exterior —tocou no Coachella, nos Estados Unidos, muito antes de Anitta e Ludmilla—, colecionou prêmios e angariou uma pasmo intelectual que é rara para qualquer rapper em qualquer idade. Culminou com o show de “AmarElo” para um Theatro Municipal, em São Paulo, lotado —e, também vasqueiro, repleto de pessoas negras no palco e na plateia.

Na úlima quinta, teve um verso seu citado pela ministra do Supremo Tribunal Federalista Cármen Lucia em seu voto na ação sobre a provável preterição do Estado na garantia de direitos da população negra. E neste sábado (29), recebeu o título de doutor honoris motivo pela Universidade Federalista do Rio Grande do Sul.

Recentemente, também deu aulas nas universidades de Pittsburgh, nos EUA, e Coimbra, em Portugal. “Pude reorganizar em parâmetros acadêmicos toda a informação que a gente manipula para fazer um rap —e é muita coisa”, ele diz.

Agora, na “tempo Racional”, Emicida quer exercitar o rap em toda a sua magnitude. “Depois dessa jornada de indústria, arte e cultura, quero apresentar a música rap não uma vez que um quase alguma coisa, mas uma vez que um gênero completo. O rap existe dentro de si mesmo há décadas. Fomos muito questionados —às vezes pela prensa, às vezes pelo mercado, com a demanda de ter refrão, ser mais pop.”

Se a confusão de agora lembra a de 2009, talvez o retorno seja dissemelhante. Mais que aos Racionais, Emicida está buscando a si mesmo através do grupo que arquitetou a maneira brasileira de se fazer rap. Está mais para o glorioso retorno de quem já esteve cá.

“Fiquei introspectivo, cuidei de minha família, minhas vegetação, meus cachorros, li meus livros”, diz. “Rodei o mundo, mas era a hora de voltar para morada. Mostramos milénio possibilidades, mas se você quer ser alguém, você tem que ser você. E sou isso aí. É a música de que paladar.”

“Onde a sua mente está agora?”, Emicida indaga numa tira de “Mesmas Cores & Mesmos Valores”. É uma estratégia budista para se não deixar levar por preocupações futuras ou problemas do pretérito. Recentemente, o rapper lidou com alguns contratempos.

Dona Jacira, sua mãe, morreu em julho, aos 60 anos. Os mais de oito minutos da primeira tira do novo álbum são dedicados a ela, que surge numa colagem de áudios por cima do piano de Amaro Freitas. Entre outras coisas, ela fala da urgência de redigir, alguma coisa em generalidade com o fruto MC, mas que não era percebido assim.

“Nossa relação foi de embates”, diz Emicida. “Meu pai foi um DJ goro. Isso tem relação com o alcoolismo no qual ele caiu, o que tem vínculo direto com a forma uma vez que ele morreu. Ter uma situação dessa em morada gera um assombro.”

Sua mãe não gostava de rap, nem queria que ele seguisse essa curso. Na periferia, ele diz, as pessoas não são moldadas para sonhar, mas fazer secção de uma engrenagem. “Só que sou uma engrenagem rebelde. Um parafuso que falou ‘vá se foder, vou permanecer girando cá o resto da minha vida? Sai fora.’”

Não ajudou o indumentária de que na dez de 2000 o rap era visto uma vez que a música do violação. É alguma coisa que não mudou muito, diz o artista, lembrando as prisões de Oruam e Poze do Rodo, no Rio de Janeiro, acusados de fazer apologia do tráfico de drogas e de envolvimento com o violação.

“Quando ganhei a Liga dos MCs, em 2006, dormi na lajeada com o prêmio no bolso. Minha mãe ficou brava de eu ter ido ao Rio fazer essa paragem. Demorou para ela entender, e a gente nunca falou sobre isso”, diz. “É uma paragem muito louca da relação de mãe e fruto. São conversas que não aconteceram.”

Num dos áudios de “Mesmas Cores & Mesmos Valores”, Jacira, sua mãe, diz que precisa redigir, alguma coisa que ela fazia havia décadas. “Você ia pegar um caderno de receitas e tinha um negócio escrito sobre o bairro. Foi ver isso que me fez redigir”, diz o rapper. “Ela não entendeu que, além da cultura hip-hop, tinha alguma coisa dentro da minha morada que emanava dela e que me fazia teimar naquele bagulho. No meio das nossas tretas, minha capacidade de improvisar evoluiu. Eu não podia ter um caderno, ia gerar discussão. Tive que levar tudo para dentro da cabeça. E nas batalhas era onde eu podia botar para fora.”

Até sua primeira música, “Triunfo”, de 2008, Emicida teve outros trabalhos —foi pedreiro, artesão, assistente de estúdio. Quando lançou a mixtape de estreia, no ano seguinte, já foi por um selo próprio, o Laboratório Fantasma.

