Em 1975, vinda de um rotação universitário no qual apresentava o repertório do álbum “Elis e Tom”, a cantora Elis Regina estreou uma temporada de shows que a princípio seria de três meses, dezembro, janeiro e fevereiro. Mas “Falso Cintilante”, espetáculo que deu origem ao álbum mais vendido da artista, ficou em edital um ano, dois meses e um dia.
Concebido coletivamente, o roteiro e o texto do espetáculo contavam vida e curso de uma artista, no caso a própria Elis, aliada a críticas sociais em meio à ambiência de um circo.
“Falso Cintilante” estreou no teatro Bandeirantes, em São Paulo, no dia 17 de dezembro de 1975. Embora larga, a avenida Brigadeiro Luís Antônio, onde ficava o teatro, passou a permanecer congestionada todas as noites nas quais o espetáculo era apresentado. Filas e filas de pessoas e carros, além de ônibus vindos de várias partes do interno e do país, entupiam a avenida e periferia.
Foram 257 apresentações, com público aproximado de 280 milénio pessoas, que choraram, riram, se surpreenderam, gritaram, cantaram e se abraçaram durante o espetáculo, definido na ocasião por Elis, em entrevista à Folha, porquê “mais um teatro do que um músico”.
O show contava com textos da Bíblia, jingles, além da projeção de um filme com traçado entusiasmado de José Rubens Siqueira. Tinha direção-geral de Myriam Muniz e cenografia de Naum Alves de Souza. A direção músico e acompanhamentos eram de César Camargo Mariano e conjunto.
“Falso Cintilante” foi muito definido previamente por Elis na entrevista a oriente jornal, pois, para tal, o espetáculo exigiu a participação direta dos músicos porquê atores.
Todos, incluindo Elis, realizaram uma mergulho de meses ensaiando com Miriam Muniz, assessorada pelo psiquiatra e noticiarista Roberto Freire e a atriz Ligia de Paula, no Teatro Escola Macunaíma, na Barra Fundíbulo. Foram mais de 60 horas de aulas de dança e exercícios terapêuticos para “destravar” e desinibir os músicos, transformando-os em personagens que eles mesmos escolheram para interpretar.
César Camargo Mariano (piano, teclados e violão), era um palhaço; Natan Marques (guitarra, violões, viola e percussão), um espantalho; Wilson Gomes (contrabaixo e percussão), um mágico; Crispim Del Cistia (teclados, guitarra, violão e percussão), um super-herói; Realcino Lima Fruto, o Nenê (bateria, violão e piano elétrico), um caubói.
Já desinibidos, os músicos passaram a ensaiar na passarela suspensa, embaixo do viaduto Anhangabaú, no núcleo de São Paulo. Lá ecoou o repertório de “Falso Cintilante”, que abrangia desde os anos 1950 até 1975. Eram mais de 40 músicas, incluindo cantigas de roda, tangos, boleros e bossa novidade, até chegar na tempo na qual Elis já interpretava músicas de Belchior, João Bosco e Aldir Blanc.
Entre elas figuraram “Porquê Nossos Pais” e “Velha Roupa Colorida”, de Belchior; “Um por Todos” e “O Cavaleiro e os Moinhos”, de João Bosco e Aldir Blanc; “Gracias a la Vida”, de Violeta Parra; “Los Hermanos”, de Atahualpa Yupanqui; “Tatuagem”, de Chico Buarque e Ruy Guerra, e “Fascinação”, de Fermo Dante Marchetti e Maurice de Féraudy, na versão de Armando Louzada.
O sucesso de “Falso Cintilante” foi tamanho que uma noite, segundo o guitarrista Natan Marques, na ocasião com 28 anos, um grupo de cambistas pediu para ser recebido por Elis no camarim. Ela os recebeu, ganhou um buquê de flores e ouviu do porta-voz dos irregulares negociadores: “Dona Elis, estamos cá para agradecer muito a senhora por oriente show. Além de estarmos levando sustento e comida para nossas casas, estamos finalmente conseguindo dar ensino para nossos filhos”.
Mas nem tudo foi reluzente. A secção fosca do espetáculo envolveu uma disputa feia entre Myriam Muniz e Elis, por conta de quantia. Outra discussão ocorreu em função da substituição do exímio baterista Nenê, o caubói.
“O Nenê, nessa era, tinha problemas com álcool. Um dia ele bebeu, acho que esqueceu do horário do show, e o teatro estava lotado. Porquê ele não chegava, e o horário de iniciar já tinha estourado, a Elis chamou para entrarmos no palco com ela para avisar que o show seria cancelado”, diz Marques.
“Entramos, ela tinha concluído de falar para o público que estávamos preocupados com o desaparecimento do Nenê e que por essa razão o show seria cancelado, quando ele apareceu na plateia gritando: ‘Eu tô cá! Eu tô cá!’. O público aplaudiu, gritando muito. A Elis pediu uns minutos a mais para nos organizarmos e fizemos o show.”
Atualmente abstêmio, o baterista continuou “dando problemas nos ensaios e shows por conta da bebida, até ser substituído por Dudu Portes”.
Sobre a disputa entre Myriam Muniz e Elis, Marques diz que durante o impasse a cantora afirmara que estrearia o espetáculo só com a filarmónica e uma luz focada nela, sem remunerar zero a mais para a diretora. Porém o espetáculo aconteceu porquê havia sido planejado e exaustivamente ensaiado.
Exaustão esta que, junto ao estado de Elis, prenhe de sua filha Maria Rita, levou à derradeira apresentação de “Falso Cintilante”, no dia 18 de fevereiro de 1977, sem que Elis repetisse o mesmo sucesso nos espetáculos seguintes.
