Fronteira cerrado: expansão do agro no coração hídrico do brasil

Fronteira Cerrado: expansão do agro no coração hídrico do Brasil

Brasil

Balsas, município no extremo sul do Maranhão (MA), passou por uma transformação radical nos últimos 25 anos. Ela é um dos epicentros da fronteira agropecuária no Brasil que, segundo estudos, impulsiona o desmatamento do Concentrado e contribui para colocar em risco a segurança hídrica do país.

O núcleo urbano aglomera o negócio voltado ao agronegócio, além das sedes de gigantes do mercado de provisões mundiais, uma vez que a holandesa Bunge. A respeito de 2 quilômetros dali, estão os bairros formados por residências humildes onde se concentra o grosso dos trabalhadores, que costumam reclamar da elevação dos preços nos últimos anos, em privativo do aluguel. 

A Sucursal Brasil visitou o município e entrevistou lideranças locais, comunidades tradicionais, empresários do agronegócio e os governos municipal e estadual para entender uma vez que esse progresso se relaciona a danos ambientais que já impactam o Brasil*.

Balsas: campeã de desmatamento

A franqueza de novas áreas para grãos e pastagens coloca Balsas entre os campeões do desmatamento do Concentrado. De pacto com o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD 2024), do MapBiomas, foi o segundo município que mais desmatou no país nos últimos dois anos, mesmo em seguida uma queda de 56% em 2024, quando foram suprimidos 16 milénio hectares (ha), o equivalente a 45 campos de futebol por dia.

Mesmo com a redução, Balsas desmatou no ano pretérito o duplo de seis anos detrás. E dados do Instituto Vernáculo de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam que o desmatamento no município aumentou 30% entre agosto de 2024 e julho de 2025 – apesar da queda de 11,49% no Concentrado uma vez que um todo. 


Brasília (DF), 01/11/2025 - Gif Balsas - Especial Fronteira Cerrado. Arte Agência Brasil
Brasília (DF), 01/11/2025 - Gif Balsas - Especial Fronteira Cerrado. Arte Agência Brasil

Brasília (DF), 01/11/2025 - Gif Balsas - Especial Fronteira Cerrado. Arte Agência Brasil
Brasília (DF), 01/11/2025 - Gif Balsas - Especial Fronteira Cerrado. Arte Agência Brasil

 

Já o Maranhão foi, pelo segundo ano sucessivo, o estado que mais suprimiu vegetação nativa do Brasil, chegando a 17,6% do totalidade desmatado em 2024, o que representou 218 milénio hectares, extensão muito maior que a cidade de São Paulo (152 milénio ha).


Brasília (DF), 01/11/2025 - Infográficos - especial Fronteira Cerrado. Arte Agência Brasil
Brasília (DF), 01/11/2025 - Infográficos - especial Fronteira Cerrado. Arte Agência Brasil

Ao mesmo tempo, Balsas abriga as nascentes da segunda mais importante bacia hidrográfica do Nordeste: a Bacia do Rio Parnaíba, dos quais curso d’chuva percorre 1.400 km de extensão entre Maranhão e Piauí. 

Maior município do estado, Balsas compõe a chamada região do Matopiba, nome oferecido pelas iniciais do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, e que reúne a extensão prioritária para expansão do agronegócio no Brasil. Em 2024, 42% de toda a perda de vegetação nativa do país – e 75% do desmatamento do Concentrado – ocorreu nessa extensão, segundo o RAD 2024.

 

Com mais de 100 milénio habitantes, a expansão do agronegócio colocou o município uma vez que o terceiro maior PIB do Maranhão, detrás unicamente da capital, São Luís, e de Imperatriz, que tem população três vezes maior. Assim uma vez que ocorre em outras regiões do Matopiba, a fronteira agrícola transformou a paisagem, a economia e a sociedade do sul do Maranhão.

