Depois da morte de Edinho Cabuloso, gerente da partido criminosa no núcleo de “Irmandade”, a advogada Cristina, papel de Naruna Costa, flerta com a chance de liderar o grupo. Mana do personagem de Seu Jorge, que ao lado dela fez da série um dos maiores sucessos nacionais da Netflix, ela vê sua sobrinha ser levada por policiais corruptos em “Salve Universal”, longa que dá sequência às duas temporadas da série.
Leste é o primeiro derivado de uma produção brasileira a ser lançado pelo streaming, numa quadra em que os serviços digitais e os estúdios de cinema estão cada vez mais próximos.
De um lado, a Netflix espera pela aprovação do governo americano para comprar a Warner Bros. Do outro, artistas afirmam que a plataforma tem visto a distração, muitas vezes provocada por telas móveis, uma vez que critério criativo —um verosímil resultado, segundo eles, são as tramas repetitivas, que reciclam informações para evitar desinteressados.
No caso de “Salve Universal”, uma das principais estratégias contra a falta de atenção é o tino de urgência. Logo no início do filme, quando bandidos atacam uma delegacia e uma funcionária é obrigada a fugir, um longo plano-sequência, ou seja, uma cena filmada sem cortes, reúne trocas de tiros e perseguições de carruagem. É o tipo de técnica, diz o diretor Pedro Morelli, mais frequente em filmes.
“É um barato jogar o jogo que faz nossos projetos funcionarem”, acrescenta o fundador de “Irmandade”. “Quando fazemos alguma coisa para o streaming, sabemos que é necessário invocar a atenção do público o mais rápido verosímil. Isso não é demérito —é falar a língua dos dias de hoje.” Ele cita um cronômetro que aparece nos primeiros segundos do longa, ilustrado uma vez que se fosse uma petardo.
Isso porque Cristina nunca esteve com os nervos tão à flor da pele. Durante a manhã, ela vai à prisão para conversar com colegas do irmão morto. À tarde, leva as negociações para escritórios de figurões políticos que estão dispostos a lavar as mãos. Quando a noite cai, ainda precisa enfrentar Elisa, sobrinha invocada que aprendeu com o pai —agora um fantasma que aparece em flashbacks— a nunca decrescer a sua cabeça.
Tudo piora quando a polícia desvenda o parentesco entre a novidade personagem e o nêmesis executado. É o que leva a advogada a mobilizar todas as forças necessárias pelas ruas, provocando o tal ataque universal do título. “Carregar a história dessa personagem e dessa série é uma responsabilidade enorme”, afirma Costa, para quem o consumo domiciliar de produções desse tipo flexibiliza a troca entre espectadores e artistas.
“Uma das coisas pelas quais mais prezo no audiovisual é a oportunidade de aprofundar as subjetividades de personagens negras e femininas. É o tipo de profundidade pela qual ansiamos e que faz secção do Brasil de hoje, em que todas as histórias que contamos dão margem para outras narrativas.”
Na visão de Camilla Damião, que dá vida à jovem sequestrada e precisou ser movida pela rebeldia, Elisa deu a ela a chance de somar camadas a um universo já estabelecido. Ela cita a relação da pequena com o hip-hop e outras faces da cultura urbana uma vez que um potencial invitação para os que sequer viram a série.
“Acredito muito no caminho da autenticidade. Quanto mais autênticos formos, mais tornaremos o nosso audiovisual num revérbero do nosso país”, diz a atriz, que afirma que as pessoas negras ainda estão longe de serem representadas com a tridimensionalidade que merecem. Ela estreou nos cinemas com “Marte Um”, longa sobre uma família periférica das quais fruto mais novo sonha em se tornar astronauta.
Em 2023, em seguida o lançamento, o filme foi selecionado para tentar simbolizar o Brasil no Oscar, mas não teve a mesma sorte que “Ainda Estou Cá” e “O Agente Secreto”. “Projetos uma vez que esses falam de um povo muito específico e que precisa ser retratado com dualidade. São corpos que pertencem ao presente, que precisam ser registrados pelo nosso audiovisual e que irão conceber o nosso porvir”, acrescenta Damião.
Para Morelli, as complexidades do violação brasílico também justificam a perpetuidade dessas narrativas, independentemente do formato. Entre violências e bandeiras sociais, ele descreve esse submundo uma vez que espaço em que o visível e o inverídico se embaralham e o define enquanto rudimento fértil para tramas brasileiras.
“O Brasil é um dos maiores mercados em que empresas do audiovisual investem. Somos relevantes para o mundo inteiro”, diz o diretor. “A força do público brasílico tem feito todos olharem para cá.”
