Entenda a relação dos impactos climáticos com a vida cotidiana

Entenda a relação dos impactos climáticos com a vida cotidiana

Brasil

Em um único dia, Luiz Antônio Ceccon viu toda sua história de vida e o seu trabalho, na Ilhota da Pintada, em Porto Feliz (RS), serem levados pelas águas do Rio Jacuí.


Porto Alegre (RS), 20/06/2024 - Luiz Antônio Ceccon de Albuquerque e sua esposa dentro do Ginásio Elyseu Quinhones aonde serve de abrigo para desabrigados atingidos pela enchente no município de Eldorado do Sul. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
Porto Alegre (RS), 20/06/2024 - Luiz Antônio Ceccon de Albuquerque e sua esposa dentro do Ginásio Elyseu Quinhones aonde serve de abrigo para desabrigados atingidos pela enchente no município de Eldorado do Sul. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Luiz Antônio Ceccon e sua esposa abrigados no Ginásio Elyseu Quinhones, em Eldorado do Sul (RS) em junho de 2024 – Bruno Peres/Filial Brasil

“Eu tinha geração de animais, eu era pescador, perdi embarcação, perdi rede. Eu tinha geração de bicho, ovelha, cabrito, porco, perdi tudo. Porque minha vivenda era meio longe cá da ilhéu, para chegar lá só de embarcação. Eu perdi os pés da minha vivenda na Mexiana, dentro da Ilhota da Pintada, e tudo que tinha dentro. Cá na Picada, eu perdi também tudo que tinha dentro, que é uma vivenda de aluguel onde minha mulher ia terebrar uma floricultura. Perdemos tudo.”

Luiz e a esposa são sobreviventes das chuvas e enchentes que, em maio de 2024, devastaram 468 municípios do Rio Grande do Sul e atingiram mais de 2,34 milhões de pessoas, deixando 183 mortos, 806 feridos e 27 desaparecidos.


Iranduba, AM 08/07/2024 O líder comunitário Roberto Macedo, da Comunidade de Tumbira, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro, fala com a Agência Brasil Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom
Iranduba, AM 08/07/2024 O líder comunitário Roberto Macedo, da Comunidade de Tumbira, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro, fala com a Agência Brasil Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom

Líder comunitário de Tumbira, Roberto Macedo – Filial Brasil

Já no Setentrião do país, poucos meses antes, em fevereiro do mesmo ano, a Comunidade de Tumbira, no município de Iranduba (AM), começava a se restaurar de um longo período de estiagem, mais possante e longo que nos anos anteriores.

Sem chuvas, o Rio Preto atingiu um dos níveis mais críticos das últimas décadas, em setembro de 2023. Nos meses seguintes, as 140 famílias de Tumbira – que têm no turismo a principal forma de subsistência – foram afetadas drasticamente.

“Fumaça, calor supra da média, o rio sedento, as ilhas de capim e o Cauxim – que é um fenômeno que deixa um [material] orgânico no rio quando ele seca além do normal, pega o sol, e vira tipo assim um pozinho que dá alergia nas pessoas”, conta o líder comunitário Roberto Macedo sobre o que labareda de sequelas da seca.
 


Brazil drought reduces Amazon river port water levels to 121-year record low. REUTERS/Bruno Kelly
Brazil drought reduces Amazon river port water levels to 121-year record low. REUTERS/Bruno Kelly

Estiagem reduz nível do Rio Preto ao mais plebeu em 121 anos – Reuters/Bruno Kelly/proibida a reprodução

Relatório

O pesquisador Ronaldo Christofoletti, do Instituto do Mar, da Universidade Federalista de São Paulo (Unifesp), explica que o dia a dia dessas pessoas foi afetado pelo que denominou “desastres climáticos”, no primeiro relatório da série Brasil em Transformação, que analisa uma vez que os desastres naturais no país são intensificados pelas mudanças climáticas ocorridas em todo o planeta.

“Tem um oferecido ali que labareda muita atenção, quando a gente olha que 92% dos municípios brasileiros já registraram desastres, já foram afetados de alguma forma e que está aumentando de frequência”


Termômetros marcando 46°C em um dia de calor intenso no Rio de Janeiro
Termômetros marcando 46°C em um dia de calor intenso no Rio de Janeiro

Termômetros marcaram 46°C em um dia de calor intenso no Rio de Janeiro – Tomaz Silva/Filial Brasil

O estudo cruzou dados do Climate Change Institute, da Universidade do Maine, que evidenciam o aumento gradual da temperatura planetária tanto no ar, quanto no oceano; com os números do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID) do Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional, dos últimos 32 anos (1991 a 2023).

A partir desses dados, os pesquisadores concluíram que para cada aumento em 0,1 proporção Celsius (°C) na temperatura média global do ar, houve um aumento de 360 registros de desastres.