 


Brasília (DF), 01/11/2025 - Infográficos - especial Fronteira Cerrado. Arte Agência Brasil
Brasília (DF), 01/11/2025 - Infográficos - especial Fronteira Cerrado. Arte Agência Brasil

 

Maior biorrefinaria de etanol de milho da América Latina 

A expansão econômica de Balsas foi coroada, em agosto deste ano, pela inauguração da maior biorrefinaria de etanol de milho da América Latina e a primeira do tipo no Nordeste. A usina da empresa Inpasa tem capacidade para processar 2 milhões de toneladas de milho e sorgo por ano e produzir 925 milhões de litros de etanol à base de grãos. 

Aliás, a usina tem capacidade para produzir milhares de toneladas de produtos para nutrição bicho e de óleo vegetal. Segundo a prefeitura de Balsas, milénio empresas se registraram na cidade nos primeiros seis meses do ano atraídas pela novidade usina, desenvolvimento de 33% em relação ao mesmo período de 2024. 

A Inpasa ocupa uma extensa extensão na extremidade da rodovia BR-230, com suas imponentes torres de refino de grãos. A companhia se apresenta uma vez que líder na transição energética por produzir combustível sem carbono, tendo já emitido 1,3 milhão de créditos de descarbonização pelo programa RenovaBio do governo federalista. 


Balsas (MA), 08/10/2025 – A biorefinaria da Inpasa, especializada na produção de etanol e óleos vegetais a partir do milho. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Balsas (MA), 08/10/2025 – A biorefinaria da Inpasa, especializada na produção de etanol e óleos vegetais a partir do milho. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Balsas (MA), 08/10/2025 – A biorrefinaria da Inpasa, especializada na produção de etanol e óleos vegetais a partir do milho. – Fernando Frazão/Sucursal Brasil

 

Em contrapartida, ambientalistas avaliam que a novidade usina vai pressionar a região por ainda mais desmatamento do Concentrado para produção dos biocombustíveis e outros produtos vegetais, o que pode prejudicar ainda mais o porvir da segurança hídrica da região.

Enquanto o agronegócio expande a economia, os serviços e a indústria de Balsas, comunidades rurais da região seguem vivendo, em alguns casos, sem chuva potável. Uma vez que nas comunidades de Bacateiras e Angical, em São Félix de Balsas, sobre 200 km da cidade. 

A professora Maria de Lourdes Macedo Madeira, de 61 anos, disse que a comunidade ganhou um poço artesiano da Diocese de Balsas, mas que não consegue base para instalar o equipamento. Os moradores seguem retirando chuva do Rio Balsas de jumento, uma vez que há pelo menos sete décadas. 

“A gente pega chuva no jumento para consumo da morada, cozinhar, tomar, para tudo. Não é chuva tratada. É dia e noite pegando chuva nesse jumento, para todas as casas. Para fazer construção, é a maior dificuldade do mundo, por desculpa da chuva. Só temos chuva com suficiência no período da chuva”, lamentou.

As águas de Balsas 

Em seguida percorrer mais de 300 km sem transpor do município de Balsas em meio a lavouras de monoculturas que se perdem no horizonte, a reportagem conheceu comunidades tradicionais que vivem há décadas no Concentrado maranhense e presenciaram a chegada da lavradio mecanizada e de larga graduação a partir da dezena de 1990. 


Balsas (MA), 09/10/2025 – Vista de fazendas de cultivo de soja ao longo da rodovia MA-007. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Balsas (MA), 09/10/2025 – Vista de fazendas de cultivo de soja ao longo da rodovia MA-007. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Balsas (MA), 09/10/2025 – Vista de fazendas de cultivo de soja ao longo da rodovia MA-007. – Fernando Frazão/Sucursal Brasil

 

Nossa equipe cruzou 100 km de estrada de terreno, cortando diversas fazendas a partir do núcleo do povoado de Batavo, nome oferecido ao projeto que iniciou a colonização do extremo sul baiano com base estatal. 

Ao final, chegamos no Vão do Uruçu, no Cumeeira Gerais de Balsas, onde estão segmento das tapume de 50 nascentes do Rio Balsas. Nessa região, ainda é verosímil presenciar porções de Concentrado nativo em meio às comunidades tradicionais do Brejão, São Pedro, Limpeza e Manoel Gregório, entre outras, que ficam próximos a cursos d´chuva cristalinos em meio a belas serras pedregosas que rompem, eventualmente, as planícies chapadas do bioma propícias para monocultura. 

