Folha indica as melhores peças de 2025; veja 23/12/2025

Folha indica as melhores peças de 2025; veja – 23/12/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

O ano foi conturbado para as artes cênicas. Houve detrito de companhia teatral, porquê aconteceu com o Teatro de Contêiner, e até demolição de espaços tradicionais, caso do Teatro Ventoforte. Para complicar a situação, uma guerra ideológica provocou embates entre a Prefeitura de São Paulo e o Theatro Municipal.

Apesar da atmosfera de tensão que pairou sobre o setor, a classe artística conseguiu produzir espetáculos que surpreenderam pela qualidade. É o caso, por exemplo, de “Lady Tempestade”, uma das peças mais comentadas deste ano, ou de “Senhora dos Afogados”, a primeira grande produção do Teatro Oficina em seguida a morte de seu pai —o ator, dramaturgo e diretor José Celso Martinez Corrêa.

Para ressaltar algumas das melhores montagens do ano, a Folha convidou profissionais que atuam na cobertura de artes cênicas para selecionar, cada um, as cinco melhores peças que viram em 2025.

Confira a lista aquém.


Andre Marcondes

Editor-assistente de impresso e responsável da pilastra Mise-en-scène

Senhora dos Afogados

Direção: Monique Gardenberg

Nesta releitura da tragédia de Nelson Rodrigues, o Teatro Oficina reafirma sua estética de coro multitudinário para dissecar a decadência da família Drumond. A direção opta por uma abordagem que privilegia a “ópera de carnaval” em detrimento do realismo psicológico, amplificando as tensões sexuais e sociais do texto original. O destaque recai sobre a ocupação espacial do teatro, onde a cenografia integra a plateia ao drama moral, transformando a peça em um estudo vibrante sobre a hipocrisia das elites nacionais.


(Um) Experimento Sobre a Fanatismo

Direção: Rodrigo Portella

Ao harmonizar a obra seminal de José Saramago, o Grupo Galpão realiza um deslocamento estético significativo, afastando-se de sua tradicional ludicidade de rua para uma encenação densa e confinada. A montagem aposta na privação sensorial e no escorço de som para transcrever a “facciosismo branca” ao público. A performance do elenco, despida de excessos, sustenta-se na fisicalidade e na precisão técnica, construindo uma parábola eficiente sobre o colapso das estruturas sociais e a moral em tempos de crise.


Eddy – Violência & Mutação

Direção: Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky

A Polifônica Cia. acerta o claro ao trazer a autoficção brutal de Édouard Louis para o palco, encontrando na veras francesa um espelho desconfortável para o Brasil conservador. A encenação recusa o sentimentalismo da “jornada do herói” para dissecar porquê a pobreza econômica e a rigidez da masculinidade tóxica se retroalimentam. O préstimo maior reside na dramaturgia, que preserva a voz analítica do narrador sem sacrificar a teatralidade, apoiada por um elenco que transita habilmente entre a narração distanciada e a encarnação visceral da violência de classe. É um teatro político que não precisa panfletar para ser contundente.


Sozinho com Romeu e Julieta

Direção: Ana Rosa Tezza

A companhia curitibana subverte a estrutura do clássico shakespeariano ao condensar a trama em uma perspectiva intimista e solitária. A montagem desloca o foco do conflito entre as famílias para o solilóquio interno e a subjetividade do paixão romântico. Mantendo a identidade visual artesanal propriedade do grupo, a peça oferece uma leitura psicanalítica do texto, onde a tragédia é reconfigurada não porquê evento social, mas porquê um delírio projetado pelo isolamento do protagonista.


Elã

Direção: Isabel Teixeira

Sob a direção de Isabel Teixeira, a Cia. Mungunzá radicaliza seu processo de investigação cênica. A peça não secção de um texto dramático convencional, mas do “Livro de Linhas”, uma obra composta por oito narrativas entrelaçadas criadas pelos próprios atores através do método “A Escrita na Cena”. Teixeira orquestra essas histórias sem estabelecer hierarquias, criando uma lesma temporal onde o espaço cênico dita as regras do jogo. O resultado é uma encenação polifônica que desafia o público a “editar” a própria experiência ao vivo, costurando as lacunas entre a ficção e a presença física do elenco.


Cristina Camargo

Jornalista da Folha

Lady Tempestade

Direção: Yara de Novaes

Ao expor dores causadas pela violência da ditadura militar, Andrea Beltrão reflete sobre as consequências do período a partir de diários escritos pela advogada pernambucana Mércia Albuquerque (1934-2003). As mães e os filhos mortos e desaparecidos são o ponto de relação com o Brasil atual, diante da persistência da violência institucional. No solo, a atriz intercala momentos de naturalidade e de versão dramática.


Não me Entrego, Não!

Direção: Flávio Marítimo

Com humor e emoção, Othon Bastos revive no palco, aos 92 anos, histórias de sua trajetória, porquê a do encontro com Glauber Rocha para filmar “Deus e o Diabo na Terreno do Sol” (1964), marco do cinema novo em que interpretou o cangaceiro Corisco. O solo é o primeiro do ator em sete décadas de curso e, a pedido de Bastos, a dramaturgia deixou de fora as passagens amargas de sua vida.


O Mercador de Veneza

Direção: Daniela Stirbulov

A montagem, protagonizada por Dan Stulbach, atualiza “O Mercador de Veneza”, de Shakespeare, e coloca em debate a intolerância do pretérito e do presente. Projeção de vídeos, música ao vivo e o formato estádio são atrativos do espetáculo, além da versão de Stulbach, que mergulhou nas pesquisas sobre o clássico em seu retorno ao teatro em seguida uma período de reflexão sobre a profissão. A peça volta em edital entre janeiro e março de 2026, no BTG Pactual Hall e no Tucarena.