Tocada por ele com o irmão, a empresa nasceu da vontade de fazer as coisas por conta própria, dada a incompreensão em torno do rap —que começava dentro de morada, mas se estendia à indústria. Em alguns anos, se tornou uma das mais bem-sucedidas experiências independentes da música brasileira.

Além de Emicida e Evandro Fióti, a Lab publicou obras de gente uma vez que Rael e Drik Barbosa, desfilou na São Paulo Fashion Week com suas coleções de roupas, teve escritório, estúdio e um negócio rentável. Em abril, os irmãos romperam em seguida um desacordo financeiro milionário e a disputa está na Justiça.

Emicida não proibiu a reportagem de perguntar sobre o ponto, mas não quis se aprofundar. “Em minha trajetória sofremos muito enviando trabalhos para a prensa que não receberam a atenção que considerávamos devida. Não quero ser protagonista desse tipo de situação e prefiro não visitar esse ponto. A Laboratório Fantasma continua dentro de um litígio a partir desse desacordo, e a gente não tem previsão de fazer novos projetos através dela.”

O padrão de negócios que impulsionou a empresa fez sentido na idade, ele diz, mas é uma bananeira que já deu frutos. Ele era fundamentado em publicidade —”monetizar cliques e ‘likes’ tendo visibilidade e seguidores”. “Essas métricas vão ser irrelevantes porque podem ser reproduzidas em uma escritório por qualquer pessoa que tenha ou não um vínculo com alguma coisa verdadeiro.”

Para o rapper, a internet tem de voltar a ser protocolo, não plataforma, e a tendência é de fricção contra as redes. “Se você tem atenção por ser legítimo, consegue se manter de pé. Esse vai ser o parâmetro —pessoas que não são ameaçadas pela lucidez sintético porque significam alguma coisa fora do do dedo.”

Ele crê que a subida das pautas de asserção de identidades marginalizadas no auge da gravadora gerou choques valiosos. “O resultado são as conversas que tenho com minhas filhas. Enquanto sociedade, fomos para um lugar melhor”, diz. “Tomamos flechadas e disparamos, mas eram ideias que precisavam de atenção. Excessos foram cometidos. Nem tudo o que foi dito por quem trouxe essas bandeiras foi legítimo. Assim uma vez que nem todo mundo que defendia outro ponto era digno de vaia.”

“Mesmas Cores & Mesmos Valores” sai pelo novo selo de Emicida, Cecrópia. “Pouco refrão? Só tem um”, diz Emicida, rindo, ao comentar o novo disco. Ele diz que cria sob uma lógica de cultor —para ter um bom grão de moca, é preciso um trabalho de três anos antes. Ao mesmo tempo, agora quis captar o calor do momento. Mais ou menos uma vez que uma foto de Walter Firmo, responsável da cobertura do álbum do rapper, que retratou ícones do samba com um clique instintivo.

Nisso sobram ruídos, silêncios e uma tira de dez minutos que é música concreta no estilo John Cage. Ao termo da primeira música, ouvimos ao fundo um fragor de pranto. “É um microfone que estava dentro do piano e colateralmente gravou o momento que eu estava chorando, me levanto, amplexo o Amaro Freitas e a gente chora junto.”

As cores podem ser as mesmas, mas alguns valores mudaram. Em “Intro (É Necessário Voltar ao Primórdio)”, a primeira música da primeira mixtape, Emicida rima que Jesus perdoou demais e morreu, e Lampião confiou demais e morreu, antes de arrematar —”não confio nem perdoo, por isso mandaram eu”. Era ali o rapper que veste seu eu-lírico com uma cobertura de super-herói para inspirar o ouvinte e esconder fragilidades.

Emicida está de volta ao rap, mas não sem o que colheu enquanto se tornou um dos grandes nomes da história do gênero no Brasil. E com toda a sua vulnerabilidade. “Porquê todas as pessoas, também tenho minhas angústias, ansiedades, desesperanças. E aí a cabeça entra em um vórtex”, ele diz, citando o aprendizagem budista a que recorria.

Até porque, para o rapper, o que define o melhor da música e da cultura brasileira é uma “dimensão inseparável da melancolia e da luz”. “Você vai descobrir isso na bossa novidade, no Johnny Alf, no Jorge Ben Jor, nos Racionais”, ele afirma.

Emicida diz que sua “tempo Racional” é um presente para o garoto que descobriu no poder das palavras o sentido da vida, e seu congratulação aos responsáveis por isso, o maior grupo do rap pátrio.

Afirma também que fez o novo álbum para aproximar pessoas e gerações. “A gente precisa se reconectar. Estou falando cá numa esfera íntima, familiar, mas a gente precisa produzir uma atmosfera de conexão enquanto sociedade. E não é por ideologia simplesmente —é porque isso é vital para nossa sobrevivência enquanto povo. A gente vai ter que colocar perdão no horizonte. E perdoar não é fácil.”

Folha

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