Falta de rumo e de essência tiraram hegemonia da seleção

Falta de rumo e de essência tiraram hegemonia da seleção – 14/02/2026 – Esporte

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Carlo Ancelotti é a décima tentativa da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) para tentar fazer o Brasil retomar a preeminência perdida. Desde 2002, quando a seleção masculina conquistou o título mundial pela última vez, houve diferentes apostas. Treinador experiente, novato, repetido. Trabalhos de pequeno e de longo prazo.

Ancelotti, italiano, é o quarto estrangeiro. Desde que Luiz Felipe Scolari foi vencedor em 2002, o Brasil teve Carlos Alberto Parreira, Dunga (duas vezes), Mano Menezes, Scolari de novo, Tite, Ramon Menezes, Fernando Diniz e Dorival Júnior.

Tite (2018 e 2022) foi o segundo a comandar o Brasil em duas Copas consecutivas. O outro foi Telê Santana (1982 e 1986).

Antes de Ancelotti, o Brasil teve três treinadores nascidos no exterior. Todos com curtíssimas passagens: o uruguaio Ramón Platero (1925, quatro jogos), o português Joreca (1944, uma partida) e o prateado Filpo Núñez (1965, um confronto).

Em junho de 2026, o Brasil chega a 24 anos sem atingir o topo da serra do futebol mundial. A última vez que o jejum foi tão grande aconteceu entre 1970 e 1994.

Se a seleção não vencer o torneio nos Estados Unidos, no Canadá e no México, terá novidade chance unicamente em 2030. Seriam, logo, 28 anos, a maior seca de títulos da história da equipe, ao lado do período entre o Mundial principiante (1930) e a primeira conquista (1958).

“Quero aproveitar a enorme qualidade que leste paí. Que essa qualidade possa se agrupar com um único objetivo, que é lucrar a Despensa do Mundo”, disse Ancelotti.

A preeminência em prêmios individuais ensaia uma retomada. A partir da geração da escolha de melhor do mundo pela Fifa (Federação Internacional de Futebol), em 1991, o país ficou em primeiro com Romário (1994), Ronaldo (1996, 1997 e 2002), Rivaldo (1999), Ronaldinho Gaúcho (2004, 2005 e 2006) e Kaká (2007). A partir daí começou um hiato inédito, interrompido unicamente por Vinicius Junior em 2024.

Foram 17 anos em que os melhores resultados foram com Neymar (terceiro em 2015 e 2017).

“A formação do jogador mudou. A gente não tem mais campo de várzea, a gente não vê mais menino jogando na rua. A gente vê escolinha. Perdemos para a tecnologia”, disse João Paulo Sampaio, coordenador da base do Palmeiras.

O clube paulista se tornou referência e venceu 31 títulos nas categorias amadoras em 2024. Estêvão, 17, foi vendido para o Chelsea por 61,5 milhões de euros (R$ 377,6 milhões).

“O campo de barro, aquele perfurado ou na rua, dava um controle [de bola] melhor. Hoje, a gente pegou o que era ruim do europeu. A gente dá tática para meninos de 10 ou 11 anos. Quantas vezes eu fui a uma escolinha e ouvi o professor manifestar ‘passa a globo’, ‘toca a globo’? Tem que falar: ‘Gosta da globo, brinca, arrisca’”, afirmou Sampaio.

Em nenhum dos últimos quatro Mundiais (2010, 2014, 2018 e 2022) o Brasil teve média superior a dois gols anotados por partida. Essa marca foi obtida em todas as vezes nas quais o país teve uma seleção que grudou sua imagem no imaginário da torcida pátrio e internacional: 2,57 em 2002; 3 em 1982; 3,16 em 1970; 2,66 em 1958 e 3,66 em 1950.

A seleção caiu nas quartas de final em quatro das últimas cinco Copas (2006, 2010, 2018 e 2022). Na outra, em 2014, foi até a semifinal para levar 7 a 1 da Alemanha.

O futebol brasílio vive duas realidades. Os clubes, que no pretérito viviam sem quantia e na sombra de argentinos e uruguaios nos torneios continentais, viraram o jogo. Foram sete títulos nas últimas oito Despensa Libertadores. Isso não se reflete na seleção.

