'Foi apenas um acidente': Jafar Panahi mantém otimismo sobre futuro do Irã após prisão e censura

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Quando “Foi unicamente um acidente” venceu a Palma de Ouro do Festival de Cannes, em maio, Jafar Panahi se tornou uma das poucas pessoas na história agraciadas com os maiores prêmios dos três grandes eventos de cinema da Europa.
Antes disso, o iraniano tinha ganhado o Urso de Ouro de Berlim, com “Táxi Teerã” (2015), e o Leão de Ouro de Veneza, “O círculo” (2000).
Com a vitória esse ano, o cineasta também entrou pela primeira vez no caminho do brasiliano “O agente secreto”, que no festival gálico ficou com os prêmios de direção, para Kleber Mendonça Rebento, e atuação, para Wagner Moura.
Com retratos celebrados de governos autoritários, mesmo que em momentos muito distintos, ambos são considerados dois dos favoritos à categoria de melhor filme internacional do Oscar 2026 – junto do norueguês “Valor sentimental” e do sul coreano “No other choice”.
Entre tantas emoções, Panahi, aos 65 anos, chegou ao Brasil para participar da 49ª Mostra de Cinema de São Paulo – onde foi homenageado com o Prêmio Humanidade, nesta segunda-feira (27) e onde vai estar presente nas três exibições de “Foi unicamente um acidente”, que acontecem até quarta (29).
O filme em si tem estreia prevista nos cinemas brasileiros em 4 de dezembro.
“Não é fácil fazer esse tipo de filme. É difícil, porque você não sabe o que vai intercorrer no porvir. Neste filme, para mim o importante é saber se esse ciclo de violência vai continuar ou vai parar”, diz o diretor em entrevista ao g1.
Assista ao trailer de ‘Foi unicamente um acidente’
No roteiro escrito pelo próprio Panahi, um grupo de antigos prisioneiros do regime iraniano se junta para desvendar se um ignoto é, por fim, o agente que os torturou no pretérito – e, principalmente, o que fazer com ele.
Para gravá-lo sem autorização do Estado, o diretor armou um esquema de guerrilha, no qual acompanhava seus atores com uma equipe enxuta e hábil para evitar fiscalização e policiais.
Já a inspiração para a trama saiu dos quase sete meses em que esteve recluso – ele foi liberado em fevereiro de 2023, posteriormente dar início a uma greve de miséria e se tornar símbolo da repressão a artistas que criticam o poder no país, mas já falou mais de uma vez que ainda ouve as vozes de seus captores.
Mesmo censurado e retido ao longo dos anos, pelo menos desde que se transformou de um renomado diretor de histórias infantis a um responsável combativo de filmes com temas sociais, Panahi mantém o otimismo.
“Se eu não fosse um otimista, não conseguiria fazer esse filme. Porque se você sempre pensa que zero vale a pena, que nunca vai mudar zero, por que faria qualquer coisa? É preciso fabricar esperança para você mesmo para poder trabalhar.”
Na entrevista aquém, ele compara diferentes tipos de filmes sobre autoritarismos, diferenças culturais entre o resto do mundo e o Irã, que fazem de partes de “Foi unicamente um acidente” muito engraçadas para fora do país, e dá a própria versão do final do enredo.
Para muitos, a última resposta pode ser considerada um grande spoiler – por mais que seja necessário ter visto o filme para entender tudo. Por isso, quem quiser não saber de absolutamente zero, pode parar de ler na hora do aviso de spoiler.
Leia aquém a conversa com Jafar Panahi, editada para nitidez:
Mohamad Ali Elyasmehr, Majid Panahi e Hadis Pakbaten em cena de ‘Foi unicamente um acidente’
Divulgação
g1 – No último ano, já fiz perguntas sobre filmes que retratam regimes autoritários a Fernanda Torres e Selton Mello, de “Ainda estou cá”, e a Leonardo DiCaprio, de “Uma guerra posteriormente a outra”. Qual a preço desse tipo de filme para o senhor?
Jafar Panahi – Não é fácil fazer esse tipo de filme. É difícil, porque você não sabe o que vai intercorrer no porvir. Por exemplo, neste filme, para mim o importante é o que vai intercorrer. Esse ciclo de violência vai continuar? Ou vai parar?
Mas quando um cineasta faz um filme histórico, mesmo a inovando, ele sabe o que acontece no final.
Já eu sempre penso em só uma coisa. Libido que, no porvir, essa violência não continue.
g1 – O filme faz pensar sobre ciclo de violência mesmo. Vingança e desforra. Porquê é, para o senhor, mourejar com esse tema dentro dessa veras? Porquê alguém que ainda mora no Irã?
