Reconhecimento do jongo como patrimônio chega a 20 anos com

Encontro de Jongueiros transforma Praça Tiradentes em quilombo no Rio

Brasil

A Rossio Tiradentes, no meio do Rio, vai se transformar em quilombo nesta quinta-feira (14), a partir das 10h, até sábado (16), durante o Encontro de Jongueiros. Na Semana do Patrimônio Histórico Vernáculo, tapume de 400 praticantes da dança, originários de 18 comunidades de jongo de São Paulo e do Rio de Janeiro vão se reunir em rodas, shows de samba, oficinas com mestres, exposição fotográfica na terreiro e seminário no Teatro Carlos Gomes.

O evento comemora os 20 anos de reconhecimento da dança porquê Patrimônio Cultural Intáctil do Brasil, em 2005, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Vernáculo (Iphan), dentro do calendário de festas, eventos e projetos comemorativos criado por lideranças de comunidades jongueiras.


Brasília (DF), 26/07/2025 - Reconhecimento do Jongo. Foto: Karen Eppinghaus/Divulgação
Brasília (DF), 26/07/2025 - Reconhecimento do Jongo. Foto: Karen Eppinghaus/Divulgação

Jongo:dança é sentença cultural afro-brasileira particularidade da Região Sudeste do Brasil. Foto: Karen Eppinghaus/Divulgação

A intenção é investigar os resultados do projecto de salvaguarda do gênero músico coreográfico afro-brasileiro, que reúne ritmo com a percussão de tambores, dança de roda e versos dos cantos também conhecidos porquê pontos.

“Vai ser a grande comemoração dos 20 anos do tombamento do jongo. A Rossio Tiradentes vai virar quilombo”, disse o pesquisador, músico e coordenador do encontro, Marcos André Roble, em entrevista à Sucursal Brasil.

Oralidade

A manutenção da sentença cultural afro-brasileira particularidade da Região Sudeste do Brasil, se deve muito à transmissão dos saberes de geração em geração, por meio da informação verbal ou oralidade, do gestual e da materialidade dos instrumentos musicais.

Dependendo da localidade, o jongo também é chamado de congo ou caxambu. No Espírito Santo, pode ser congo. No Morro do Salgueiro, na zona setentrião do Rio de Janeiro, é caxambu, nome oferecido também em Minas Gerais e no Morro da Serrinha, em Madureira, e ainda na zona setentrião da capital.

A dança tem matrizes que vieram da África com pessoas escravizadas, de origem Bantu, principalmente do Congo, Angola e Moçambique, levadas para trabalhar em lavouras de moca e de cana-de-açúcar, no Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo.

Com a cessação, segmento dos libertos migrou para a capital do Rio de Janeiro, se instalando em favelas e fundando escolas de samba. Outros permaneceram na região fortalecendo a cultura no Vale do Moca, onde o jongo é preservado na núcleo original. Lá existem cinco comunidades centenárias dos municípios de Barra do Piraí, Piraí, Valença, Pinheiral e Vassouras, no sul do estado.

“O jongo nasceu nas senzalas das cidades do Vale do Moca e, com a cessação, desceu para a capital, onde foram fundadas as primeiras favelas do Rio, que são Salgueiro, Mangueira, São Carlos, Providência e Serrinha”, completou Marcos André.

Segundo Marcos André, eles criaram o Rodeio Afro do Vale do Moca, unindo as cinco comunidades centenárias para trazer o turismo étnico mundial e melhorar a vida dessas populações, historicamente exploradas e excluídas.

Debates

Pesquisas, inventários e registros sobre o jongo e o Vale do Moca é o tema de fenda do seminário, hoje, às 10h, no Teatro Carlos Gomes. Participam a pesquisadora e integrante da Velha Guarda do Poderio Serrano, Raquel Valença; as professoras do Laboratório de História Verbal da Universidade Federalista Fluminense (UFF), Hebe Mattos e Martha Abreu; o Procurador da República, Júlio José Araújo Júnior; o fundador do Instituto Cachuera de São Paulo Paulo Dias; a professora da Universidade Federalista do Rio de Janeiro (UFRJ) Eleonora Gabriel e da UFF Elaine Monteiro; e o jongueiro do Morro da Serrinha e produtor cultural Rodrigo Nunes, e outros.

No mesmo dia serão realizados dois debates. O tema do primeiro, que começa às 11h30, é Mestras e Mestres – Avaliação dos 20 anos de registro do Jongo e prospecções sobre o horizonte das comunidades. Estarão presentes mestres dos grupos de Pinheiral, Pádua, Campos, Quilombo São José dos municípios de Valença, Barra do Piraí, Natividade, Quissamã, Magé e Piraí e do babalorixá e produtor Pai Dário do Morro da Serrinha.

