File reúne obras feitas com ia que questionam tecnologia

File reúne obras feitas com IA que questionam tecnologia – 17/07/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Enquanto museus e galerias ainda enxergam com ressalvas a arte produzida com o auxílio da perceptibilidade sintético, o Festival Internacional de Linguagem Eletrônica vai na contramão ao abraçar esse tipo de produção.

Realizado na capital paulista, o File, uma vez que é sabido, chega à sua 24ª edição reunindo 97 obras. Alguns desses trabalhos não somente desafiam a centralidade do ser humano no fazer artístico, mas também usam a tecnologia para refletir sobre a sociedade.

Foi isso que fez o artista visual Craca ao gerar a instalação sonora “Ouvir”, um dos destaques da mostra. Em uma parede, dezenas de alto-falantes foram conectados uns aos outros por meio de fios pretos, formando uma estrutura que lembra sinapses cerebrais. No interno da sala expositiva, há duas esculturas com o formato de tímpano que trazem pequenos microfones em suas extremidades.

A teoria é que o visitante primeiro emita uma melodia no dispositivo, uma vez que um assobio. Em seguida, essa frequência sonora é armazenada na memória de um sistema projetado por meio de perceptibilidade sintético. Em seguida alguns segundos, os alto-falantes fazem repetir sons baseados naquilo que a pessoa emitiu lá no primícias.

Não se trata, porém, de uma reprodução leal. Isso porque o sistema forma o som reconfigurando frequências sonoras que já estavam armazenadas em sua memória interna. É o chamado machine learning, isto é, um mecanismo por meio do qual as máquinas oferecem respostas mais complexas conforme acumulam novas informações.

“O trabalho vai criando um léxico próprio, uma espécie de léxico de melodias”, diz Craca. “Conforme o tempo passa, o sistema vai tendo um léxico maior, de modo que cada vez menos ele só imita a gente e cada vez mais responde com o que já sabia.”

De certa forma, é uma obra que dialoga com as vanguardas que chacoalharam a arte brasileira durante os anos 1950 e 1960.

Nesse período, artistas uma vez que Lygia Clark e Hélio Oiticica tiraram o testemunha da posição de passividade a que ele foi confinado pela arte tradicional e o elevaram à requisito de coautor da produção artística. Clark fez isso com os seus “Bichos”, já Oiticica pôs o noção em prática com seus célebres parangolés.

Por outro lado, a privação da interação com o público faz com que as obras percam secção do sentido. Com o trabalho de Craca não é dissemelhante.

Sem que alguém apresente um novo som, a instalação acaba reproduzindo uma frequência monocórdica pouco aprazível. Isso acontece porque o sistema acaba empobrecendo de tanto ouvir a si mesmo.

É um lembrete sobre a valimento de opiniões dissonantes e um alerta sobre os perigos de viver em bolhas virtuais. “Esse foi um grande debate político que eu tentei trazer. Falar as mesmas ideias para uma mesma comunidade gera essa monotonia de uma nota só”, diz o artista, pouco antes de silvar no microfone uma novidade melodia. “Se não tem a interferência de informações novas vindo de fora, vira uma bolha. É insuportável e a obra vai ficando chata.”

Craca considera importante usar a tecnologia para refletir sobre o mundo em que vivemos. “A gente tem que se apropriar dela para que ela não se aproprie da gente”, diz o artista, para quem a IA representa um ponto de inflexão. “Ela é a pólvora do século 21. Pode ser usada para fazer coisas fantásticas e salvar milhões de vidas, mas, ao mesmo tempo, ser utilizada para matar milhões de pessoas.”

Essa natureza ambivalente da tecnologia está evidente também em instrumentos de controle, uma vez que câmeras e dispositivos de reconhecimento facial.

Se por um lado aumentam a segurança, por outro desvelam dinâmicas de vexame. É o que acontece, por exemplo, na implementação do reconhecimento facial na segurança pública. Especialistas temem que o número de pessoas negras presas injustamente aumente. Isso porque esses sistemas são treinados principalmente com rostos brancos, o que reduz a acurácia na identificação de pretos e pardos.

A instalação “Veillance”, do canadense Louis-Philippe Rondeau, é uma das obras da exposição que tensionam esses mecanismos de vigilância. Trata-se de um scanner que registra o corpo dos visitantes, uma vez que aqueles usados em aeroportos. No entanto, a imagem que se revela na tela é distorcida, esvaziando e subvertendo a funcionalidade desses dispositivos.

O que era para ser um instrumento de controle vira um objeto quase lúdrico. “É uma pândega com essa teoria de vigilância e com o roupa de a gente estar o tempo todo sendo filmado”, diz Rondeau, enquanto faz os ajustes finais no trabalho. “O meu objetivo foi reassumir o controle sobre os aparelhos de segurança, mas, ao mesmo tempo, gerar um pouco jocoso.”

Enquanto Craca e Rondeau pensam sobre o progressão da tecnologia, o artista chinês Zhang Weid usa a perceptibilidade sintético para refletir sobre a memória. Batizado de “ReCollection”, o trabalho é constituído por uma tela de projeção e por um microfone no qual o visitante deve narrar de forma sucinta uma recordação.

Em seguida alguns segundos, a perceptibilidade sintético recria essa memorial por meio de uma simulação exibida na tela. A cena tem o vista frágil, onírico e evanescente tão característico das memórias.

Para Paula Perissinotto, que fundou o evento ao lado de Ricardo Barreto, a fragilidade da memória é justamente um dos principais entraves para a valorização de trabalhos feitos com IA. Isso acontece porque obras concebidas nos anos 2000, por exemplo, desapareceram depois o término dos softwares em que elas operavam. “A construção de memória legitima e dá valor à arte, mas esse processo ainda é um repto.”

Outro entrave, diz Perissinotto, é a falta de formação especializada nas universidades. De tratado com ela, os cursos oferecem algumas disciplinas sobre arte e tecnologia, mas não se aprofundam no tema.

Esse cenário faz com que o mercado disponha de poucos profissionais dedicados ao objecto, o que dificulta a ingressão dessa produção em museus e galerias. “Um curador ou um arquivista não vão dar um passo em direção àquilo que eles não dominam”, diz ela. “A falta de formação é um vácuo que acontece por falta de vontade política.”

Esses fatores ajudam a explicar por que a arte feita com auxílio de IA ainda é vista uma vez que uma produção menor dentro do mercado artístico. Mas há ainda outro empecilho.

Muitas pessoas consideram que essa produção não pode ser entendida uma vez que arte por diminuir o protagonismo do ser humano sobre o fazer artístico. Perissinotto, no entanto, pensa de outra forma. “O artista, o recorte humano e olhar crítico continuam presentes”, diz ela. “Acho que todos nós devemos enxergar a perceptibilidade sintético uma vez que um pouco que vai potencializar as possibilidades, e não neutralizá-las.”

Folha

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