Es Devlin ganha exposição na Casa Bradesco 11/03/2026

Es Devlin ganha exposição na Casa Bradesco – 11/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Há dez anos, um mal-entendido deu origem a uma obra de arte. À quadra, a cenógrafa Es Devlin achou ter recebido por e-mail o invitação para conceber uma instalação artística. Ao terminar de ler a mensagem, a inglesa ficou em êxtase e aceitou de pronto a proposta. Foi só quando começou a elaborar o trabalho que ela se deu conta de que tinha havido um ilusão.

“Porquê eu estava ocupada fazendo a cenografia de peças e concertos, eu interpretei mal a mensagem. Não era um invitação para fazer uma instalação de arte, e sim para gerar o cenário de um mercantil de perfume da Chanel”, diz Devlin, às gargalhadas.

A artista, porém, não engavetou a teoria. Decidiu tirá-la do papel e erigir a obra “Labirinto de Espelhos”, um dos destaques da exposição “Sou o Outro do Outro”, que entrará em edital na Moradia Bradesco no dia 14 de março.

A mostra leva ao público um conjunto de oito instalações de grande graduação, trabalhos que refletem sobre assuntos porquê questões ambientais, a produção de conhecimento e a relação do público com a arte. Em “Labirinto de Espelhos”, por exemplo, Devlin tematizou o fascínio do ser humano pela própria imagem ao conceber uma sala formada por grandes painéis espelhados.

O público, porém, se vê refletido nos objetos de forma fragmentada e distorcida, uma vez que os espelhos são formados por diferentes faces.

“É uma quebra com o mito de Narciso. A verdadeira revelação é quando você se olha no espelho e não se reconhece”, diz ela, acrescentando que estava refletindo sobre a fragmentação da identidade ao conceber esse trabalho.

“Fiquei interessada em porquê podemos nos encontrar e nos perder ao mesmo tempo. É uma questão que surgiu porque me perguntavam sempre em palestras sobre porquê trabalhar com pessoas poderosas sem perder de vista quem eu sou porquê artista.”

A inglesa não exagera quando diz trabalhar com figuras influentes. Devlin já criou o cenário para shows de nomes porquê Adele, Beyoncé, Lady Gaga e Miley Cyrus. Devlin diz ter aprendido a se misturar ao processo criativo desses artistas para desenredar as próprias ideias.

“Eu não tenho temor de me perder. Eu sou capaz de deixar as bordas da minha própria identidade se tornarem porosas, de modo que não sei onde eu termino e o outro começa”, diz ela. “Essa exposição é um estudo sobre porquê redesenhar as bordas de si mesmo, porquê refinar e definir o espaço entre mim e o outro.”

Assim porquê “Labirinto de Espelhos”, Devlin fez outros trabalhos para responder a questões que apareciam de forma recorrente em palestras. É isso o que pode ser visto na instalação “Livraria Infinita”, projeto que surgiu posteriormente perguntarem de onde ela tira inspiração para seus trabalhos.

Porquê resposta, idealizou uma estante triangular de seis metros de profundidade com tapume de 4.000 livros importantes para a sua formação. A obra já foi exposta em Miami, nos Estados Unidos, e agora chega a São Paulo.

“Eu recorro a cada pedaço de pensamento que pude acessar por meio da leitura. Foi através de autores porquê Charles Dickens e Fiódor Dostoiévski que aprendi que a minha dor é a mesma dor compartilhada por outras pessoas. A livraria é porquê uma bússola da mente, apontando para novos mundos”, diz ela, recorrendo às palavras do jornalista Umberto Repercussão.

Trabalhos porquê esses nasceram a partir de uma sensibilidade para dialogar com o público, possivelmente uma legado de sua atuação porquê cenógrafa de grandes espetáculos. Não à toa, Devlin costuma elaborar trabalhos participativos, ou seja, projetos que convidam o público a uma determinada ação.

“Há uma lucidez coletiva na plateia. Se um ator faz um movimento falso durante uma peça, o público percebe na hora, porque é difícil enganá-lo”, diz a artista. “Faço os meus trabalhos tendo em mente esse sentido muito delicado de porquê as pessoas podem receber cada obra.”

Curador da exposição, Marcello Dantas diz que a produção de Devlin chamou a sua atenção justamente por dialogar com o público. “Não é um trabalho somente para ser visto, porque ele só faz sentido a partir do contato com as pessoas”, diz o profissional, para quem a artista é capaz de falar com públicos amplos, desde quem vai a um show de música pop até aqueles que frequentam galerias de arte.

“É vasqueiro alguém circundar nesses dois mundos com a fluidez que ela demonstra e, ainda assim, conseguir manter a própria autoria.”

Folha

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