Festival de veneza perde o zeitgeist ao relegar gaza

Festival de Veneza perde o zeitgeist ao relegar Gaza – 06/09/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

O Festival de Veneza deste ano começou envolvido em controvérsias e terminou em clima de constrangimento e taboca. O Leão de Ouro facultado a “Father Mother Sister Brother”, do americano Jim Jarmusch, foi visto por muitos uma vez que um gesto político anti-Palestina por secção do júri —ou, na melhor das hipóteses, uma postura acovardada de seu presidente, o cineasta Alexander Payne.

Por fim, o longa amplamente predilecto, “The Voice of Hind Rajab”, da tunisiana Kaouther Ben Hania, falava das mortes proporcionadas por Israel no atual conflito em Gaza, se posicionando claramente em oposição aos atos do governo de Binyamin Netanyahu.

Dias antes do primórdio, o festival já havia sido duramente criticado por profissionais do audiovisual pró-Palestina, que exigiam mais engajamento político no exposição solene da presidência do evento. O filme de Hania era o único na disputa a mourejar diretamente com as atrocidades promovidas por Israel em Gaza, recebendo aplausos emocionados ao término de cada sessão, com ampla adesão da prelo e do público. Poucas vezes um filme chegou à cerimônia de premiação com tanto nepotismo.

Mas o júri de Payne, que tinha a brasileira Fernanda Torres entre os membros, preferiu fugir de qualquer mal-estar que um prêmio a um filme condenando Israel eventualmente pudesse provocar. Evitando, inclusive, problemas com o poderoso lobby judaico no audiovisual, principalmente em Hollywood.

Mas a vitória do filme de Jarmusch é problemática por vários outros motivos. É uma obra extremamente irregular, que se dedica a praticamente apresentar algumas situações sem nunca ter substrato para gerar um pensamento frutífero sobre o que está na tela.

É um filme sobre relações familiares, dividido em três episódios, sendo os dois primeiros muito parecidos, mas com o terceiro destoando bastante em foco e em tom. O primeiro incidente mostra dois irmãos em visitante ao pai, numa mansão distante. O segundo apresenta uma mãe que recebe duas filhas para tomarem chá em sua mansão. E o terceiro mostra dois gêmeos relembrando os pais, pouco depois de eles morrerem.

Alguns trechos são divertidos, mas Jarmusch nunca parece ter muita certeza do que ele mesmo quer manifestar com o filme, que parece estar continuamente saindo dos trilhos —quase flutuando. Ele até salpica pelos episódios alguns elementos repetidos para dar sensação de unidade, ou de relação entre os trechos —um relógio Rolex, alguns jovens andando de skate, um idoso ditado britânico. Mas eles não significam absolutamente zero, e o filme parece nunca chegar a lugar nenhum.

Premiar a obra, além de um disparate estético e de falta de coragem política, soa uma vez que patriotada —já que Payne é americano uma vez que Jarmusch— e tem um evidente paisagem de prêmio pelo conjunto da obra. Diretor de filmes uma vez que “Daunbailó”, de 1986, e “Paterson”, de 2016, Jarmusch é um cineasta muito querido, mas que ainda não tinha na prateleira um prêmio principal de um grande festival. Agora tem —mas um dos menos merecidos de que se tem notícia.

“The Voice of Hind Rajab” levou a segunda láurea mais importante, o Grande Prêmio do Júri, um evidente troféu de consolação. O júri errou, também, ao premiar Benny Safdie, outro americano, uma vez que melhor diretor por “The Smashing Machine”, que embora seja um filme competente, é talvez o trabalho menos notável do cineasta, que junto do irmão Josh Safdie já fez obras de altíssima qualidade, uma vez que “Joias Brutas”, de 2019.

O prêmio peculiar do júri ficou para o belo documentário “Sotto le Nuvole”, do italiano Gianfranco Rosi, sobre o Vesúvio, os habitantes da região de Nápoles e sua história. Um prêmio talvez ajustado, embora outras obras mais vigorosas estivessem na desavença.

O prêmio de melhor ator foi um grande acerto, talvez o maior da noite. Toni Servillo ganhou por “La Grazia”, de Paolo Sorrentino, em que vive um suposto presidente da Itália em seus últimos dias de governo. Já o prêmio de melhor atriz trouxe mais uma surpresa, sendo entregue à chinesa Xin Zhilei, pelo drama “The Sun Rises on Us All”, de Shangjun Cai. Ela interpreta uma mulher que reencontra um idoso amante depois de anos separados. A favorita era a franco-italiana Valeria Bruni Tedeschi, de performance muito mais interessante em “Duse”, de Pietro Marcello.

Tirando o filme de Hania, o único outro longa de caráter mais político a ser premiado foi a produção francesa “À Pied d’Oeuvre”, que ganhou o troféu de melhor roteiro. Fala sobre subemprego no mundo atual, a partir da história de um noticiarista que precisa trabalhar em serviços mal remunerados para conseguir remunerar as contas.

Num ano em que a seleção trouxe diversos longas de tema mais gritantes, é muito pouco ter unicamente esses filmes premiados. Veneza falou de desemprego em tempos de capitalismo selvagem na comédia ácida “No Other Choice”, do sul-coreano Park Chan-wook, um dos filmes mais criativos e engraçados do evento, que saiu sem prêmios.

Também em brancas nuvens ficou “Moradia de Dinamite”, da americana Kathryn Bigelow, uma fantasia sobre armamentismo em que um míssil nuclear está prestes a desabar em território americano sem que as autoridades tenham alguma teoria de quem promoveu o ataque.

E ainda havia “The Wizard of the Kremlin”, do galicismo Olivier Assayas, que versa sobre totalitarismo, narrando uma vez que o atual presidente da Rússia, Vladimir Putin, conseguiu se tornar o varão mais poderoso do país, tendo começado a curso uma vez que agente do serviço secreto soviético, a KGB. Mesmo tema abordado no óptimo “Orphan”, do húngaro László Nemes, falando do mundo de hoje ao mostrar a Hungria nos anos 1950, muito influenciada pelo governo soviético da idade.

A programação desta 82ª edição trazia filmes relevantes e condizentes com o estado universal de inquietação com o presente e o horizonte do mundo. Em 2025, a preocupação política parece inseparável de qualquer paisagem da vida das pessoas, que hoje exigem posicionamentos sem meias palavras. Nesse sentido, o júri deste ano se mostrou lamentavelmente descolado do zeitgeist.

Folha

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