Filme cloud tem direção elegante e precisa 16/07/2025

Filme Cloud tem direção elegante e precisa – 16/07/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Falta vigor elétrica na morada de Ryosuke, muito na noite em que ele encaixota as coisas para uma mudança. Ao se aproximar da janela que capta um pouco da luz da rua, ele percebe que está sendo observado por seu macróbio encarregado, que sobe o lance de escadas até a ingressão da morada. Ryosuke, assustado, espera que o varão desista de tocar a chocalho e vá embora.

Um pouco antes, no ônibus com a namorada, ele percebe uma presença sinistra detrás deles. Vira o rosto e o filme fica temporariamente mudo, uma vez que se a orquestra sonora tivesse enguiçado. A figura sinistra desce do ônibus sem se manifestar.

Ryosuke e seus fantasmas? Não exatamente. Mas “Cloud: Nuvem de Vingança” é de Kiyoshi Kurosawa, diretor sempre hábil em explorar atmosferas tenebrosas que raramente se manifestam uma vez que num filme de horror convencional. É o grande diretor em atividade no cinema nipónico e leste filme mostra por quê.

Em alguns momentos, a prenúncio parece sobrenatural, com sombras e sensações sinistras. Em outros, parece de qualquer concorrente ou qualquer comprador insatisfeito, uma vez que indica a peça automotiva arremessada janela adentro do quarto em que dormia a namorada. O papeleta do filme, em todo caso, o apresenta uma vez que horror.

Ryosuke não é honesto no que faz. Vende bolsas e peças sem se importar se são falsas. Compra barato para vender custoso, não importa a proveniência. O que importa é o lucro que virá com as vendas. Tem uma legião de compradores que se tornaram inimigos por se sentirem enganados. Sua ganância começa a se voltar contra ele.

Estamos num mundo cão, em que o acúmulo de verba justifica todas as atitudes. Kiyoshi Kurosawa sempre foi crítico do capitalismo e dos males que justificação à sociedade japonesa. Um país, já mostrava Kenji Mizoguchi, em que homens lutam sem escrúpulos por poder e verba.

Interpretado por Masaki Suda, Ryosuke é a cristalização de todas as práticas nefastas desse sistema econômico. Um jovem ávido que abandona o serviço numa fábrica mesmo tendo uma proposta de promoção e aumento. Ele quer sempre mais.

Rabino do imprevisível, o cineasta promove uma mudança na segunda metade de “Cloud”, quando a atmosfera de horror se esvai e o filme mergulha no thriller de ação. Temos um jogo de vida e morte que vai culminar em um velho e enorme galpão de fábrica despovoado —seu cenário preposto em diversos filmes.

O covarde Ryosuke se revela inexperiente no manejo de uma arma de queimada, chegando a permanecer traumatizado no início. Aos poucos, mas, vai se revelando uma máquina de matar, assim uma vez que outros personagens anteriormente mostrados, a exemplo de seu macróbio encarregado, vivido por Yoshiyoshi Arakawa, e seu jovem assistente Sano, personagem de Daiken Okudaira.

A contaminação pela violência que vemos na série de longas “John Wick” atinge “Cloud” de maneira menos irônica que perturbadora. A violência parece estar na espírito dos japoneses, segundo o diretor.

Por mais que esse jogo movido a vingança lembre seus filmes mais antigos, uma vez que “O Caminho da Serpente”, longa de 1998 que ele mesmo refilmou –e suavizou— na França em 2024, na intensidade e na emoção está mais para Takeshi Kitano, Johnnie To e toda uma linhagem do cinema oriental envolvendo transgressão e perseguição.

Há, porém, o mesmo retrato amargo do Japão contemporâneo, a crueldade e a frieza nas cenas de violência que podemos encontrar com facilidade em seu cinema. Além de tudo, vemos uma liberdade que remete à bela maluquice de “Barren Illusion” (1999) ou “O Sétimo Código” (2013) e pode incomodar quem se preocupa demais com verossimilhança.

Os tiros só são ouvidos pelos personagens quando o diretor quer que eles ouçam. Outros personagens desaparecem no meio do jogo para ressuscitar minutos depois, uma vez que se estivessem descansando nos bastidores.

A construção da trama não permite que adivinhemos seus caminhos. Estamos tão no escuro quanto Ryosuke ou seus clientes, sem saber quem será equivocado e quando. A incoerência é regular, a incoerência, também.

A direção, mais uma vez, é marcada pela elegância e pela precisão, com um tino refulgente de espaço, um trabalho com o fora de quadro que enriquece as cenas e uma uniformidade de atuações que poucas vezes acontece em filmes de ação.

A cena final, nas nuvens, é uma das maiores afirmações de autoria do cinema recente. Lembra “Tratamento” (1997), “Charisma” (1999) e “Pulse” (2001), longas responsáveis pelo doutrinado ao diretor, mas tem ainda um frescor de novidade. É um obstinação de assinatura num filme de rabino.

Folha

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *