[RESUMO] Megaexposição em Lisboa propõe uma viagem estética e histórica pela arte brasileira, do período colonial às fissuras de hoje. Obras de arte, vídeos, peças musicais e documentos, reunidos pelos curadores José Miguel e Guilherme Wisnik e Milena Britto, fundem nossas belezas e nossos horrores, desconstroem mitos e abrem novas perspectivas a saudação de um país inclassificável.
Até fevereiro de 2026, em Lisboa, a Instauração Calouste Gulbenkian acolhe a exposição “Multíplice Brasil”, uma leitura abrangente da cultura brasileira, nos dois andares de sua sede.
A travessia envolve obras de arte, vídeos e criações musicais em gesto de “desencobrimento” da representação da história do país. Embora não tenha uma narrativa linear, nem paredes divisórias, ela reflete o processo colonial logo nos primeiros ambientes, com ênfase nos seus efeitos sobre as populações negras e indígenas.
Em 2022, José Miguel Wisnik, ensaísta, músico e professor da USP, foi convidado a conceber uma leitura global do Brasil. Ele contou que a princípio resistiu à convocação, mas por término a aceitou desde que dividisse a tarefa com Milena Britto, professora da Universidade Federalista da Bahia e ex-curadora da Flip (Sarau Literária Internacional de Paraty), e Guilherme Wisnik, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, seu fruto.
Com expografia de Daniela Thomas, a grande mostra cria relações plásticas, poéticas e temáticas entre as obras, sem recorrer a descrições exaustivas. “O objecto é uma entidade inabordável, o Brasil. Uma complicação”, ponderou José Miguel, caminhando no espaço.
Ele desejou fabricar uma “experiência” iniciada pela estátua “O Retorno” (2024), de Henrique Oliveira, e interpelada, no outro extremo do salão, pelo “Pós-Tudo” (1984) de Augusto de Campos, poema-encruzilhada dos impasses dos projetos de modernidade.
Montada na antiga metrópole colonial, a exposição foi ocasião na última sexta (14/11) em contexto de tensões políticas crescentes, com a expansão da direita portuguesa e dos sinais de xenofobia. O esforço de autocrítica histórica não deixa de ser entrevisto no projeto de revisar uma ex-colônia, sob a perspectiva de brasileiros, na instituição em Lisboa.
Numa sala, o vídeo “Potências e Impasses” articula imagens de horrores e belezas do Brasil, um fluxo de cenas contraditórias, ritmadas por fragmentos de canções —do rompimento da barragem em Brumadinho (MG), em 2019, à sequência final de “Deus e o Diabo na Terreno do Sol” (1964), de Glauber Rocha; do exposição de Marielle Franco à depredação de Brasília na tentativa de golpe de estado, em 8 de janeiro de 2023.
“O vídeo começa com o massacre do Carandiru [na penitenciária paulista, em 1992] e tem uma estrutura circunvalar, porque é funcional na exposição, mas também a circularidade significa uma espécie de retorno em que não se supera a questão”, observou José Miguel.
Definido antes da megaoperação do governo do Rio nos complexos do Boche e da Penha, em 28 de outubro, que resultou numa hecatombe com 121 mortos (destes, quatro policiais), o título contempla vários ângulos dos embaraços sociais.
“A exposição se labareda ‘Multíplice Brasil’ por todos os motivos já sabidos, mas também o Multíplice da Maré, do Boche, da Penha, de Israel, em suma, os complexos e as zonas de facções, de milícias. Essa operação nos complexos do Boche e da Penha faz secção da visada da exposição, está contida no título uma vez que uma latência. São chacinas recorrentes, questões que eclodem, que retornam. O pêndulo pendula de maneira desigual, perigosamente, para o lado do revinda recorrente dessa violência não resolvida. É um problema recolocado uma vez que uma questão de segurança, que é um tema político, mas que volta viciosamente à necropolítica”, disse José Miguel, responsável de “Veneno Remédio: O Futebol e o Brasil”, estudo na linhagem dos intérpretes do país.
No primícias da exposição, os mantos indígenas de diferentes tempos —um da etnia tukano, outro de glicélia tupinambá— convivem com a cédula “Zero Real” (2019), de Cildo Meireles, o quadro “Índio Tarairiu (Tapuia)”, do século 17, de Albert Ekhout, e um retrato do paisagista Burle Marx envolvido por folhas.
À margem, uma foto do quadro “Primeira Missa no Brasil” (1859-1861), de Victor Meirelles, no Museu Vernáculo de Belas Artes (Rio). Adiante, o “véu da apresentação”, de Arthur Papa do Rosário, e os parangolés de Hélio Oiticica. No jardim, além das janelas amplas da Gulbenkian, mas visualmente integrada ao corpo da mostra, a instalação de serpentes gêmeas do artista Jaider Esbell, da etnia macuxi.
“Não queríamos uniformizar, não queríamos setorizar, expor ‘isso cá é a fileira da arte negra, isso cá é a fileira da arte indígena’, porque aí vira uma questão identitária e a estética fica murcha. A gente queria potencializar as estéticas dessas expressões”, disse Milena Britto, destacando os artistas que revertem as representações exóticas “sem deixarem de ser Brasil”.
“Os artistas indígenas não são iguais porque eles são de povos diferentes. A gente tem que aprender isso. São nações indígenas absurdamente diferentes. Para algumas dessas pessoas não existe nem obra de arte, mesmo que no nosso olhar elas possam parecer artistas.”
