Exibidores de cinema criticam falta de políticas públicas 29/01/2026

Exibidores de cinema criticam falta de políticas públicas – 29/01/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

O tema da conferência era estéril, mas começou com uma enunciação de paixão. Era um pintura que discutia política pública para o mercado das salas de cinema e outros tipos de exibidores.

“Eu senhoril o Eryk Rocha”, diz Cláudio Marques, diretor do Cine Glauber Rocha, no núcleo histórico Salvador.

Quando foi oferecido a Marques a exibição do filme do fruto de Glauber, “A Queda do Firmamento”, foi batata. “Eu falei: ‘meu Deus do firmamento, eu tenho que exibir’. Imagina, lá no Cine Glauber Rocha, eu não exibir o filme do fruto dele. É simples que eu vou exibir. Mas não vai ter gente”, lembra Marques, lamentando a escassez de público em determinados filmes nacionais.

Só que não dá para manter a operação de um cinema exclusivamente com paixão à sétima arte. Nesse debate, que fez segmento do Fórum de Tiradentes, Marques demonstrou desconforto em relação à forma uma vez que a quota de tela vem sendo aplicada no país.

O Fórum de Tiradentes se dá em meio à tradicional mostra de cinema que acontece na cidade mineira até o último dia de janeiro deste ano.

Da segmento dos exibidores, há uma sensação de que eles estão encurralados. Por um lado, a política pública favoreceu muito a produção na calabouço do audiovisual nos últimos anos, inundando o mercado com filmes novos. Por outro, as salas de cinema são obrigadas a exibir uma quota mínima de obras nacionais que muitas vezes não atraem público e, portanto, não vendem ingresso.

“Eu não sou contra a quota de tela. Mas do jeito que está sendo feito, é um tiro no pé”, diz Marques. O problema é que uma grande segmento dessas obras produzidas não acha apelo ao grande público. Em outras palavras, têm sido feitos filmes que não são vistos por quase ninguém.

O diretor do Cine Glauber Rocha afirma que recebe inúmeras ligações por dia, de cineastas independentes querendo colocar em papeleta no seu cinema –“gente desesperada pedindo para entrar em papeleta”, diz. “Mas o filme não tem nenhum preparo para estar em papeleta. Ele não foi concebido para estar em papeleta. Não tem quantia para o lançamento, não tem trailer. Isso é uma coisa que precisa ser revista urgentemente. Tem filme que não tem uma exibição sequer.”

Isso não depõe necessariamente contra a qualidade das obras, mas tem muito a ver com hábitos de consumo na era do streaming, com o pós-pandemia e com formação de público, um processo de longo prazo.

“Não há política pública nenhuma para exibição”, diz Marques. “Isso vai se voltar contra o cinema vernáculo se a gente continuar operando dessa forma”, queixa-se. “Não existe nenhuma sensibilidade nem do poder público, nem do produtor, nem do distribuidor com relação a isso.”

“A gente precisa pensar urgentemente na formação de público.” André Virgens, da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, estava presente na plateia.

“A Política Vernáculo Aldir Blanc prevê a possibilidade, sim, e concreta, de concordar diferentes iniciativas de gestão, todos cá mencionados”, afirmou.

Ele apontou também a Política Vernáculo Cultura Viva, de fomento a iniciativas de cultura comunitária, uma vez que um vetor de exibição, sobretudo com cineclubes.

“Hoje o Cultura Viva tem mais de 10.000 pontos de cultura cadastrados que são potencialmente pontos exibidores no Brasil —e muitos já são”, disse Virgens.

Além de se falar de paixão, falou-se sonhos nesta mesa. “O sonho é que a gente tenha uma política pública para o setor de sinais e festivais”, diz Josiane Osório, presidente do Fórum Vernáculo dos Organizadores de Eventos Audiovisuais Brasileiros –ou simplesmente Fórum dos Festivais.

“Já houve uma política melhor para festivais do que a política que a gente tem hoje”, afirmou. “O que a gente precisa é a retomada das linhas de esteio”, diz. Para ela, em um momento em que há aumento na produção de filmes nacionais, cabe aos festivais o escoamento dessa grande leva de produções. Segundo Osório, são as sinais e festivais que exibem “o que não vai ser visto em nenhum outro lugar”.

Milena Evangelista, diretora de formação e inovação audiovisual do Ministério da Cultura, também esteve presente na plateia e apresentou opções de financiamento.

Dentro da Política Vernáculo Aldir Blanc, existe o programa de ações continuadas. Os estados que aderirem ao programa podem destinar 10% do recurso da PNAB para ações continuadas. “E aí dentro dessa caixinha específica de ações continuadas, os festivais e sinais estão contemplados”, afirma Evangelista. “Não é obrigatório, logo os estados podem optar.”

Folha

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