Acontece com os cineastas considerados autorais. A cada lançamento de um de seus filmes, há um invitação implícito para revisitarmos os anteriores, analisando de que maneira o todo é modificado pela novidade prova de autoria.
No caso do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, tivemos recentemente o lançamento de “O Quarto ao Lado”, que alguns críticos consideram sua obra-prima. Uma vez que esse filme insólito sobre o recta de abreviatura da própria vida modifica nosso entendimento de suas obsessões?
O testemunha paulistano terá a oportunidade de desvendar ou rever a obra do diretor mais famoso da Espanha na Retrospectiva Pedro Almodóvar, que a Cinemateca Brasileira promove em parceria com a Embaixada da Espanha e o Instituto Cervantes.
A seleção contempla 20 dos 23 longas do diretor. A única privação sensível é a de “Mães Paralelas”, um belo e incompreendido melodrama filmado porquê um suspense político. “Julieta”, outro ausente, não faz muita falta, e a terceira privação, “Amores Passageiros”, é provavelmente seu pior momento no cinema.
A vantagem cinematográfica de “O Quarto ao Lado”, que poderá ser confirmada na sessão incipiente da retrospectiva, na tela externa, começou a ser burilada quando Almodóvar assumiu o melodrama, em “A Flor do Meu Sigilo”, e principalmente em “Tudo Sobre Minha Mãe” e “Fale com Ela”, dois de seus melhores trabalhos.
Nesses filmes, o lado melodramático convive muito muito com os excessos que o diretor já dosava com sabedoria, numa espécie de viagem maneirista que apela tanto à razão quanto ao coração.
Pode ser chamada de maturidade a ingresso no melodrama, mas alguns a entendem porquê um esfriamento de sua verve mais provocadora, presente nos primeiros longas, sobretudo em “Maus Hábitos”, onde a legado de Luis Buñuel é notável.
Havia uma vontade gratuita de provocar em obras iniciais porquê “Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão”, “Labirinto de Paixões” e “O que Eu Fiz para Merecer Isto?”, que mostram fagulhas do grande responsável que nasceria no porvir e valem mais pela fúria dos anos de juventude.
Esse lado provocador é manente em sua filmografia, e teve uma espécie de auge na dupla de ótimos filmes de meados dos anos 1980, “Matador” e “A Lei do Libido”, nos quais as pulsões de sexo e morte se enquadram em suspenses tortuosos que devem alguma coisa ao cinema de Hitchcock.
“Mulheres à Extremidade de um Ataque de Nervos” é o resultado mais mercantil da procura pelo diálogo com um público maior. Uma comédia que mostra a influência de Billy Wilder no cineasta madrilenho.
Em seguida veio “Ata-me”, último de uma tempo que pôs Almodóvar nos holofotes do cinema mundial, revelando Antonio Banderas e Victoria Abril a um público ainda maior. Um varão perturbado aprisiona uma atriz por quem se apaixonou perdidamente. Todo o cinema de Almodóvar, o pior e o melhor, está nesse filme. O balanço final é favorável pelo talento do diretor.
Depois, a crise, com dois filmes muito controversos, tanto do ponto de vista artístico quanto pela polêmica —”De Salto Superior” e “Kika”. Oriente último, principalmente pela cena de estupro, é o grande responsável por uma certa repudiação ao cineasta nos últimos anos.
Era necessário emendar a rota. E a correção viria com a rombo ao melodrama de “A Flor do Meu Sigilo”, a partir do qual Almodóvar faz a curva que o faz perder alguns fãs da era mais subversiva e se tornar uma espécie de cineasta da cinefilia contemporânea, sem deixar de lado uma certa subversão domesticada.
Os admiradores da primeira tempo lhe dão as costas. O paladar médio havia asilado o cineasta, com qualquer desconforto. Seja porquê for, a tempo melodramática revelou um cineasta de primeira, com uma qualidade de encenação indiscutível que o público poderá conferir sobretudo em “Tudo Sobre Minha Mãe” e “Fale com Ela”.
Todos os filmes de Almodóvar poderiam se invocar “A Lei do Libido”. Mas é em “Mesocarpo Trêmula” que o balanço entre suspense e erotismo volta a entender o patamar do filme de título matricial. Um policial, uma mulher violentada e um presidiário, numa trama que dialoga com o neo-noir americano dos anos 1980.
Mas em material de suspense à Hitchcock, nenhum filme de Almodóvar supera o labiríntico “A Pele que Habito”, que também dialoga, tematicamente, com o clássico gálico “Os Olhos sem Rosto”, de Georges Franju.
Mesmo com essas referências pesadas da história do cinema, “A Pele que Habito” não empalidece. A questão das operações plásticas é inserida num suspense levado com mãos de rabi.
E o caldeirão referencial nele é mais poderoso. Almodóvar patroa o cinema de Buñuel, que era estremecido por Hitchcock. Talvez levante seja o filme que mais se aproxime de uma poética generalidade aos três cineastas.
Boa segmento dos personagens de Almodóvar estão envolvidos de qualquer modo com a geração artística. Escritores, atores, músicos, cineastas, até mesmo o cirurgião plástico de “A Pele que Habito” reivindica seu lugar entre os criadores.
É justamente numa trilogia tortuosa que parece estar o núcleo da preocupação temática de Almodóvar. São três personagens que são ou se tornam cineastas em “A Lei do Libido”, o melhor dos três, “Má Ensino”, o pior, e “Dor e Glória”, o mais maduro.
Nesses três filmes pode estar a chave para o maior entendimento de todo o trajectória do cineasta em mais de 50 anos. A chave para entender seus descaminhos e suas correções de rota estratégicas e perspicazes. Talvez sejam seus filmes mais pessoais e reveladores.
Mais descolado do que expor “fui à Cinemateca ver um Almodóvar” é escoltar de perto a retrospectiva e perceber a evolução de um dos cineastas incontornáveis das últimas décadas.
