Clarissa Tossin perdeu um de seus quadros durante os incêndios que devastaram Los Angeles, em janeiro deste ano. As chamas invadiram o imóvel de um parelha de colecionadores e consumiram tudo em volta, inclusive a tela da artista plástica. Agora, esse trabalho ressurge na exposição “Ponto Sem Retorno”, que reúne obras de Tossin no Masp, o Museu de Arte de São Paulo.
No entanto, o que está na parede da sala expositiva não é a presença da tela, mas justamente a sua carência. No lugar da obra de arte, vemos exclusivamente uma silhueta de contornos frágeis e fantasmagóricos. Por um lado, esse vazio é um obituário que eterniza alguma coisa que se perdeu, por outro é o prenúncio de um porvir consumido pela crise ambiental.
Não à toa, as mudanças climáticas formam um dos fios condutores da mostra, que reúne mais de 40 obras produzidas ao longo de duas décadas. São trabalhos que servem de vestígio para a devastação provocada pela ação humana sobre a natureza, alguma coisa que pode ser percebido logo no título da exposição.
“Nós pegamos o termo ‘ponto sem retorno’ emprestado das ciências ambientais”, diz Tossin. “É um noção que se refere ao modo uma vez que o aquecimento global provoca mudanças irreversíveis nos ecossistemas.”
É o que pode ser visto, por exemplo, no meio da sala expositiva, onde uma enorme árvore seca jaz sobre o soalho uma vez que um defunto insepulto. A artista batizou o trabalho de “Morte por Vaga de Calor”, título que funciona uma vez que uma espécie de laudo cadavérico. A árvore, enfim, acabou perecendo em razão das temperaturas extremas registradas em Mulhouse, cidade da França.
Depois que a espécie morreu, Tossin decidiu expô-la ao público. Para evitar a dissolução, revestiu os galhos com silicone, uma vez que se estivesse embalsamando um defunto. Alguma coisa parecido ela fez em 2009, quando mergulhou seu lixo pessoal em porcelana líquida, transformando em obra de arte aquilo que provoca repulsa nas pessoas.
Esse trabalho faz secção de “Fóssil do Porvir” —série em que Tossin imagina uma vez que os dejetos ajudarão a descrever a história das sociedades humanas na posteridade. “É uma forma de fazer do lixo alguma coisa visível. Tentamos eliminá-lo com rapidez sem refletir uma vez que o consumismo tem definido a marca que estamos deixando na Terreno.”
Os resquícios da tragédia ambiental podem ser vistos também nas paredes da exposição. Elas foram pintadas com tinta produzida a partir da terreno de três cidades gaúchas afetadas pelas enchentes do ano pretérito. Intitulada “Volume Morto”, o trabalho remete às marcas de chuva e limo deixadas nas paredes posteriormente uma inundação.
“Cá, estamos pensando em temas ligados à morte e à ruína”, diz Guilherme Giufrida, que assina a curadoria da mostra ao lado de Adriano Pedrosa.
“É quase uma vez que se fosse uma ficção em que o museu tivesse sido inundado. Diante disso, precisamos fazer a mostra não em uma galeria branca e purificada, tão generalidade na arte contemporânea, mas em um espaço marcado por imperfeições causadas pela crise ambiental.”
A mostra não se volta exclusivamente aos efeitos das mudanças climáticas, mas também às origens desse fenômeno. Algumas das obras de Tossin refletem sobre as práticas extrativistas responsáveis por esgotar os recursos naturais. É isso o que pode ser visto em uma tela que sobrepõe um planta do rio Amazonas a uma superfície devastada pelo mina proibido.
Em outra obra, mapas voltam a chegar, só que dessa vez retratam as populações do continente africano durante as grandes navegações. É uma vez que se a artista mostrasse que a atual devastação ambiental tem uma vez que raízes o empreendimento colonial –projeto que depauperou territórios ao volta do mundo.
“Mapas são um instrumento da colonização. A cartografia é um índice que resume um território a signos. E disputa por signos tem sempre um viés político”, diz Giufrida, o curador. “Nos trabalhos, a artista se coloca nessa guerra ao fabricar seus próprios mapas.”
Uma das características dos mapas concebidos por Tossin é a onipresença das logomarcas da Amazon. Ao lançar mão desse recurso, ela reflete sobre uma novidade forma de colonização. Se no pretérito impérios exploravam comunidades na Terreno, atualmente empresas desbravam territórios em outros planetas.
É o que tem feito Jeff Bezos, o proprietário da Amazon. Em 2000, ele fundou a Blue Origin, empresa voltada à exploração espacial. Inspirada por esse empreendimento, Tossin criou uma tapeçaria entrelaçando recortes de imagens produzidas pela Nasa e tiras de papelão usadas para embalar encomendas da Amazon.
“Cá, ela associa essas duas imagens não por justaposição, mas por um entrelaçamento literal”, diz o curador. “Nesse trabalho, a colonização por meio da mercadoria se conecta aos fluxos de colonização do espaço.”
O libido de desbravar outros mundos está presente, inclusive, na bandeira de muitos países. Por isso, a artista fez uma grande instalação reunindo 86 flâmulas que têm corpos celestiais uma vez que emblemas. Os símbolos foram impressos em tecidos azuis transparentes e posicionados em diferentes alturas, criando a sensação de que estamos diante de uma galáxia.
“O movimento neocolonial do século 21 é espacial”, diz a artista. “A discussão é sobre quais insumos podem ser extraídos desses corpos celestes, alguma coisa que tem uma relação enorme com a era das grandes navegações europeias. É a mesma mentalidade extrativista que gerou a atual crise ambiental.”