Entre os moradores dessa região, é generalizado o temor pelo porvir das águas do Concentrado. O lavrador familiar José Carlos dos Santos, de 52 anos, chegou ao sítio com os pais quando ainda era bebê. A família migrou de regiões mais áridas do Piauí. 

“Estamos vendo que a chuva está sumindo. O Concentrado está acabando e a gente está pedindo ajuda para quem vive dentro do Poder para que possam fazer um tanto pelo Concentrado, pela natureza”, disse o lavrador, que vive com a esposa e dois filhos no sítio. 

Espargido uma vez que Zé Carlos, o lavrador vegetal quase tudo que consome e vive em meio a inúmeros pés de frutos típicos do Concentrado, uma vez que Bacuri, Lamparina e Buriti, além de complementar a renda prestando serviços para fazendas da região. 

Profundo prático das vegetação e animais do bioma, Zé Carlos levou nossa equipe até algumas das nascentes do Rio Balsas que, nessa localidade, é um curso d’chuva estreito se comparado com o largo trecho do rio que corta a extensão urbana do município.

 

 

Em uma das principais nascentes, o barro úmido tomou o lugar da chuva que, de uns anos pra cá, brota do subsolo unicamente no período da chuva. Segundo Zé Carlos, ela não ficava sem chuva nem mesmo no final do período da seca.

“Essa nascente jorrava chuva fluente com opulência. Hoje a gente vê que nosso rio está pedindo socorro. Queremos trazer uma solução para barrar o desmatamento e as grandes lavouras que existem na costa do rio”, afirmou.

Pesquisas identificam redução da vazão de rios

A estudo dos moradores do Vão do Uruçu é confirmada por dados de equipamentos do Serviço Geológico Brasílico (SGB) que medem as vazões dos rios de, aproximadamente, 70% da rede hidrológica pátrio.

Dados de sete rios da região do Piauí (PI) e do Maranhão (MA), incluído os rios Parnaíba e Balsas, mostram a queda sustentada nas vazões dos cursos d’chuva desde a dezena de 1970. 

“Apesar de a gente ter verificado que a chuva está se mantendo firme nesses locais, temos observado que a vazão, tanto as mínimas, quanto as médias e as máximas, estão numa tendência de subtracção. Continuando essa tendência, é óbvio que isso, em qualquer momento, vai ter problema”, explicou à Sucursal Brasil o hidrólogo do SGB Cláudio Damasceno. 

Já o estudo da Ambiental Media, com base em dados da Sucursal Vernáculo de Águas (ANA), calculou que a Bacia do Parnaíba, onde está o Rio Balsas, perdeu 24% da vazão média em 40 anos.  

Em agosto deste ano, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional anunciou o investimento de R$ 995 milhões para revitalização ambiental e de navegabilidade do Rio Parnaíba no contextura do Programa de Aceleração do Incremento (PAC).  A expectativa é de que as obras tenham início ainda neste ano.

O geógrafo Ronaldo Barros Sodré, professor da Universidade Federalista do Maranhão (UFMA), estuda o impacto do desmatamento no Concentrado maranhense e destaca que há uma crise hídrica silenciosa em curso. 

“A expansão da fronteira agrícola sobre o sul e também sobre o leste do Maranhão tem provocado o desaparecimento de nascentes, a redução dos diversos cursos d’chuva e configurando, assim, uma crise hídrica que é silenciosa, mas crescente”, avalia.

O geógrafo da UFMA avalia que o Rio Balsas, assim uma vez que outros rios maranhenses, está em uma situação preocupante que afeta o estabilidade hidrológico de toda região do Maranhão e Piauí. Ainda assim, para ele, é verosímil que a produção agropecuária seja patível com a sustentabilidade hídrica. “Desde que também venha somar com práticas agroecológicas de integração da lavoura e pecuária com floresta, o manejo de grave impacto, incluindo nessa governança territorial as comunidades e povos tradicionais, que historicamente são guardiões das águas”, concluiu.