Quando o mesmo aumento ocorreu nos oceanos, houve um propagação foi de 584 registros. Isso representou um propagação médio de 100 ocorrências ao ano no Brasil, no período entendido entre 1991 a 2023.

Ao longo desse período, o estudo identificou 64.280 desastres climáticos e os classificou de conformidade com cinco tipos de registro:

  1. climatológicos, para os relacionados a seca (estiagens, incêndios florestais e baixa umidade do ar);
  2. hidrológicos, pra os relacionados a cheias (enxurradas, inundações e alagamentos);
  3. meteorológicos, relacionados a mudanças de temperatura (ondas de indiferente, calor, ciclones, ventos costeiros);
  4. geológicos, para os relacionados a deslocamento de volume (deslizamentos, terremotos e erosão); e
  5. biológicos, para os relacionados ao desequilíbrio de espécies (epidemias e infestações).

“Quando você passa a ter alterações ambientais mais amplas, uma vez que desmatamento, poluição e enriquecimento de águas por nutrientes, você passa a beneficiar a proliferação de vários agentes infecciosos. De vírus, de bactérias e assim segue. Logo, a partir daí, esse é um sinistro biológico, porque ele não aconteceria naturalmente”, explica o pesquisador.

Do totalidade de desastres climáticos, 49,8% foram climatológicos. Outros 26,58% foram hidrológicos; 19,87% foram classificados uma vez que desastres meteorológicos; 3,32% desastres geológicos e, por termo, os desastres biológicos somaram 0,35% dos registros entre 1991 e 2023.

Prejuízos

Os pesquisadores também concluíram que a cada aumento 0,1°C na temperatura média global do ar, houve um prejuízo econômico estimado de R$5,6 bilhões no país.

“Todos esses dados de prejuízo econômico, a gente pode declarar, com certeza, que são subestimados. A gente sabe que é mais do que isso, porque o oferecido que a gente usou para estimar o impacto econômico é somente aquele que as prefeituras lançam na plataforma de sinistro da Resguardo Social”, explica o Christofoletti.

Para o pesquisador, os impactos econômicos chegam à população duas vezes: uma de forma mais direta, quando os efeitos dos desastres climáticos afetam os bens, a moradia e a forma produtiva das pessoas; e uma segunda vez, quando o poder público precisa redirecionar recursos para as necessidades emergenciais criadas.

“Esse é um numerário de gasto público para reconstruir para reformar, restaurar as cidades, que é numerário que poderia estar indo para instrução, saúde, em benefícios da sociedade, mas está sendo usado para reconstruir cidade.”

Há ainda os impactos sociais que alcançam cada vez mais pessoas, revelou o estudo. Nos últimos quatro anos da pesquisa, período entre 2020 e 2023, quase 78 milhões de pessoas foram afetadas por desastres climáticos, o equivalente a 70% do número de afetados nos dez anos anteriores, entre 2010 e 2019.


São Paulo (SP), 24/05/2024 - Doações para o Rio Grande do Sul armazenadas no hangar da Base Aérea de São Paulo. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
São Paulo (SP), 24/05/2024 - Doações para o Rio Grande do Sul armazenadas no hangar da Base Aérea de São Paulo. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Hangar da Base Aérea de São Paulo com doações para o Rio Grande do Sul – Rovena Rosa/Filial Brasil

De conformidade com o pesquisador, esses números se traduzem em impactos sociais que vão além do número de vítimas contabilizadas entre mortos, feridos e afetados. Christofoletti cita ainda as perdas emocionais não contabilizadas dessas vítimas.

“Aquela vivenda, principalmente para populações mais vulneráveis, ela vinha da mãe, do avô, do bisavô. Aquilo tinha história das pessoas lá dentro. São perdas que não são mensuráveis e tem um impacto de saúde mental muito grande.”

Segundo o pesquisador, outro estudo desenvolvido pela equipe do instituto da Unifesp apontou que 62% das pessoas entrevistadas sentem pavor em dias com previsão de chuva intensa na sua região.

“Quando você tem 62% da população falando ‘Eu sinto pavor quando vai chover!’, a gente já está falando de um impacto de saúde mental. As pessoas passam a ter pavor e isso é um impacto muito possante, seja pela perda daqueles bens, que não é pelo numerário em si mas pelas memórias e pelo valor afetivo que eles têm, seja uma vez que isso está afetando a saúde mental propriamente”.

De conformidade com a equipe, esses temas serão detalhados nas próximas publicações da série que, inicialmente, detalhará cada tipo de sinistro e analisará seus impactos de forma mais específica.

“Nesse primeiro relatório a gente teve que explorar esses desastres todos juntos. Logo assim, o pacote totalidade de desastres, porque eles têm essa classificação ampla. Agora o passo que a gente vai dar, que a gente já está finalizando a primeira segmento, é explorar sinistro por sinistro.”

Fonte EBC

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *