Ensaio Aberto usa ferramentas do MST em peça 08/01/2026

Ensaio Aberto usa ferramentas do MST em peça – 08/01/2026 – Mise-en-scène

Celebridades Cultura

A montagem de “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), pela Companhia Tentativa Acessível, encontra seu ponto de inflexão mais contundente na escolha do ator Gilberto Miranda para o papel protagonista em 2025. Aos 72 anos, Miranda — que interpretou o mesmo personagem aos 46 em 2000 — carrega no corpo o peso real do envelhecimento, operando um “rejuvenescimento às avessas”. Seu Severino não é mais a vida ceifada antes dos trinta, mas a materialização da sobrevivência em condições de miséria perpétua, transformando a agonia do retirante em uma luta prolongada e invisibilizada contra o etarismo e a exploração contínua.

O elenco, de muro de 25 atores, sob direção de Luiz Fernando Lobo, funciona uma vez que um coro que é uma parede de resistência. Seu trabalho de corpo concreto recusa a ornamentação do sofrimento. A encenação constrói um “mural vivo” que evoca Cândido Portinari, buscando uma universalidade na sequidão e na pundonor ferida. A iluminação de Cesar de Ramires, com seu claro-escuro, acentua a geometria trágica das cenas, enquanto a cenografia de J.C. Serroni cria um horizonte infinito. Nela, ferramentas reais — obtidas em troca com o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terreno (MST) — trazem para o palco a memória do trabalho e ancoram a trova de João Cabral no solo da luta social.

A trilha sonora histórica de Chico Buarque ganha novidade vida sob a direção músico de Itamar Assiere. Os músicos posicionados na boca de cena tornam a realização um ato de construção épica e ao vivo. Oriente rigor estético serve para uma atualização política da “Geografia da Rafa”, de Josué de Castro (1908-1973). A peça incorpora dados contemporâneos, uma vez que relatórios sobre desigualdade, e cita iniciativas globais, argumentando que a “morte severina” é hoje um fenômeno metropolitano global. O teatro se faz assim relatório e manifesto.

O orgasmo do promanação no manguezal é tratado uma vez que certeza da vida que emerge do confronto com a vexação. A celebração final do coro propõe a esperança uma vez que um ato de luta. Esta visão dialética evita o niilismo e encerra o espetáculo uma vez que um testemunho de perseverança — tanto de Severino quanto da própria companhia, que segue fazendo do teatro um laboratório de liberdade e pensamento político alcançável a todos.

Três perguntas para…

… Luiz Fernando Lobo

Porquê surgiu a teoria de trazer Gilberto Miranda de volta ao Severino aos 72 anos e o que essa escolha revela sobre a invisibilidade e a sobrevivência do idoso na pobreza?

Gilberto veio trabalhar com a Companhia Tentativa Acessível em 2000, quando criávamos, pela primeira vez, “Morte e Vida Severina”, numa parceria com a Prefeitura de Lisboa. Desde logo, permaneceu conosco na companhia, realizando dezenas de espetáculos. Veio e fez, talvez, o papel mais importante da vida. Sobre continuar a fazê-lo agora, quando resolvemos remontar a peça, ele me perguntou uma vez que ficaria a questão da idade. Quando João Cabral de Melo Neto escreveu o poema, Josué de Castro acabara de publicar um estudo: o recifense vivia, em média, 28 anos. Morria velho antes dos trinta. Respondi ao Gilberto: “Você está com 28 anos. Ainda dá para fazer.” Atores não têm idade. Têm experiência, força de trabalho e muito suor. Isso é o Teatro.

Ao incorporar dados atuais e a “Geografia da Rafa”, você vê o teatro uma vez que documento ou denúncia? Porquê lastrar a trova de João Cabral com a urgência política sem se tornar panfletário?

Todo documento é denúncia; toda denúncia, documento. A trova de João Cabral não abre mão, nem por um segundo, da sátira, da denúncia, da proposta de um outro mundo provável. São palavras concretas em luta permanente contra a desvario. Ao mesmo tempo, ela não abre mão da força poética, com versos uma vez que “infecciona a miséria”, “um oásis no deserto” e “com ventos a calmaria”. As contradições têm sempre a força da denúncia e da proposta de mudança, mas sustentadas por uma enorme fardo poética.

Porquê a trilha de Chico Buarque e a direção músico de Itamar Assiere dialogam com a proposta de teatro heróico, mormente com os músicos em destaque na boca de cena?

Chico é Chico, sempre. Já era genial em 1966. João Cabral percebeu desde o primeiro momento uma vez que Chico havia entendido, na prática, os versos de pedra escritos por ele. Já Itamar Assiere criou arranjos altamente sofisticados, sem perfurar mão da sonoridade popular. Foi mais um rabi entre mestres. Pode parecer fácil, mas não é: de um lado, João Cabral; do outro, Chico Buarque. Dois gênios da cultura brasileira.

Sesc Pinheiros – rua Paes Leme, 195, Pinheiros, região oeste. Qui. a sáb., 20h. Dom., 18h. Até 18/1. Duração: 90 minutos. A partir de R$ 21 (credencial plena) em sescsp.org.br e nas bilheterias das unidades


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Folha

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