“Passou a boiada” cá, diz quinteiro 

Os moradores ouvidos pela reportagem nos Vãos do Uruçu e do Uruçuí apresentam relatos semelhantes. Segundo eles, as grandes fazendas assoreiam nascentes e olhos d’águas para expandir a produção. 

Assinalado uma vez que um dos poucos empresários que demonstra interesse na preservação dos cursos d’chuva, o quinteiro Paulo Antônio Rickli, de 56 anos, chegou a Balsas no início da expansão agrícola, em 1995. Assim uma vez que muitos outros empresários de Balsas, ele veio da região Sul do país no início da colonização do Matopiba. 

Possuinte de duas fazendas que somam quase 12 milénio hectares, Rickli vegetal soja, milho, arroz e cria manada. Ele diz que a produção ocupa aproximadamente 55% da extensão das propriedades devido às serras que cortam a região – e porque escolheu manter as áreas de preservação interligadas entre elas. 


Balsas (MA), 09/10/2025 – Trator trabalha em fazenda de cultivo de soja na região da Batavo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Balsas (MA), 09/10/2025 – Trator trabalha em fazenda de cultivo de soja na região da Batavo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Balsas (MA), 09/10/2025 – Trator trabalha em quinta de cultivo de soja na região da Batavo. – Fernando Frazão/Sucursal Brasil

 

“Achamos melhor preservar algumas áreas para dar ininterrupção às reservas, para elas não ficarem todas separadas, unificando as reservas para formar um conjunto grande para preservar as espécies, tanto vegetais quanto animais, quantos os cursos d’chuva”, explicou. 

Paulo conta que adquiriu a segunda quinta em 2016 no Vão do Uruçu, perto das nascentes do Rio Balsas, e que naquele ano “tudo era fechado pelo Concentrado”. 

“Infelizmente, o pessoal veio com outra mentalidade, de aproveitar o supremo. Diminuiu muito o Concentrado de 2018 para cá. Passou a boiada, uma vez que disse o ex-ministro do Meio Envolvente. Muita gente que até tinha as áreas preservadas resolveu ir até o limite, e alguns excederam o limite”, relatou.

Ele se refere à frase do atual deputado Ricardo Salles (PL-SP), ex-ministro do governo Jair Bolsonaro, ao tutelar a flexibilização das leis ambientais durante a pandemia de covid-19.

O quinteiro Paulo Antônio Rickli acredita, por outro lado, que “a maioria” respeita a legislação ambiental, mas ficou impressionado com a quantidade de licenças para desmatamento dos órgãos estaduais emitidas nos últimos anos. 

“Alguma coisa aconteceu nessas secretarias de meio envolvente que o negócio desandou. Áreas que não podiam ter sido desmatadas, áreas de veredas, com nascentes de rio, que não poderiam ter sido não desmatadas, foram desmatadas recentemente, mas eu diria que, de um modo universal, as grandes fazendas tem as reservas ainda muito preservadas”, disse Rickli. 

Na avaliação do empresário, falta maior rigor na fiscalização. “Estado é frouxo na fiscalização. Não fiscaliza recta, ou vem inspeccionar e não autua”. 

Desmatamento autorizado em áreas protegidas 

O projeto Tamo de Olho – que reúne organizações ambientalistas – analisou tapume de 2 milénio Autorizações para Supressão de Vegetação (ASV) emitidas pela Secretaria de Meio Envolvente do Maranhão e identificou que 51% delas foram emitidas com alguma extensão sobreposta a Suplente Lícito (RL), Extensão de Proteção Permanente (APP), Unidades de Conservação (UCs) ou Terras Indígenas (TI) e quilombolas. E Balsas se destaca, com quase metade dessas sobreposições.

“Mesmo dentro da validade, temos vários problemas com perda considerável do Concentrado maranhense”, disse a secretária-executiva do Tamo de Olho, a geógrafa Debora Lima, em audiência pública realizada no município. 

A Secretaria de Meio Envolvente do Maranhão afirmou à Sucursal Brasil que não reconhece esses números do Tamo de Olho e que precisaria estudar a metodologia do estudo. “Nenhum desses números confirma o que a gente tem cá com dados oficiais, inclusive de órgão licenciador”, argumenta o secretário Pedro Chagas.

