Localizado a quase 400 km da costa brasileira, Fernando de Noronha é um dos destinos naturais mais cobiçados do mundo. Mas, agora, para além de um santuário de espécies de tartarugas, tubarões e golfinhos com cartões-postais paradisíacos que lotam revistas e redes sociais, há também um esforço para levar o arquipélago, suas paisagens e sua comunidade para as telas do cinema.
São iniciativas que envolvem produções com participação de moradores, a ampliação da programação cultural e tentativas de estruturar uma rede de qualificação profissional no setor que se beneficie do turismo, a principal manadeira de renda lugar.
“Não é só uma questão de divulgação da ilhéu, é uma questão de gerar oportunidade mesmo”, diz a artista e fotógrafa Kelly Soares, de 24 anos. Ela foi uma das moradoras que participaram de “Sob o Sol de Noronha”, comédia romântica de Neco Tabosa e Ulisses Brandão gravada no arquipélago, que deve estrear oriente ano na Globoplay.
“As pessoas que vêm de fora para fazer produções audiovisuais querem aproveitar os cenários, a visibilidade do lugar. É estratégico. Mas, se entenderem que existe uma cultura cá e contribuírem com ela, pode ser um tanto muito positivo”, diz.
No início do mês, a ilhéu sediou a terceira edição do Noronha2B, um fórum de comissões cinematográficas para discutir políticas públicas e tendências do mercado internacional de filmes e turismo. O encontro reuniu cineastas e gestores públicos, além de delegações internacionais, incluindo representantes do Festival de Berlim e da Paris Film Commission.
Durante quatro dias, uma rossio no núcleo histórico de Noronha se transformou em sala de cinema ao ar livre. A maior segmento da programação era de documentários gravados na ilhéu.
Uma das exibições foi de “Rabino Mar”, com depoimentos da tradicional comunidade de pescadores noronhenses. A diretora é a potiguar Bruna Roveri, que idealizou o documentário com uma colega quando atuou porquê voluntária no ICMBio, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.
A programação incluiu outras produções desenvolvidas num laboratório para cineastas durante a primeira edição do Noronha2B, entre eles “Maré Viva Maré Morta”, de Claudia Daibert, e “Seeds”, de Renato do Val e Yugo Romanelli.
O evento também promoveu um laboratório de capacitação audiovisual para jovens em parceria com a única escola de ensino médio lugar. O resultado foi o documentário “Olhar de Dentro”, que apresentou histórias de figuras conhecidas da ilhéu, dentre elas Eunice Maria de Oliveira, a dona Nice, moradora mais antiga de Noronha, desde 1948 por lá.
Para artistas da região, o cinema pode ajudar a preservar a memória lugar. “Nós só temos a nossa oralidade”, diz Dora Martins da Costa, coordenadora do Grupo Cultural Dona Nanete, principal iniciativa artística da ilhéu, que oferece oficinas de artesanato, maracatu, danças e outras frentes tradicionais.
Apesar das iniciativas, esse aquecimento cultural enfrenta um tropeço —Fernando de Noronha não tem uma sala de cinema. O Cine Mabuya, última iniciativa de exibições regulares e gratuitas na ilhéu, encerrou as atividades em 2018.
Hoje, os murado de 3.100 moradores dependem de cineclubes e sessões especiais, e estreias chegam unicamente pelo streaming. “O Agente Secreto”, o filme mais bem-sucedido do cinema pernambucano, nunca foi exibido na ilhéu. Os moradores só puderam assisti-lo quando estreou na Netflix, em 7 de março. Antes, precisariam viajar de avião para Recife ou Guarulhos, na Grande São Paulo, únicas cidades com conexão aérea para Noronha.
A instalação de uma sala de cinema no Potente Nossa Senhora dos Remédios foi anunciada há dois anos, mas não saiu do papel.
Para Kelly Soares, é urgente que a ilhéu volte a ter uma sala de cinema e um teatro com estrutura adequada, com palco e cadeiras. Segundo ela, as oportunidades de entrada à arte ainda são escassas e, em universal, dependem de iniciativas pontuais organizadas pela própria comunidade.
“Se esses espaços existirem, mais atividades e eventos vão surgir. As pessoas vão conseguir se integrar ainda mais à cultura tendo um espaço físico que represente isso”, diz.
Quem pretende gravar em Fernando de Noronha também precisa considerar as restrições ambientais e a logística de gravar em uma ilhéu remota. Metade do território é uma dimensão de proteção ambiental administrada pelo governo de Pernambuco, enquanto a outra metade integra o parque pátrio. O uso de drones, por exemplo, é restringido —e, a depender da dimensão, proibido— para proteger as aves locais.
“O caminho mais adequado é apostar em um padrão de audiovisual mais ligeiro e sustentável”, afirma Anildeney Araújo, gerente de cultura da governo lugar. “Isso inclui incentivar produções de menor graduação, equipes reduzidas e o uso de tecnologias digitais que demandam menos transporte de equipamentos e materiais para a ilhéu.”
O repórter viajou a invitação do Noronha2B.