Relatório da Fifa aponta que, no ano pretérito, ocorreram 2.350 transferências internacionais. O Brasil liderou a lista com folgas, com 1.217 vendas, gerando receita de US$ 591,5 milhões (R$ 3,06 bilhões).

O aumento de arrecadação gerado por essas negociações, contratos de TV, patrocínios, mensalidades de sócio-torcedor e ingressos tornaram as equipes compradoras. Dos dez clubes que mais gastaram com contratações na América do Sul, nove são brasileiros (Botafogo, Cruzeiro, Flamengo, Vasco, Corinthians, Atlético-MG, Palmeiras, São Paulo e Fluminense).

A seleção pode ser vítima também da globalização do futebol. Há 45 anos, um jogador atuando no exterior ser convocado para Despensa era um ocorrência vasqueiro. Até 1982, o único “estrangeiro” chamado pelo Brasil para o Mundial foi o ponta Patesko, que estava no Pátrio-URU em 1934.

Sócrates, capitão da seleção no Mundial da Espanha, chegou a se manifestar contra a convocação do volante Paulo Roberto Falcão por ele estar no exterior. A proporção de atletas “de fora” ficou cada vez maior, mas até o penta, em 2002, a maioria sempre atuava no Brasil. Isso mudou a partir de 2006. No torneio na Alemanha, 20 dos 23 chamados por Parreira estavam no exterior.

No último torneio, em 2022, no Qatar, eram 23 dos 26 selecionados.

Mulheres ainda buscam o topo

A situação é dissemelhante na seleção feminina, que ainda procura a preeminência que um dia foi do masculino. Apesar de ter a jogadora mais premiada da história, o Brasil nunca venceu a Despensa do Mundo ou conquistou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos.

Na modalidade, os países podem levar força máxima. É dissemelhante das equipes de homens, que têm permissão para convocar unicamente três jogadores com mais de 23 anos. A Fifa impõe a restrição porque não é do seu interesse mercantil um torneio de nível técnico de Mundial a cada dois anos.

Nas Olimpíadas, as mulheres foram prata em 2004, 2008 e 2024. A Despensa nasceu em 1991. Em nove edições, o Brasil foi vice em 2007 e terceiro em 1999.

Em prêmios individuais, não há confrontação. A jogadora mais vezes eleita melhor do mundo foi a atacante Marta, vencedora em 2006, 2007, 2008, 2009, 2010 e 2018.

Qualquer confrontação com o masculino é descabida. O Campeonato Brasiliano nasceu em 2013. Somente nos últimos anos o esporte começou a ser exibido em TV ensejo, e as jogadoras se tornaram assalariadas. Só nos grandes clubes, porém.

“O que a gente vê hoje é uma retomada, tanto de conhecimento sobre o histórico esportivo e uma reconstrução do engajamento não só brasílio, mas mundial, em relação a esse esporte praticado por mulheres. Tecnicamente, dentro de campo, elas oferecem às vezes um espetáculo muito mais interessante que o masculino”, afirmou a historiadora Aira Bonfim, autora do livro “Futebol feminino no Brasil: entre festas, circos e subúrbios, uma história social (1915-1941)”.

Ela cita “retomada” porque as mulheres foram proibidas, por lei, de praticar futebol no Brasil por quatro décadas. A liberação aconteceu unicamente em 1979. Isso atrasou o jogo e desacostumou o público a presenciar à modalidade.

“A gente vive hoje uma profissionalização tardia, de um time pátrio e de uma organização de um mercado que estava estabelecido para o futebol masculino e que tenta se harmonizar [às mulheres]”, disse Aira.

Há um caimento financeiro. A maior transferência da história do futebol feminino brasílio foi a venda da atacante Amanda Gutierres, do Palmeiras para o Boston Legacy (EUA), neste ano, por US$ 1,1 milhão (R$ 5,7 milhões). Sem relatar a porcentagem por contratos publicitários, unicamente o tratado de Neymar com o Santos é de R$ 4 milhões mensais.

Em 2025 também houve a maior negociação da modalidade em todos os tempos. A francesa de origem congolesa Grace Geyoro se transferiu do Paris Saint-Germain para o London City por 1,43 milhão de libras (R$ 10,08 milhões). A transação mais faceta já registrada no masculino foi a de Neymar do Barcelona para o PSG, em 2017: 222 milhões de euros (R$ 1,4 bilhão).

Folha

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