Às 14h30, começa a imposto bantu para a formação da cultura do Rio e do Vale do Moca, que vai racontar com a participação da primeira doutora negra do Brasil, a professora Helena Theodoro, do babalawo Ivanir dos Santos, do professor e noticiarista Luiz Rufino e do pesquisador Marcos André.

Lançamento

A programação da tarde tem ainda o lançamento do Museu do Jongo, com participação de uma das lideranças do jongo de Pinheiral, Mestra Fatinha, matriarca com mais de 40 anos de militância pela divulgação e preservação desta cultura.

“O jongo do Pinheiral nunca parou ou ficou letargo. Ele vem passando de geração em geração, e há 40 anos fazemos a coordenação do trabalho de preservação da dança, da autoestima do nosso povo preto, principalmente das nossas crianças. É a nossa bandeira de luta, porque, em uma roda de jongo, a gente trabalha várias coisas sempre em procura da liberdade, e continuamos mantendo a tradição genuína”, afirmou Mestra Fatinha, em entrevista à Sucursal Brasil.

O espaço vai reunir em um portal tapume de 5 milénio fotos, áudios e vídeos inéditos e artigos sobre comunidades de jongo, resultado de uma pesquisa de 30 anos de Marcos André e das lideranças jongueiras do lugar.

“Ali vão estar todos os acervos das famílias jongueiras que estavam se deteriorando e dispersos. Tudo isso foi reunido em um trabalho de décadas e vai estar tudo digitalizado e disponibilizado gratuitamente na internet no Museu do Jongo”, disse o pesquisador.

O museu vai funcionar dentro de um parque temático, que está em curso com o projeto executivo selecionado, segundo o pesquisador, pelo Programa de Aceleração do Prolongamento (PAC), do governo federalista. O lugar é no Parque das Ruínas de Pinheiral, origem desta sintoma afro-brasileira.

“Tantos anos depois da cessação essas comunidades ainda não têm seus museus, centros de visitação ou suas escolas de jongo. É sobre isso que a gente está falando e Pinheiral já deu o primeiro passo com a aprovação do projeto executivo pelo PAC na Herdade São José dos Pinheiros”, observou.

Além do Museu, o espaço terá a Escola do Jongo, um restaurante de comidas étnicas e um meio turístico de visitação. Conforme o pesquisador, a inauguração está prevista para 2027.

A programação do primeiro dia tem ainda a exibição curta-metragem Jongo do Vale do Moca, que conta as raízes do jongo e do lugar onde ele nasceu durante a escravidão. A direção é de Marcos André Roble. O dia se encerra às 17h,com uma roda de jongo.

Oficinas

Na sexta-feira (15), serão realizadas oficinas entre 10h e 18h, no Museu da República, no Catete, e na sede do Iphan RJ, no meio da cidade. A primeira, às 10h, vai ensinar a fazer um tambú, que é a arte de confecção do tambor de jongo.

Depois, às 11h30, é a vez de mostrar as igualdades e diferenças da dança do jongo e do caxambu. Na segmento da tarde a terceira oficina, às 14h, vai tratar dos cantos e pontos, a forma músico porquê se comunicam os jongueiros e às 16h a oficina 4 trará Toques do tambú e candongueiro.

No último dia, sábado (16), vai ter mais um seminário no Teatro Carlos Gomes. O tema da primeira mesa, que começa às 10h30, é Políticas de Salvaguarda para o Jongo – Poder Público e parceiros. Ao meio dia, haverá uma homenagem às mestras e mestres de jongo e caxambu. Às 12h30, o lançamento e a estreia do curta-metragem Mestres do Patrimônio Intáctil do Estado do Rio, dirigido por Marcos André Roble.

“Tem mestres da peneira caiçara da Costa Virente, do candomblé, do afoxé, do jongo e da umbanda. São mestres dessas tradições com seus depoimentos.”

Em seguida a exibição, começa o cortejo, às 13h e às 14h, com a fenda da exposição fotográfica na Rossio Tiradentes, no mesmo lugar das rodas de jongo das comunidades, a partir das 15h. O  público vai se divertir com o grupo Samba de Mestiço e participações especiais. O fecho está previsto para às 22h.

“É um momento histórico, realmente. Nunca 400 quilombolas de 18 quilombos ocuparam uma terreiro no meio do Rio. Vai ter fogueira, vão edificar um altar com pretos velhos, as árvores da terreiro vão ser iluminadas”, revelou.

Fonte EBC

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