E se a paisagem falasse? Quantos traumas, sabedorias, crenças e gritos viriam dos ecossistemas? Concebida a partir de uma coleção de Édouard Glissant, a mostra “A Terreno, o Queimada, a Agua e os Ventos – Por um Museu da Errância com Édouard Glissant” sugere uma reflexão sobre as paisagens uma vez que testemunhos de fluxos migratórios e uma vez que territórios de imaginação.
A exposição chega ao Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, uma vez que secção da programação do ano da França no Brasil. Os curadores Ana Roman e Paulo Miyada reuniram secção do ror de Glissant, um intelectual da Martinica, em diálogo com obras de artistas que pensam com e não sobre ele, reforçando suas amizades e sugerindo afinidades.
Entre as experiências vividas no arquipélago caribenho e a sua instrução na França, Glissant viveu em errância e em procura da compreender a identidade caribenha, desenvolvendo uma reflexão sátira a partir de seu território. Na sua dinâmica de deslocamento contínuo, aprendeu a ouvir e compreender as paisagens. Assim uma vez que o pensador, a maioria dos artistas da exposição são marcados por trajetórias de deslocamentos, o que lhes garante uma sensibilidade ao pulso do mundo.
O interesse do poeta pela paisagem remete à travessia do Atlântico pelos ancestrais escravizados, para os quais a separação da paisagem natal se somava à cisão da história e da língua. O oceano é entendido, logo, uma vez que túmulo e ventre —já que foi verosímil encontrar outra maternidade na novidade paisagem.
Na obra “Desmantelamento dos Barcos do Sinistro”, Sylvie Glissat junta eras distintas ao mostrar tanto para as rotas náuticas de povos escravizados quanto para os migrantes contemporâneos. Sugere a devastação, mas também a possibilidade de reconstrução de um novo navio no mar revolto. “A arte é uma profecia das novas formas de presença no mundo”, afirma ela.
A travessia aparece em vários momentos da mostra, e ganha distintas perspectivas com um ponto em generalidade —são costuradas por meio de especulações de fatos históricos, para convocar a fabulação uma vez que resistência.
Enquanto Arébénor Basséne percorre rastros de navegações e fugas pelo Atlântico, Saara e Mediterrâneo, Antonio Seguí satiriza o naufrágio do Titanic. Raphaël Barontini cria alegorias que evocam a Revolução Haitiana, elaborando um território de insurreição simbólica, e Tiago Sant’Ana apresenta a história da baleia dos 52 hertz —bicho cuja vocalização, inaudível a outras de sua espécie, a torna eternamente isolada— uma vez que metáfora para as vozes negras silenciadas.
A paisagem é compreendida uma vez que um espaço fértil para traçar novas narrativas e, com elas, outras possibilidades de porvir. “Para Glissant, a teoria de imaginário se refere à nossa capacidade de conceber coisas, de vislumbrar e percebê-las. Se não tivermos o imaginário renovado, vamos enxergar o mesmo ciclo produtivo e destrutivo, tanto em relação à natureza quanto em relação aos outros”, afirma Miyada.
“A paisagem e a linguagem formam e são transformadas pelo nosso imaginário. Por isso, são categorias tão presentes no pensamento dele.”
Não parece à toa, portanto, a relação de muitos artistas com o surrealismo e o realismo fantástico. As maiores preciosidades estão nos menores suportes —repare nas pequenas pinturas de Frank Walter que conjugam representações míticas e consciência ambiental, na representação da cena noturna de José Gamarra evocando os mistérios da floresta e no estampa esotérico de Victor Brauner.
A pintura de Brauner está na mesma parede onde Pedro França desenhou, de ponta a ponta, um afresco com elementos que criam um caleidoscópio do inconsciente.
“Para Glissant, as disputas, ‘criolizações’ e renovações dos imaginários acontecem no campo da linguagem, ou seja, quando a língua é praticada, mestiçada e negociada. E o manobra mais intenso passa também pelo modo de mourejar com o que inevitavelmente se perde ou é incomunicável, ou é indizível, ou é intraduzível, que é o que está no campo da opacidade”, diz Miyada.
Ao longo da mostra, a potência e sucursal da voz se desdobram em outras obras. Num manobra de escuta do meio envolvente, Chang Yuchen toma as formas corais uma vez que signo para transcrever a língua malaia —que, sem alfabeto próprio, se apropriou de escritas estrangeiras. Na videoinstalação de Etienne de France e no diagrama de Nolan Oswald Dennis, asteroides e pedras protagonizam narrativas que entrelaçam tempos, geografias e cosmologias, explorando o oculto.
Geneviève Gallego faz esculturas em madeira sinuosas, que sugerem corpos, topografias, cursos d’chuva ou rastros de vento. Em algumas obras, o corpo está em processo de formação e rescisão, já nos trabalhos de Irving Petlin, Enrique Zañartu, Pol Taburet e Chico Tabinuia as figuras surgem híbridas e fragmentadas
Na obra de Petlin, figura e atmosfera se confundem no que Glissant chamou de “lonjura interno”: “Víamos que o varão se desprendia do lodo, brotava da terreno, não uma vez que uma árvore solitária nem uma vez que um morto ressuscitado, mas uma vez que a força que, sem esmorecer, nasce de seu próprio esforço”, descreveu Glissant. Trata-se de uma investigação sobre mutação e transformação.
Nos desenhos de Zañartu, entre seres fantasmagóricos, vemos rastros sugerindo caligrafias que dialogam com as ilustrações de Rebeca Carapiá. Já Agustín Cárdenas criou gravuras para o livro “Bosques”, no qual Glissant cruzava referências entre a paisagem e a escravidão —parábola da violência que também desenha as telas de Victor Anicet. São dolorosas paisagens de signos sem palavras.
O indígena Aislan Pankararu se conecta ao legado de seu povo ao reinterpretar as pinturas corporais tradicionais. A repetição e o ritmo dos padrões evocam traços da paisagem da caatinga e das vísceras do corpo —mucosas, tecidos e células. Sob e sobre a pele, a confraria entre os ecossistemas externos e os internos, do corpo, pulsa continuamente.
