O diretor Laurent Cantet, de “Entre os Muros da Escola”, de 2008, sabia que talvez não tivesse forças para realizar seu último projeto, “Enzo”, mas resolveu bancar a empreitada assim mesmo, apesar de um cancro invasivo. Mas sua saúde não o deixou sequer principiar a filmar. Antes de morrer, em abril de 2024, confiou o projeto ao assistente Robin Campillo —de “120 Batimentos por Minuto”, de 2017—, que assumiu as rédeas do longa.
É a história de Enzo, um rapaz de 16 anos que vive em uma morada confortável, até luxuosa, no Sul da França. Mas existe uma inadequação entre o estilo de vida do rapaz e suas expectativas; é porquê se ele não se reconhecesse porquê fazendo segmento daquele meio.
Ou talvez se reconheça, sim, e aí é que está o problema: não quer mais se identificar com aquilo. Por isso, em vez de fazer porquê a maioria de seus colegas e estudar para, futuramente, exercitar um ofício que lhe pague muito, ele simplesmente abandona a escola. Opta por trabalhar, o que até poderia ser aceito por sua família, mas ele escolhe a profissão menos cogitável para um rapaz de seu meio social —pedreiro em um canteiro de obras.
Achando que tudo não passa de uma mera “temporada”, típica das confusões da puberdade, seus pais provisoriamente engolem essa escolha a sequioso –ao menos até ele recolocar a cabeça no lugar. O que, no entanto, não vai sobrevir porquê eles imaginam.
Em um dos filmes mais representativos do espírito de rebeldia setentista, “Cada Um Vive Porquê Quer”, de 1970, dirigido por Bob Rafelson, Jack Nicholson era um varão de família abastada, erudita, que jogava tudo para o cimeira e ia ser trabalhador braçal em uma plataforma de petróleo.
Era um protesto contra o mundo burguês, mas desvelava também uma tormenta existencial –dispor trabalhos mal remunerados lhe dava uma sensação de liberdade e de desenraizamento: largar tudo e reiniciar do zero, em outro subemprego, não seria alguma coisa muito difícil de fazer. Era o que o deixava se sentir livre, e isso era sua única desejo na vida.
O Enzo do filme de Campillo tem conexão com esse personagem, mas sua rebeldia se dá em um contexto muito menos radical. E ele não tem ainda uma compreensão muito elaborada sobre o que o é seu ideal, mas sabe que se enquadrar em uma rotina de classe média, porquê muitos amigos, definitivamente não é para ele.
Em seu ocupação, Enzo é desgracioso –na verdade, atua com notório desleixo, porquê se o canteiro de obra fosse mais uma das tantas coisas no mundo que o deixam totalmente indiferente. Só depois que ele trava amizade no trabalho com um imigrante ucraniano, Vlad, é que começa a sentir conexão com alguma coisa.
Quanto mais convive com Vlad, dois aspectos em Enzo são atiçados: sua sexualidade e uma tomada de consciência sociopolítica. Vlad não quer voltar para a Ucrânia devido à guerra com a Rússia, e o ponto começa a despertar um interesse privativo em Enzo. Porque o faz compreender melhor aspectos geopolíticos atuais, é verdade, mas também porque a teoria de uma guerra passa a habitar seu imaginário em termos fetichistas –não é à toa que ele se pega, em certos momentos, fazendo desenhos de rapazes segurando fálicos artefatos bélicos.
Enzo se preocupa com as condições materiais da rotina em um canteiro de obras ou na guerra –e mesmo com o bem-estar de Vlad. Mas ele não consegue deixar de sexualizar esses dois ambientes eminentemente masculinos; é um dos raros filmes contemporâneos que atropelam a correção política, ainda que sutilmente, para ousar assumir uma visão mais naturalista sobre as coisas. Finalmente, o libido de alguém segue regras próprias, que escapam a qualquer interferência cerebral.
É um filme sobre as incertezas da puberdade, mas que ultrapassa a mera invenção do paixão. Campillo não veta eventuais intrusões de elementos romantizantes nessa iniciação ao mundo adulto de Enzo, mas o que prevalece é sempre certa sequidão –uma austeridade que, no término das contas, não compromete a visão afetuosa do cineasta. Existe uma ternura que sempre brota de qualquer lugar ali.
Porquê o protagonista, Eloy Pohu tem por vezes um laconismo que evidencia sua inexperiência atuando. Mas é uma crueza, talvez rusticidade, que não é lá um problema no caso de um personagem porquê Enzo, essa pedra bruta que só agora começa a se burilar. Tem mais relação com a origem do papel do que um ator já pleno de truques teria feito.
“Enzo” é um filme repleto de minúcias que compõem um protagonista formidavelmente multíplice, rico. E que não vasqueiro contamina quem o rodeia –é muito curiosa a forma porquê ele desperta no pai uma culpa burguesa que levante julgava inexistente ou adormecida.
E Campillo mostra que tomou a missão que lhe foi incumbida com um misto de saudação por um projeto alheio e a consciência de que tudo só teria qualquer diferencial se ele se apoderasse com vigor do que herdou. E isso ele faz admiravelmente; “Enzo” tem unidade e conformidade. Além de denotar uma grande paixão de um diretor pelo filme adotivo.