Senhora dos Afogados

Direção: Monique Gardenberg

Sucesso de público, com longas filas na rua Jaceguai, a tragédia de Nelson Rodrigues une a sofisticação da diretora às ousadias dos discípulos de Zé Celso Martinez Corrêa. O primeiro grande espetáculo do Teatro Oficina em seguida a morte do encenador, em 2023, conquista a plateia ao atualizar o drama da família Drummond com pitadas de ironia, recurso audiovisual, músicas atuais e interação comedida com o público.


(Um) Experimento sobre a Fanatismo

Direção: Rodrigo Portella

A trupe mineira do Grupo Galpão faz uma encenação épica do romance de José Saramago: os atores narram a história, montam o cenário, manipulam a luz e tocam a trilha sonora. Também são guias dos figurantes -representantes do público que participam de uma comovente experiência imersiva no palco. A direção optou por uma montagem que vai além da distopia, com o resgate da delicadeza e dos acordos de convívio.


Luciana Romagnolli

Sátira e pesquisadora

(Um) Experimento sobre a Fanatismo

Direção: Rodrigo Portella

Desde a maré branca da facciosismo até o isolamento dos contagiados em condições degradantes, a peça reconstrói o romance de Saramago pelo jogo coletivo de um grupo maduro, capaz de modular o cômico, o insano, o trágico e o lúcido, orquestrar silêncios e sonoridades da trilha sonora executada ao vivo, e valorizar a escuta em recusa à dessensibilização gerada pela era das imagens. A adaptação preserva a narrativa porquê modo de organização do mundo, contrapondo-se à dissipação fragmentária do presente, num alinhavo entre o dramático, o heróico, o circense e o convivial. Sem utopias ingênuas, é na travessia do patético e do horror que se afirma o resgate da possibilidade de honra no coletivo.


Lady Tempestade

Direção: Yara de Novaes

Neste solo dirigido por Yara de Novaes, Andrea Beltrão presentifica em nuances da atuação o encontro de mulheres de distintas épocas, mediado pelos diários de uma delas, Mércia de Albuquerque (1934-2003), advogada dedicada à resguardo dos direitos de presos políticos na ditadura. A refolho temporal proposta pela dramaturga Sílvia Gomez nos confronta com o terrorismo institucional do pretérito e suas consequências persistentes, a partir da tensão que se instaura em A., a outra personagem, com a leitura dos relatos das lutas de mulheres de ontem. Desse modo, coloca em questão a tomada de posição moral, ou, ao menos, a coragem de encarar a história de um país e suas repetições.


Uma Peça Cansada

Direção: Natasha Corbelino

A artista carioca Natasha Corbelino responde a um tempo saturado pelas demandas capitalistas, e ainda sob os efeitos de uma recente pandemia, com uma obra que se apresenta porquê uma partilha do próprio processo de conceber modos de reação diante de uma crise econômica, política e subjetiva. Com escassos recursos materiais, mas domínio das estratégias performáticas e farta habilidade para dialogar sátira, irônica e afetivamente com discursos contemporâneos da esfera pública, a artista faz de uma peça originalmente encenada em seu apartamento um invitação descerrado a reimaginar a vida, ao zelo e à ação.


Pai contra Mãe ou Você Está me Ouvindo?

Direção: Jé Oliveira

O Coletivo Preto escancara a terrível atualidade do história “Pai contra Mãe”, de Machado de Assis, transpondo o contexto da escravidão para os modos contemporâneos de apresentação da legado escravocrata. Para tanto, serve-se da lógica inscrita por Machado para fazer uma crônica do presente, em resposta a um caso noticiado de tortura. Entre a verso e a denúncia, a cena falada e a musicada, explicita os meios pelos quais sujeitos negros sofrem e infligem violência no esforço de sobreviver a uma sociedade estruturada pela exploração econômica racializada.


Vinte!

Direção: Mauricio Lima

No espiralar do tempo entre as décadas de 1920 e 2020, o espetáculo escrito por Tainah Longras e dirigido por Mauricio Lima ocupa-se da constituição da Companhia Negra de Revistas e da estudo da peça “Tudo Preto” (1926) para investigar as proposições de artistas negros brasileiros de ontem e hoje, e suas estratégias estéticas e discursivas para adentrar um giro artístico eurocentrado em seus valores e juízos. A dramaturgia escapa ao maniqueísmo e aos excessos discursivos, por mais afiados que sejam, com apelo à musicalidade. Os artistas tampouco se isentam e, assim, fazem do teatro um dispositivo crítico do país.


Maria Eugênia de Menezes

Sátira e jornalista especializada

(Um) Experimento sobre a Fanatismo

Direção: Rodrigo Portella

O espetáculo sabe encontrar o melhor do Galpão. O veterano grupo de teatro está mais vivo do que nunca. E não tem pânico de se lançar ao despenhadeiro sem rede de proteção.


Filoctetes em Lemnos

Direção: Marina Tranjan

A vida se rasga e se remenda diante de nós. Ao vivo. Em silêncio. Uma obra dilacerante e linda.


Lady Tempestade

Direção: Yara de Novaes

O que acontece quando três grandes mulheres se encontram? As delicadezas e forças de Andrea Beltrão, Silvia Gomez e Yara de Novaes reluzem em cena.


Firmamento da Língua

Direção: Luciana Paes

Em suas brincadeiras com a língua, Gregorio Duvivier não faz unicamente falar. Quando um ator sabe escutar o coração e a respiração da plateia, uma mágica se dá.


Avenida Paulista

Direção: Felipe Hirsch e Juuar

Um espetáculo para reafirmar nosso paixão pela cidade e pelo teatro. Que atores! O elenco mais genial de 2025.

Folha

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