Jafar Panahi – Penso sempre até onde isso vai. Quando você está em uma situação, você sempre pensa quando isso vai findar. Essa é a sensação geral a todas as pessoas no Irã. Elas têm esperança de que isso acabe. Ninguém consegue não pensar no que vai intercorrer no porvir.
g1 – O senhor é otimista em relação ao Irã e ao mundo, que passa no momento por uma tendência em direção a governos autoritários?
Jafar Panahi – Se eu não fosse um otimista, não conseguiria fazer esse filme. Porque se você sempre pensa que zero vale a pena, que nunca vai mudar zero, por que faria qualquer coisa? É preciso fabricar esperança para você mesmo para poder trabalhar.
g1 – Qual a preço de manter uma leveza surpreendente na maior secção do filme, que é muito engraçada, para a força dos 20, 15 minutos finais do filme?
Jafar Panahi – Quanto às partes que você achou engraçadas, no primícias do filme, isso também é uma questão cultural. Para alguns países alguns temas são vistos uma vez que engraçados. Para outros, não, são coisas sérias. Algumas coisas no nosso país são super normais, mas para outros países podem ser engraçadas.
A hora em que levam a senhora para o hospital pode ser engraçado para alguns. “Nossa, queriam matar o marido dela. Agora querem salvar a mulher?” Se esse filme for exibido no Irã, ninguém vai rir no cinema. Isso faz secção da nossa cultura. Não é um pouco incomum.
Vahid Mobasseri em cena de ‘Foi unicamente um acidente’
Divulgação
Nesses doze dias de guerra, pelo qual o Irã passou recentemente, a famosa prisão de Evin também foi bombardeada. Eu conheço, porque fiquei recluso lá.
Caiu uma petardo muito na porta. Todos os prisioneiros saíram para salvar suas vidas, mas alguns médicos que também eram mantidos lá ficaram e ajudaram feridos. Até pessoas que eram responsáveis por seu sofrimento. O que isso quer expor? É secção da humanidade, da sociedade.
Deixamos até os 20 minutos finais do roteiro mais leves, felizes, sem zero possante. Queria que os 20 minutos finais fossem tão fortes, tão impactantes, que o público ficasse pensando ao trespassar. Se o primícias não fosse engraçado, o filme ficaria muito igual, muito pesado, e o final não teria a mesma força.
g1 – É por isso que o senhor se mantém no Irã, fazendo filmes, mesmo com todas as dificuldades? É uma vontade, ou uma missão, de mostrar para o mundo um Irã em contraste com a visão construída no mundo pelos Estados Unidos?
Jafar Panahi – Eu não penso muito em relação a missão. Eu acredito no cinema. Eu tenho uma responsabilidade, que é fazer filmes. Eu sou cineasta. O cinema para mim é importante.
Não consigo falar que faço filmes para mudar o mundo. Quero fazer filmes para que eu fique satisfeito com o que fiz. Se você não fica satisfeito, não tem uma vez que satisfazer os outros.
Temos dois tipos de cinema, unicamente. Você pode ser um cineasta pensando no que as pessoas querem, e portanto faz exatamente o que esperam de você. Nos mais variados temos. Pode ser violência, sexual, social. Depende sempre do que pedem de você.
E 5% dos cineastas pensam em fazer filmes para que as pessoas descubram. O importante para eles é a arte. Nesse caso, o cineasta se respeita mais do que o público. E isso, para mim, é a arte.
AVISO DE SPOILER: Na resposta, Panahi comenta momentos específicos do desfecho de “Foi unicamente um acidente”. Muitos espectadores podem considerar spoilers – mesmo que o responsável não ache. Quem prefere não saber pode parar de ler agora, e voltar posteriormente testemunhar ao filme. Vale a pena.
Mariam Afshari, Mohamad Ali Elyasmehr, Majid Panahi, Hadis Pakbaten e Vahid Mobasseri em cena de ‘Foi unicamente um acidente’
Divulgação
g1 – O senhor considera o final do filme otimista? Enfim, ele fica em destapado. Um pessimista poderia pensar em vingança, mas um otimista talvez visse um recomeço.
Jafar Panahi – Pode ser que aquele som que se ouve no final nem fosse veras. Talvez ainda seja o pensamento do protagonista. Porque ele comenta que o som está em seu ouvido há cinco anos. De qualquer maneira, se você pensa muito, não é muito rápido? Essa pessoa realmente já chegou até ele? Depois fica um silêncio e a pessoa vai embora.
Essa foi uma piscadela para ele despertar. E aquela história de ajudar a mulher dele a ir ao hospital, será que não mudou alguma coisa nele? Portanto, temos esperanças para o porvir.
Mas, se não for só imaginação, podemos pensar na possibilidade da prosseguimento do ciclo. E isso tudo depende, sim, da pessoa que está assistindo.

Fonte G1

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