Estilista que oxigenou a moda nos anos 1990 ganha mostra

Estilista que oxigenou a moda nos anos 1990 ganha mostra – 24/08/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

O estilista Conrado Segreto, que chacoalhou São Paulo na viradela dos anos 1980 para os 1990, foi um vulcão em erupção. Um garoto de topete que antes de chegar às salas de seu ateliê passava os dias desenhando drapês, vestidos e saias obsessivamente nos cadernos do escola Equipe, uma das instituições mais politizadas de São Paulo.

“Ele fazia aquilo de forma uniforme, no caderno inteiro. Vez ou outra, encaixava qualquer tópico da material ali no meio. Era espantoso o quanto já era profissional”, lembra a artista plástica Leda Catunda, que o conheceu em 1976, no primeiro ano do colegial, e já percebia o tipo de bolha na qual o colega excêntrico se fechava. “Mais tarde, quando comecei a seguir a evolução dele, entendi que o Conrado estava fazendo a coisa certa.”

Para Segreto, a tristeza do universo não podia estar na roupa. Movida pelo libido de restaurar o legado de Conrado, que adorava vestir mulheres exuberantes, sua mana Rita Segreto, guardiã do espólio do estilista, abriu as portas do ror, que tem mais de 80 looks e incontáveis cadernos de ilustrações, para Anna Carolina Bassi e Caio Campos, cofundadores da marca Carol Bassi.

O flerte, iniciado há três anos, se concretizou no projeto “Carol Bassi Visitante Conrado Segreto”, uma coleção que será apresentada nesta terça-feira, dia 26. Julia Segreto, filha de Rita, foi responsável por reviver as criações do tio. “Escolhi essa profissão por desculpa dele e isso mexe comigo em um lugar íntimo”, diz.

O resultado é uma sequência de 31 looks que combina criações atemporais com o instinto da sobrinha, em estampas clássicas e materiais que vão do tweed à mousseline de seda, com detalhes dourados, fitas de gorgurão e plissados.

As musas de Conrado que rodopiavam em suas passarelas estarão no casting da apresentação na ponte que liga os dois lados da marginal Pinheiros, incluindo Silvia Pfeifer, Claudia Liz e Alessandra Berriel. “Ele via personagens em cada roupa, porquê se ela tivesse personalidade própria”, diz Pfeifer.

Em seguida o evento, as obras originais de Segreto poderão ser vistas na mostra “Conrado Segreto, Agora e Sempre”, ocasião até o dia 7 de setembro no Shopping Cidade Jardim. “É importante resgatar a memória da voga brasileira, mas o mais bacana é que isso envolve também a Belas Artes, que tem um campus cá no shopping”, diz Bruno Astuto, CCO do Grupo JHSF, sobre o entrada da novidade geração acadêmica ao pretérito pátrio.

“Sinto que o tempo está, enfim, fazendo justiça à sua memória”, celebra Gloria Coelho, que contratou Segreto porquê assistente para a sua grife G, em 1985.

“Conrado inventou a roupa de ateliê mais ousada e mudou o mercado”, recorda Costanza Pascolato. “Ele representou para o Brasil o que Karl Lagerfeld foi para o mundo”, comenta Jum Nakao, que, aos 19 anos, fez secção da Cooperativa de Tendência, grupo criado em 1986 por Walter Rodrigues, ao lado de Segreto e que, depois duas coleções, se dissolveu.

Com urgência para fazer o primeiro desfile, raspou as economias, pegou um empréstimo no banco, sem saber porquê pagaria, e fez sua estreia na Morada Rhodia, em 1989. Eram vestidos supra do joelho, usados com meias-calças pretas, parkas de mousseline de seda com estampa de zebra e capuz de plumas, que oscilavam entre a peruagem pura e os modelitos de linhas limpas para coquetéis com decotes V profundos.

No jardim da FAAP, em 1990, a assinatura já consolidada apresentava uma mistura de texturas, ráfia, pele sintética de onça, zibelina, preto e branco e rosa. Para o terceiro espetáculo, no Museu do Ipiranga, a passarela de 80 metros contornava a piscina, levando à cena peças costuradas à mão com pelo menos 12 metros de tecido.

Os desfiles de Conrado Segreto deixavam socialites encantadas, críticos impressionados e o mercado fora do tédio. Cada apresentação deixava simples que um frescor havia chegado à voga brasileira. “Resgatou o libido da roupa sob medida, criando uma mulher feminina e possante”, diz a jornalista e consultora de voga Lilian Pacce.

“De repente, surge esse gênio e deixa todo o segmento em polvorosa”, diz Paulo Borges, fundador da São Paulo Fashion Week, que naquela dezena começou a produzir os espetáculos de Conrado.

Entre 1989 e 1991, Segreto reviveu uma elegância atropelada pelo jeanswear e pelo prêt-à-porter pátrio, subvertendo a subserviência ao estilo europeu e aos movimentos minimalistas belga e nipónico. “Ele se considerava um ‘Joãosinho Trinta’. Amava os códigos brasileiros e o Carnaval, sua forma de transgressão”, conta Rita, mana do estilista.

Possuinte de uma silhueta que exalava feminilidade, preferia plumas, paetês e luvas coloridas às absurdas calças de Yohji Yamamoto, apelidadas por ele de “calça de uma perna só”, usadas em solo brasílico. Do seu ateliê, na Vila Novidade Conceição, também saíram figurinos para peças de teatro e um guarda-roupa para edição próprio da primeira dezena da boneca Barbie no Brasil.

A morte precoce de Segreto, em 1992, aos 32 anos, devido a complicações do HIV, interrompeu o sonho de escalar a via íngreme do luxo sob medida com irreverência. Mesmo já sentindo o progresso da doença, Conrado acreditou, ao lado da mana e do médico Drauzio Varella, que o primeiro retroviral, o Interferon, chegaria a tempo para virar a situação.

No seu horizonte, além dos croquis prontos para a coleção de 1993, estava a realização de morar em Novidade York e o trabalho porquê estilista na Max Mara. Não houve tempo. A sua partida deixou seu nome esquecido, um capítulo luzente deixou de ser escrito por mais de 30 anos na voga brasileira, mas que, finalmente, ressurge.

Folha

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