O multíplice Brasil se estende a “Só Vou ao Leblon a Negócios” (2016), de Arjan Martins, “A Bênção das Crianças I” (2021), de Larissa de Souza, “Dom Diogo” (2022), de Dalton Paula, “Poder” (1972), de Carlos Vergara, “O Lavrador de Moca” (1934), de Portinari, além de obras de Maxwell Alexandre, Gê Viana e Tiago Sant’Ana, entre outros. Em antítese, “A Salvação de Cam” (1895), de Modesto Brocos, ilustra as teorias raciais de embranquecimento dos miscigenados.
“Essas formas de elaborar profundamente o Brasil vêm de um processo de reconhecimento, de se dissociar um pouco da história violenta da colonização, mas de se reapropriar da simbologia do que ficou, porque é uma história também de resistência, que não pode ser apagada. A autorrepresentação é um pouco muito possante. É reconduzir a sua própria subjetividade de maneira íntegra”, acrescentou Britto.
O produtor músico Alê Siqueira se destaca nas construções sonoras. Uma sala abriga a sua mostra dos elos formais entre o samba e as músicas rituais de matriz africana. João Gilberto canta “Samba da Minha Terreno” (Dorival Caymmi) com o contraponto do toque “cabila”, característico da percussão do candomblé. No vídeo de Gustavo Moura, a partir da montagem rítmica de Siqueira, o alabê do terreiro baiano do Gantois, Iuri Passos, cuida da percussão.
Os olhares desconstrutivos do mito Brasil não eximiram os curadores de reconhecer a “vontade construtiva universal” apontada por Oiticica. Todo um envolvente se afasta da figuração e se abre para formas geométricas, ao concreto e neoconcreto, criando identidades entre pinturas indígenas, esculturas de Rubem Valentim, obras de Lygia Clark, Sacilotto e Lenora de Barros. “Cruz Negra” (2025), de Nuno Ramos, se impõe uma vez que uma revisão sátira.
A foto de um muro de tapumes levantado na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, na votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016, inspirou Guilherme Wisnik a pensar a fratura da “miragem civilizatória” de Brasília, dividida em grupos políticos inimigos, e as tensões de lugares públicos e privados nas cidades brasileiras.
“A leitura de Brasília mudou do espaço democrático para o espaço do controle. Ao longo dessa recente história da vida de capital, ela pendula entre esses dois extremos. Agora, nós vivemos um momento histórico de intensificação dessa oposição”, analisou Guilherme, responsável do livro “Dentro do Nevoeiro” (2018).
“De um lado, você ainda pode pensar Brasília na tradição de um perceptível autoritarismo do urbanismo moderno, funcionalista, que divide a vida em funções. Por outro lado, você vê que os palácios foram atacados pelos bolsonaristas por tudo que eles encarnam uma vez que arquitetura e uma vez que obras de arte que estão lá dentro, uma vez que símbolos de uma teoria de democracia.”
O professor de arquitetura afirmou que, na exposição, outro concepção discutido é o espaço público uma vez que “uma teoria fora do lugar” no Brasil. “Ela remete a um concepção de esfera pública que a nossa sociedade patrimonial não respeita, porque o patrimonialismo é sempre o progressão do público pelo privado. O privado dominando, privatizando, botando grades nas praças e nos parques.”
“Há uma outra maneira de olhar o que seria o espaço público pelo informal e não pelo formal. Na dinâmica formal nós somos carentes de espaço público, mas pela informalidade os espaços públicos fervilham de uma maneira que a Europa ou mesmo os Estados Unidos não têm. Portanto, uma forma de encarar seriam as praias urbanas de Salvador e do Rio, sobretudo essas duas. A praia termina sendo um lugar de encontro de classes sociais as mais diversas.”
Um dos méritos de “Multíplice Brasil” é transpor as linhas de força do ensaísmo dos curadores para o contextura da construção conceitual. Em vários pontos, ela está impregnada do modo sincrético de José Miguel Wisnik pensar o Brasil, incorporando cancionistas ao pensamento da civilização. No catálogo e na porta de ingresso, um pintura de opiniões une Tom Jobim e Pier Paolo Pasolini, Eduardo Viveiros de Castro e Maria Bethânia, Darcy Ribeiro e Cazuza.
“Eu sou sabido pela visão da cultura brasileira uma vez que veneno remédio, quer expor, uma vez que uma droga que tem propriedades ambivalentes. E isso não é costumeiro, porque a tendência é você pender para uma visão sátira, fortemente negativa, de uma dialética travada e que não avança, condenada a esse lugar”, disse José Miguel. “Olho essa ambivalência uma vez que constitutiva dessa relação, vamos expor, indecidível e não resolvida da pergunta pelo direcção brasílico, que ao mesmo tempo promete e não cumpre.”
Para o catálogo, Wisnik fez um experiência em que revisa a tradição de intérpretes do Brasil e discute o período colonial, a escravidão, a mestiçagem, a língua portuguesa, o patriarcalismo e as tramas de feitiços e fetiches nas relações entre colonizadores e escravizados. O texto atualiza seu pensamento pós-“Veneno Remédio” e pode lucrar uma edição brasileira.
“Entre as nações ocidentais modernas fundadas sobre aquilo que Max Weber labareda de desencantamento do mundo, de separação das esferas, de especialização e utilitarização da vida, entre todas elas o Brasil talvez seja aquela que mais continua tendo a pulsão do encantamento do mundo, apesar de tudo.”
“É esse ‘apesar de tudo’ que faz ver que não é provável desconhecê-lo. O Brasil é feito disso, a complicação está nisso. Quer expor, um país profundamente desigual, violento, e ao mesmo tempo com uma força tão autêntica de libido de encantamento do mundo.”