Ele faz uma ponderação sobre possíveis erros: “alguns conceitos desse levantamento estão distorcidos, temos vários tipos de unidades de conservação. As de proteção integral, por exemplo, é impossível de autorizar a supressão de vegetação. Quanto às reservas legais, ela é declaratória do produtor, que pode depois fazer a mudança dessa suplente, desde que mantenha o percentual mínimo exigido”. 

O secretário do Meio Envolvente do Maranhão acrescentou que o órgão ambiental segue todas as legislações, e as autorizações para supressão de vegetação são realizadas de forma técnica. 

“Hoje, cada vez mais, há um controle por imagens de satélites em tempo real. Logo, quem desmata ou quem faz a supressão sem autorização é prontamente multado e embargado”, completou. 

O Ministério Público do Maranhão (MPMA) informou à reportagem que abriu, em setembro deste ano, 24 processos administrativos abertos para apurar desmatamento e reparação de danos ambientais. 

“A grande maioria desses procedimentos (23) foi iniciada a partir de Relatórios de Alerta de Desmatamento sobre Propriedade Rústico que identificaram supressão de vegetação nativa no Concentrado, em tese, sem a devida Autorização de Supressão de Vegetação”, disse a instituição.

Os casos sob apuração em Balsas, São Pedro dos Crentes e Tasso Fragoso envolvem desmatamentos de grande porte, de centenas de hectares. “Em pelo menos um caso, apura-se a violação de um embargo anterior imposto pelo Ibama”, completou o MPMA.

Desenvolvimento supera prejuízos ambientais “pequenos”, diz ruralista

Para o representante dos empresários do agronegócio de Balsas, os benefícios sociais e econômicos da atividade agrícola no Sul do Maranhão superam os prejuízos ambientais, que seriam pequenos. 

O presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Balsas (Sindi Balsas), Airton Zamingnan, nega que o Rio Balsas esteja em risco e afirma que a atividade respeita as leis ambientais, reforçando que possíveis irregularidades devem ser fiscalizadas e punidas. 


Rio de Janeiro (RJ), 12/10/2025 – Entrevista com o presidente do Sindicato Dos Produtores Rurais De Balsas (Sindibalsas), Airto Zamignan., que atua no cultivo de soja. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 12/10/2025 – Entrevista com o presidente do Sindicato Dos Produtores Rurais De Balsas (Sindibalsas), Airto Zamignan., que atua no cultivo de soja. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Rio de Janeiro (RJ), 12/10/2025 – Airton Zamingnan, representante dos produtores rurais de Balsas: “Nos EUA não tem Extensão de Proteção Ambiental”. – Fernando Frazão/Sucursal Brasil

“Ninguém quer destruir a natureza. Quem mais perde com alguma mudança climática somos nós. Existe muita desinformação. Usamos unicamente 3,9% da extensão do estado cá no sul do Maranhão, tapume de 980 milénio hectares de extensão plantada, e o setor traz benefícios para mais de 1 milhão de pessoas”, disse Zamingnan. 

 

 

A liderança da lavradio da região de Balsas destaca que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de Balsas quase dobrou entre 1990 e 2010, saindo de 0,347 para 0,687, segundo dados publicados pelo IBGE.

“Se pegou a região mais pobre do estado mais pobre do Brasil e hoje ela se aproxima quase aos índices do Núcleo-Oeste. É fabuloso o que ocorreu com o desenvolvimento e com a lavradio cá. Temos três faculdades de agronomia em Balsas. Se não fosse pelo agronegócio, provavelmente elas não existiriam”, afirma o produtor de soja, milho e pai de manada.

Airton Zamingnan recebeu nossa reportagem em seu escritório, em Balsas. Rebento de pais gaúchos, ele migrou do Sul do Brasil para o Sul do Maranhão no início dos anos 1990. O empresário lamenta a pressão de grupos ambientalistas contra o agronegócio.

Ele afirma “ter certeza” de que as principais Organizações Não Governamentais (ONGs) que atuam na extensão ambiental no Brasil são um instrumento para prejudicar a concorrência apresentada pelo agro pátrio, destacando que muitas delas são financiadas por entidades estrangeiras. 

“Por que todas essas exigências ambientais só valem para os produtores brasileiros enquanto eles [europeus] compram a soja dos americanos? Lá [nos EUA] não tem APP [Área de Preservação Ambiental]. Ou seja, essas organizações cobram que os produtos brasileiros não sejam de áreas de desmatamento, mas eles não cobram isso dos EUA”. 

Zamingnan cita ainda o projeto Adote uma Nascente, da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado do Maranhão (Aprosoja MA) em parceria a estatal Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), que mapeou as 50 nascentes do Rio Balsas e promete preservar os cursos d’chuva da região. 

Questionada pela Sucursal Brasil, a Codevasf informou que ainda faltam recursos para monitoramento e recuperação de áreas degradadas próximas às nascentes e que a iniciativa se limitou a uma ação inicial em que foram plantadas mudas nativas e rodeado o entorno de nascentes. 

“Um dos maiores desafios do projeto é o seguimento pós-intervenção em razão da intervalo e do difícil aproximação a algumas áreas, muitas delas localizadas a mais de 300 km da sede do município de Balsas. Por esse motivo, a Codevasf priorizou o trabalho de instrução ambiental e a mobilização dos proprietários rurais”, informou a estatal.

“Ilusão de desenvolvimento”

Em contrapartida, comunidades tradicionais, ambientalistas, pesquisadores e movimentos sociais têm denunciado o supino preço a ser pago pelo atual padrão do agronegócio no Concentrado, que vem sendo classificado uma vez que “bioma de sacrifício”.

Atualmente, 51% do Concentrado mantém a vegetação nativa. Quase metade dessa vegetação remanescente está concentrada no Matopiba, região que mais se desmata no Brasil. Especialistas alertam que essa tendência coloca em risco a segurança hídrica do Brasil. 

Para a presidente da Associação Camponesa (ACA) do Maranhão, Francisca Vieira Tranquilidade, que viaja o sul do estado dando suporte a povos e comunidades tradicionais envolvidas em conflitos por terreno ou chuva, “o agronegócio é uma ilusão de desenvolvimento”. 

“O sul do Maranhão, e o Maranhão por inteiro, foi pego uma vez que zona de devastação, onde leis são flexibilizadas em prol do agronegócio. Se zero mudar, haverá uma crise hídrica. Já está faltando chuva em muitos lugares”, disse.  


Balsas (MA), 09/10/2025 – Francisca Vieira Paz, da Associação Camponesa (ACA), na comunidade Boa Esperança, no Vão do Uruçuí, área rural dos Gerais de Balsas. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Balsas (MA), 09/10/2025 – Francisca Vieira Paz, da Associação Camponesa (ACA), na comunidade Boa Esperança, no Vão do Uruçuí, área rural dos Gerais de Balsas. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Balsas (MA), 09/10/2025 – Francisca Vieira Tranquilidade, da Associação Camponesa (ACA), na comunidade Boa Esperança, no Vão do Uruçuí, extensão rústico dos Gerais de Balsas. – Fernando Frazão/Sucursal Brasil

 

Para Francisca, os benefícios do agronegócio não alcançam toda a sociedade, e o padrão imposto é excludente e insustentável. “Se não houver uma mudança radical, vamos chegar ao final, daqui 20 anos, e as pessoas vão se perguntar: desenvolvimento para quem? Já a devastação será para todos”, completou.

Francisca Vieira Tranquilidade milita na resguardo dos direitos humanos e de aproximação à terreno desde os 16 anos, tendo já sofrido ameaças anônimas. “Abri mão de buscar minhas filhas na escola para não expor elas”, contou. 

A representante camponesa chegou a ser expulsa, ainda moço, das terras em que os pais ocupavam no município de Aldeias Altas, no leste maranhense. 

Prelado narra conflito com agronegócio 

Atualmente, Francisca acumula a militância na Associação Camponesa com o trabalho no Comitê de Resguardo da Vida e dos Direitos Humanos (CDVDH), entidade mantida pela Diocese de Balsas, que tem longo histórico de base à luta dos povos do Concentrado maranhense. 

O atual pontífice da Diocese de Balsas, Dom Valentim de Menezes, recebeu a reportagem no hotel que estava hospedado em Imperatriz, há quase 400 km de Balsas, onde foi festejar missa em homenagem à padroeira da cidade maranhense. 

 


Imperatriz (MA), 13/10/2025 – Entrevista com Dom Valentim Fagundes de Menezes, o bispo da diocese de Balsas. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Imperatriz (MA), 13/10/2025 – Entrevista com Dom Valentim Fagundes de Menezes, o bispo da diocese de Balsas. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Imperatriz (MA), 13/10/2025 – Dom Valentim e a inspiração que carrega na blusa: padre Óscar A. Romero, padroeiro de direitos humanos assassinado em 1980. – Fernando Frazão/Sucursal Brasil

Dom Valentim vestia uma camiseta do padre Óscar A. Romero, espargido padroeiro dos direitos humanos e dos pobres de El Salvador, assassinado em 1980 enquanto celebrava uma missa em um contexto de efervescência política no país centro-americano. Romero acabou canonizado pelo Papa Francisco em 2018. 

O pontífice de Balsas se inspira no sacerdote de El Salvador para conduzir os fiéis do sul maranhense. Ele destacou que o Maranhão, junto com o Pará, é um dos estados com mais conflito por terreno do Brasil e que, desde a décadas de 1950, a Igreja de Balsas atua apoiando os povos do Concentrado em disputas fundiárias. 

Tendo se tornado pontífice de Balsas em 2020, Dom Valentim afirma que a expansão da monocultura levou à expulsão de muitos povos da região por meio da grilagem. Para ele, o agro chega uma vez que um “engodo” de um progresso “sem sustentabilidade”. 

A posição da Igreja no município cria conflito com as organizações do agronegócio, que pediram uma reunião com o Dom Valentim mal ele assumiu a Diocese de Balsas. 

“Quando eu fui falar com o agro, eles vieram para cima e botaram a igreja uma vez que capeta na vida deles. Todos esses anos o agro teve ações contra a igreja. É um tanto permanente. Fomos penalizados porque fui num debate na Câmara dos Vereadores e um empresário se negou a ajudar em uma sarau nossa porque eu estava com esses ‘comunistas’. Existe a ilusão das elites de que elas podem controlar a igreja”. 

Dom Valentim lidera um projeto para doar ou plantar 8 milhões de mudas na região até o final do seu diocese, em 2028. “Falei para eles que não posso frear o agronegócio e nem parar o Matopiba, mas propus que nós plantássemos árvores para restabelecer o Concentrado. Estamos avançando, mas ninguém abraçou a desculpa, estamos sós nessa luta”, disse. 

O que diz a prefeitura de Balsas 

Procurada pela Sucursal Brasil para uma entrevista presencial, a Prefeitura de Balsas marcou uma conversa, por telefone, com a secretária de Meio Envolvente, Maria Regina Polo. Ela reconheceu que existe um problema hídrico na região. 

“Nós temos receio de que, a médio e longo prazo, isso aí possa virar realmente um problema grave para nós e possa afetar a longevidade do nosso rio”, disse a secretária. 


Balsas (MA), 11/10/2025 – Sede da Prefeitura de Balsas. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Balsas (MA), 11/10/2025 – Sede da Prefeitura de Balsas. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Balsas (MA), 11/10/2025 – Sede da Prefeitura de Balsas e seu lema: “Progressão e Oportunidade”. – Fernando Frazão/Sucursal Brasil

 

Ao mesmo tempo, Maria Regina ponderou que Balsas é o maior município do Maranhão e um dos maiores do Brasil, com 13,1 milhões de km² de extensão. “A gente precisa observar proporcionalmente esse desmatamento”, disse. 

A secretária municipal avaliou ainda que a maior segmento desse desmatamento é legítimo, respeitando os limites da legislação, que permite desmatar até 80% de uma propriedade no Concentrado. “Logo, não sei até que ponto o agronegócio é o vilão nesse contexto”, argumentou. 

