'Êta mundo melhor!' usa ia para pôr caras e bocas

‘Êta Mundo Melhor!’ usa IA para pôr caras e bocas em burro – 29/06/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Depois refazer várias novelas emblemáticas, uma vez que “Vale Tudo” e “Pantanal”, a Orbe agora procura surfar na audiência de outro sucesso, “Êta Mundo Bom!”, mas não com um remake. Estreia nesta segunda-feira “Êta Mundo Melhor!”, uma sequência para aquele folhetim, com o caipira Candinho primeiro da história.

É uma aposta segura. A romance original, lançada em 2016, tem a maior audiência média da tira das seis da Orbe na última dezena, segundo o Kantar Ibope. Escrita por Walcyr Carrasco, “Êta Mundo Bom!” foi elogiada pela leveza da trama e pelo humor dos protagonistas —gente simples, interiorana e sonhadora.

Em “Êta Mundo Melhor!”, Carrasco divide o roteiro com Mauro Wilson, que já escreveu as comédias “Os Trapalhões” e “A Grande Família”. Na história, Candinho, que passou anos procurando pela mãe, agora procura o próprio rebento, sequestrado e levado ao orfanato de Zulma, vilã inédita de Heloísa Périsse.

Estão de volta personagens conhecidos de “Êta Mundo Bom!”, uma vez que Cunegundes, de Elizabeth Savalla, e Dita, feita por Jennifer Promanação, agora uma protagonista. Mas o elenco também tem novidades, uma vez que Tony Tornado e Larissa Manoela, e a saíde de nomes uma vez que Marco Nanini e Camila Queiroz, que à idade fez sucesso com a cômica Mafalda.

Wilson diz que o potencial do novo folhetim está na junção entre uma São Paulo dos anos 1950 e temas contemporâneos. O folhetim vai mostrar, por exemplo, personagens brigando contra o machismo, ainda que isso fosse vasqueiro à idade.

Nos bastidores, “Êta Mundo Melhor!” também ficou mais moderna —vai usar ferramentas de perceptibilidade sintético, sendo a primeira romance da Orbe a apostar de forma ampla na tecnologia. O objetivo é animar imagens estáticas da capital paulista àquela idade e incorporar emoções a animais.

É o caso do lerdaço Policarpo, companheiro de Candinho e um dos personagens mais populares da trama original, que ressurge com caras e bocas antropomórficas, criadas por meio de perceptibilidade sintético. Um vislumbre disso está em um dos comerciais divulgados pela emissora, em que o bicho aparece de dentes arreganhados, com o lábio levantado, em uma sentença travessa —e pouco real.

Tapar a faceta do bicho com uma fisionomia humanizada é um processo que começa ainda nas filmagens, conta Fernando Alonso, diretor de pós-produção e design da Orbe. Segundo ele, para que a edição dê visível, a cena precisa ser iluminada de uma forma específica, e o ator que interpreta o bicho deve seguir uma movimentação planejada em detalhes diante das câmeras.

Lucidez sintético será usada ainda em outros setores da produção, uma vez que som, cores e efeitos visuais, processos agora acelerados com tecnologia. A colorização, que antes levava horas, agora é feita em minutos, diz Alonso.

O ator Ary Fontoura, de 92 anos, que volta a interpretar o possessor de sítio Quinzinho em sua 51ª romance, diz confiar que a novidade será muito recebida. “Não dá para permanecer sisudo ao pretérito e resistir ao que está por vir. Não tenho susto de perceptibilidade sintético. Zero que surja vai destruir o ser humano. Nós estaremos sempre intactos”, diz.

“Tudo é uma questão de normas. Se a IA for usada de forma arbitrária, pode tirar empregos. Mas as coisas vão se acomodando”, ele acrescenta. Alonso, o diretor primeiro da tecnologia, recusa a teoria de que funcionários da emissora vão perder espaço por desculpa da perceptibilidade sintético. É o ser humano quem comanda a máquina, ele diz.

Walcyr Carrasco já havia se mostrado desobstruído à novidade. Em evento de lançamento da romance, há duas semanas, o responsável afirmou usar IA para fazer pesquisas no processo de imaginar a romance. Agora, por email, diz nunca ter recorrido à tecnologia para ortografar os roteiros porque as ferramentas são treinadas para imaginar finais que ele considera moralistas demais. “A IA teria sido óptimo, por exemplo, para Esopo produzir suas fábulas.”

Os autores dizem que o novo folhetim não é só para quem viu “Êta Mundo Bom!”. É incomum que a Orbe crie continuações para suas tramas regulares, exibidas na TV ensejo —um pouco parecido até aconteceu com “No Rancho Fundo” e “Mar do Sertão”, mas as novelas só dividiam alguns personagens e tinham tramas muito distintas.

Para Sergio Guizé, que volta ao papel de Candinho quase dez anos depois, a mudança que deve invocar a atenção do público é a injeção de mais humor e as cenas musicais. “É uma romance muito dissemelhante da anterior. Tem um viés mais popular e é mais puxada ao humor de Charles Chaplin. E dos palhaços também. São personagens que transformam o trágico em cômico.”

Folha

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