Estilistas se voltam a artesanato para exaltar brasilidade 20/10/2025

Estilistas se voltam a artesanato para exaltar brasilidade – 20/10/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Em 2015, o estilista Antonio Castro visitava uma exposição no museu A Lar, na capital paulista, quando viu impressa na parede uma frase que chamou a sua atenção. “Se queres ser universal, começa por pintar a tua localidade”, dizia o aforisma atribuído ao redactor Leon Tolstói. Naquele momento, Castro teve uma espécie de epifania.

“Entendi que, se eu quisesse falar com uma audiência mais ampla, o melhor caminho seria expressar o que eu tinha de mais próximo e íntimo.” Surgia assim o embrião da Foz, marca que leva às passarelas o artesanato e a arte popular de Alagoas, terreno natal do estilista. “Eu despertei para um jeito de fazer tendência que não sabia que podia ser provável.” Castro, aliás, não foi o único a perceber isso.

Se no pretérito a tendência pátrio se voltava quase exclusivamente para a Europa em procura de inspiração, hoje estilistas têm apostado em roupas com as cores, a textura e a temperatura do Brasil. Essa tendência pôde ser vista, por exemplo, nos desfiles da São Paulo Fashion Week deste ano. Na passarela, modelos ostentavam peças de tons quentes e terrosos, costuradas com técnicas tradicionais, porquê crochê, bordado, macramê e redendê.

São coleções que não unicamente se inspiram nos rincões do Brasil, mas também são produzidas em parceria com quem mora nessas regiões.

A Foz, de Antonio Castro, é um exemplo disso. As roupas que ele apresentou na última edição da SPFW foram feitas com o auxílio de Maria de Lourdes da Silva Correia Bezerra, bordadeira de Entremontes, município a respeito de 288 km de Maceió.

O estilista aprendeu a bordar pelas mãos de dona Lurdes, porquê a bordadeira é conhecida na cidade. A parceria começou quando Castro estava prestes a terminar a faculdade de tendência. À estação, ele passou uma semana em Entremontes fazendo uma oficina com a artesã. O resultado dessa mentoria nasceu em 2018, quando ele concluiu a faculdade com uma coleção inspirada no artesanato brasílio. Esse trabalho lançou os pilares da Foz, empresa fundada dois anos depois.

“Nosso método é desenvolver junto com o artesão e a partir do repertório que ele já tem. É dissemelhante de unicamente comprar o artesanato ou se apropriar do que já existe”, diz Castro, acrescentando que tentou trabalhar com tendência e artesanato depois que terminou a faculdade, mas não conseguiu encontrar postos de trabalho nessa extensão.

Em razão disso, atuou porquê designer de produtos antes de fundar a própria marca. “A arquitetura e o design foram os que melhor incorporaram o artesanato à sua produção. É dissemelhante da tendência, que está vindo detrás.”

Esse cenário foi desafiado de maneira episódica por estilistas porquê Zuzu Angel, designer que integrou elementos da cultura popular às suas criações.

No entanto, de modo universal, a tendência brasileira olhava com ressalvas para os fazeres manuais, preferindo apostar em tradições europeias. “A gente bebia diretamente do que era produzido na tendência de Paris”, diz Valeska Nakad, coordenadora do curso de design de tendência do Núcleo Universitário Belas Artes, na capital paulista. “O país considerava chique uma tendência que era gringa.”

De contrato com ela, isso mudou diante da valorização da produção regional e do aumento da preocupação com a sustentabilidade.

“As pessoas começaram a olhar mais para dentro de seus universos, principalmente no pós-pandemia”, diz Nakad. “Outrossim, o consumidor está pensando muito em questões relacionadas à sustentabilidade, portanto faz sentido prestar atenção nos materiais usados, nos recursos humanos e nas técnicas empregadas para fazer as roupas.”

Apesar desses avanços, estilistas dizem que o artesanato e a brasilidade ainda são meta de preconceito. É essa a opinião de Patrick Riqueza e Vinícius Santana, responsáveis pelo Ateliê Mão de Mãe, marca que tem no crochê um de seus carros-chefes.

“A gente ainda vive uma veras muito eurocêntrica na tendência. O que é de fora tende a ser mais valorizado”, diz Riqueza. Para exemplificar isso, ele afirma que há quem reclame dos valores praticados pela marca, enquanto compra itens estrangeiros até mais caros.

“O artesanato brasílio ainda não tem o protagonismo que deveria ter”, diz Riqueza. Para Marina Bitu, criadora da marca que leva seu nome, um dos alicerces do preconceito reside no indumento de essa ser uma atividade majoritariamente feminina.

“São mulheres que fazem isso em seu tempo de sota. Por isso, não é visto porquê um trabalho de indumento, e sim quase porquê uma distração, quando na verdade é muito mais do que isso. Muitas vezes, as atividades se tornam o sustento delas”, afirma Bitu, que administra a marca ao lado da sócia Cecília Baima.

Para elaborar a coleção exibida na última edição da São Paulo Fashion Week, a dupla trabalhou com a Associação Fibrarte. Localizada em Missão Velha, no Ceará, a instituição congrega mulheres que concebem produtos artesanais baseados em filamento de bananeira.

Bitu diz que parcerias porquê essas são uma forma de difundir técnicas artesanais ameaçadas de extinção. “A gente está pensando na manutenção desses ofícios para o porvir e na geração de espaços para estabelecer diálogos com os mais jovens.”

A preservação do fazer manual é de indumento um repto. Em muitos casos, são técnicas transmitidas por meio da oralidade. Por isso, é preciso possuir quem ensine e quem esteja disposto a aprender. Essa relação, porém, tem se enfraquecido diante da morte de artesãos e do pouco interesse dos mais jovens.

É um problema que está ameaçando a existência do bordado labirinto no povoado Mata da Onça, localizado às margens do rio São Francisco, na fronteira entre Sergipe e Alagoas.

“A produção do labirinto está acabando porque a gente tem poucas pessoas fazendo”, diz a bordadeira Rosélia Corrêa. “Quem sabe mais são as mulheres mais velhas. Mesmo elas não estão fazendo mais por problemas de visão.”

Corrêa diz que manter essas tradições vivas é importante para prometer a subsistência das comunidades. “Muita gente não tem estudo para ter um trabalho formal, portanto o bordado é de onde a gente tira o nosso sustento.”

Celina Hissa, fundadora da marca Catarina Mina, é uma das estilistas que atuam para preservar esses saberes. Para isso, decidiu incluir nas bolsas vendidas pela empresa um QR Code que leva o consumidor a uma página sobre a artesã que produziu o item. No perfil, as pessoas encontram informações sobre a biografia da artista.

“Proteger a cultura artesanal é preservar outras maneiras de olhar o mundo”, diz Hissa. “É uma forma de respeitar a nossa ancestralidade e de zelar pela nossa história.”

Folha

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *