Francisco cuoco fez das novelas um delírio nacional na tv

Francisco Cuoco fez das novelas um delírio nacional na TV – 19/06/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

No final de 1972, a Orbe anunciava com ostentação que Francisco Cuoco —que morreu nesta quinta-feira (19), aos 91 anos— estaria em frente ao Theatro Municipal de São Paulo para encontrar-se com sua legião de fãs. Pudera. O ator, em absoluta subida em um período em que as telenovelas estavam se transformando em delírio vernáculo, disparava em popularidade.

Sua presença nas escadarias do teatro fazia secção da gravação do programa “Só o Paixão Constrói”, que registrava as histórias de grandes personalidades do país e eram contadas por depoimentos de amigos e familiares.

E a estreia, em janeiro de 1973, logo posteriormente a exibição do Programa Silvio Santos na emissora, em um domingo, era com o tradutor de Cristiano Vilhena, o protagonista —ao lado de Regina Duarte e Dina Sfat— de “Selva de Pedra”, a romance de Janete Clair que havia insipiente o Brasil e iniciado o processo de modernização e industrialização do gênero no Brasil.

Alcançando 100% de audiência, zero se igualou a “Selva de Pedra” na história da televisão brasileira. E, naquele momento, Cuoco representava o vértice da idolatria do público para com os seus artistas da televisão.

Eis que eu, aos nove anos, quis ir até o núcleo de São Paulo para saber o ator que já havia seduzido multidões na pele do dr. Fernando Silveira de Salvamento, com seus 596 capítulos produzidos pela TV Excelsior, e que trouxe pela primeira vez a verdade para a ficção. O médico da pequena cidade do interno realiza com vitória um transplante de coração, um pouco antes do pioneiro médico Euryclides de Jesus Zerbini.

Quando ingressou na Orbe, no final dos anos 1960, que se preparava para a liderança vernáculo, Cuoco fez muito sucesso também uma vez que o padre Vitor Mariano que vivia o conflito entre o celibato e o paixão por Helô —a envolvente personagem de Sfat—, em “Assim na Terreno uma vez que no Firmamento”, de Dias Gomes.

Em seguida, arrebatou público e sátira com a geração do novo-rico Gilberto Ataíde de “O Cafona”, de Bráulio Pedroso, onde se dividia entre o talento e o charme de Marília Pêra, Tônia Carrero e Renata Sorrah. Mas conquistou mesmo os corações de adultos e crianças ao fazer dupla com a secretária Shirley “Sexy”, papel de Marília.

Minha mãe, Maria Helena, não deixou que eu fosse ao encontro de Francisco Cuoco no Theatro Municipal, justificando que haveria uma turba e que aquilo não era coisa para moço.

E eu passei a apreciar cada vez mais o ator que vivera no bairro do Brás, que trabalhava uma vez que feirante durante o dia para ajudar o pai na barraca de biscoitos e massas, dirigindo o caminhão, e à noite estudava na tradicional Escola de Arte Dramática de Alfredo Mesquista, ainda não pertencente à Universidade de São Paulo.

Desse modo, o grande ator foi um dos principais pilares para a construção da telenovela diária e para o impulso da Orbe no país, em pessoal também por sua totalidade sintonia com o texto de Janete Clair e desta com ele.

Caminhou por diversos estilos, gêneros, formatos. Abriu a série “Caso Próprio”, em 1971, crestomatia de grandes textos nacionais e estrangeiros. Um ano depois, participou da produção do primeiro programa gravado e exibido totalmente em cores da televisão brasileira —”Meu Primeiro Dança”, de Janete Clair, adaptando o original de Jacques Prévert, com Glória Menezes, Tarcísio Meira e Sérgio Cardoso, entre outros grandes nomes.

Seguiram-se trabalhos sempre de extrema congregação com as massas sedentas por personagens que a representassem com paixão e mandamento. Assim foi com o investigativo jornalista Alexandre Garcia (“O Semideus”); o aviador Mário Barroso de “Cuca Permitido”; o taxista Carlão (“Vício Capital”); o intimista médico de bairro Victor Amadeu (“Duas Vidas”) até o insólito quiromante Herculano Quintanilha (“O Planeta”), com uma aura privativo.

Até hoje é impossível eu passar pelo Largo da Carioca, no Meio do Rio, e não lembrar da morte de Carlão, em meio à construção do metrô, uma das mais pungentes cenas de nossa teledramaturgia. “Vício Capital”, a romance escrita às pressas por Janete Clair para tapar o buraco da proibida “Roque Santeiro” —papel que seria de Cuoco—, em 1975.

O sucesso do “ator das multidões” era tanto que não vasqueiro encontrávamos Cuoco declamando poesias em vinil no formato de compacto e protagonizando fotonovelas, uma vez que a famosa série de casos médicos com o dr. Drumond e sua enfermeira, Mônica, papel de Nívea Maria.

No realismo fantástico criado por Dias Gomes em “Saramandaia”, encarnou a figura de Tiradentes e personificou mais um médico em “Obrigado, Doutor”, iniciando a produção de seriados nacionais, em 1981.

Na primeira romance solo de Aguinaldo Silva, “O Outro”, deu vida ao empresário Paulo Della Santa e ao simplório Denizard de Mattos, proprietário de um tarega.

Em 1989, o personagem Severo Toledo Blanco e a esposa Gilda, vivida por Susana Vieira, convenceram o matuto Sassá Mutema, de Lima Duarte, de que ele poderia ser “O Salvador da Pátria”, em mais uma polêmica romance de Lauro César Muniz.

Por essa era, eu já tinha o privilégio de grande amizade com sua mana, Grácia, que havia sabido uma vez que diretora da Cultura Inglesa no bairro da Mooca em 1980, era dos meus 18 anos. E já havia aplaudido o ator em sua leitura dramática de trechos da obra de Shakespeare no Teatro da Cultura Inglesa.

A amizade me levou a saber pessoalmente Cuoco, que à era morava no Rio. Em um desses eventos, tive a companhia dele, dirigindo o coche. Naquele momento, verdade e ficção se embaralharam, pois era o personagem Carlão ao meu lado e mais todos os outros que povoavam o meu imaginário.

Foi quando o menino de nove anos concluiu o seu objetivo e confirmou que a vida por si só não basta. Que todos nós precisamos de uma ração diária de ficção, coisa que Francisco Cuoco nos brindou com vocação, talento e paixão, garantindo seu lugar no Olimpo.

Folha

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