Maria Regina Polo acrescenta que os produtores rurais de Balsas são parceiros na fiscalização dos incêndios, que também são um grave problema ambiental do Concentrado. E argumenta que o agronegócio é um caminho sem volta, que trouxe empregos e renda para a região. 

“Balsas é uma cidade que tem um negócio avançado, indústrias chegando e uma economia totalmente voltada para o agro. Eu acho que é um caminho sem volta, não tem uma vez que o agro regredir. Nós temos é que, cada vez mais, deixar esse agro sustentável, com um aproveitamento melhor das propriedades, incentivando a abrirem menos áreas, apesar de que essas aberturas têm sido, na sua grande maioria, licenciadas”. 

Ainda segundo a secretária, a chegada da biorrefinaria Inpasa na cidade não deve aumentar a pressão para o desmatamento, uma vez que temem ambientalistas. 

“Esses grãos, essas commodities, estavam sendo exportadas. Agora, a Inpasa vai trazer esses grãos para o mercado doméstico. Vamos conseguir utilizar esses grãos cá. Aliás, com produção de ração bicho pela Inpasa, o manada vai precisar de menos pasto para se cevar”, acrescentou. 

Governo do Maranhão quer “estabilidade”

O governo do Maranhão informou à Sucursal Brasil que reconhece que o Maranhão está na última fronteira agrícola do Brasil, o que tem levado à expansão da monocultura no estado nos últimos anos, e defendeu que o duelo é lastrar desenvolvimento econômico com sustentabilidade ambiental. 

O secretário de Meio Envolvente do estado, Pedro Chagas, disse que toda a legislação é respeitada e que existe grande preocupação com os recursos hídricos do Maranhão. 

“A gente se preocupa demais com a questão da segurança hídrica, uma vez que o Maranhão tem quase 50% da chuva de todo o Nordeste. Sabemos que não é só por conta do desmatamento, seja legítimo ou ilícito, com os ilegais sendo fiscalizados de pronto. Mas o problema também é resultado das mudanças climáticas. Esse ano, por exemplo, tivemos a pior seca dos últimos oito anos no Maranhão”, afirmou. 

 


Imperatriz (MA), 13/10/2025 – Vista de pescadores em atividade nas águas do Rio Tocantins. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Imperatriz (MA), 13/10/2025 – Vista de pescadores em atividade nas águas do Rio Tocantins. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Imperatriz (MA), 13/10/2025 – Pescadores em atividade no Rio Tocantins, segundo maior curso d’chuva totalmente brasiliano. – Fernando Frazão/Sucursal Brasil

 

Estudo do Ambiental Media aponta que o Concentrado perdeu, em média, 27% da vazão dos rios nas seis principais bacias da região entre 1970 e 2021. Desse totalidade, 56% seria causado pelo desmatamento, sendo 43% resultado das mudanças climáticas. 

O secretário acrescentou que o estado atua com fiscalizações contra o desmatamento ilícito, mas que também apoia projetos para manter a vegetação nativa, com o Programa Floresta Viva Maranhão. “Incentivamos a manutenção da floresta em pé e a valorização dos produtos da sociobioeconomia”, completou o responsável pela proteção ambiental no estado. 

Segundo Chagas, o objetivo do governo estadual é dinamizar o padrão de negócios no Maranhão, preservando os recursos hídricos em parceria com a sociedade social organizada, principalmente nos Comitês das Bacias Hidrográficas.  

“A gente faz de tudo para proteger as nascentes, primeiro, por meio de mapeamento, fiscalização e controle, mas também por meio do Programa Floresta Viva, com a recuperação de nascentes. Tudo isso fazendo em parceria com a sociedade social, porque é quem conhece a verdade de roupa, lá de perto dessas nascentes”, destacou Chagas.

 

*Esta reportagem é a primeira da série privativo Fronteira Concentrado, que investiga uma vez que o progressão do agro no bioma está afetando os recursos hídricos do país. Até quarta-feira serão publicados novos conteúdos – acompanhe! 


Fonte EBC

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *