Gala além de dalí: um retrato 05/06/2025 mise en scène

Gala além de Dalí: um retrato – 05/06/2025 – Mise-en-scène

Celebridades Cultura

“Gala Dalí” (1894-1982), mulher complexa e criadora icônica, que foi muito além do papel de musa surrealista, ganha vida no palco na vigorosa versão da atriz Mara Roble. Sua atuação tece uma personagem onde força e vulnerabilidade coexistem, desafiando a máxima de que “detrás de um grande varão há sempre uma grande mulher” – frase que, ao longo da história, eclipsou o papel de mulheres incríveis e talentosas porquê Camille Claudel, Jo van Gogh e Patrícia Galvão, para referir somente algumas. Gala, nascida Elena Ivanovna Diakonova, foi figura importante na vida e curso do pintor Salvador Dalí (1904-1989), desempenhando papeis cruciais.

O cenário de Ulysses Cruz, que também dirige Mara, serve porquê revérbero do espírito de Gala. A predominância do branco e os azulejos ao fundo remetem a uma cozinha, um sanatório ou mesmo a um espaço da memória, criando um envolvente que é ao mesmo tempo íntimo e onírico, onde pretérito e presente se misturam sem fronteiras claras. Projeções assinadas por Emerson Brandt intensificam essa qualidade surreal, transformando o palco em um embate visual entre a recordação e sua representação.

Outro destaque são os figurinos, assinados por grandes casas de voga e que são secção importante da narrativa. Cada peça de roupa conta uma história sobre o jogo de poder que Gala dominava, revelando porquê ela transformava sua fisionomia em uma utensílio de certeza pessoal e profissional.

A dramaturgia foge da linearidade cronológica, optando por uma estrutura fragmentada que espelha o funcionamento da memória. Cenas da vida com o primeiro marido Paul Éluard (1895-1952), noticiarista e poeta galicismo, se entrelaçam com momentos decisivos ao lado de Dalí, enquanto reflexões sobre arte, verba e mortalidade surgem porquê interlúdios poéticos. Essa abordagem permite que as contradições de Gala – sua liberalidade criativa e seu pragmatismo, seu paixão pela arte e sua procura por sucesso material – sejam exploradas sem a premência de uma reconciliação.

Na cena final, em que Gala, já idosa em seu forte de Púbol, na Catalunha, revisita suas escolhas, Mara Roble consegue transmitir toda a anfibologia de uma mulher que alcançou seus objetivos, mas não sem um dispêndio. Nessa hora, a iluminação de Cesar Pivetti isola a atriz em um círculo de luz, enquanto as sombras ao volta parecem observar seus fantasmas. Já a trilha sonora de Dan Maia cria atmosferas distintas em cada tempo da vida da personagem, adicionando camadas de significado sem desabar no óbvio.

O grande préstimo da produção está em sua capacidade de humanizar Gala, sem mitificá-la ou condená-la. Mara Roble e sua equipe criam com “Gala Dalí” uma reflexão sobre geração artística, gênero e influência, que ressoa profundamente com os dilemas do nosso tempo.

Três perguntas para…

… Mara Roble

Uma vez que foi desenredar a prestígio de Gala Dalí além de ser “a mulher de Salvador Dalí”? O que mais te surpreendeu na trajetória dela?

Eu buscava uma conexão entre Espanha e Brasil, e zero mais excitante do que Salvador Dalí. Ao aprofundar meu estudo dou de rostro com Gala, uma figura icônica, extremamente cativante e com uma personalidade marcante. Potente, determinada e alimentada pela arte.

Uma mulher a frente do seu tempo, dominadora, de uma lucidez impar, mas também sensível. Ela expõe sua fragilidade ao se deparar com a maturidade, abandona tudo e se esconde do mundo.

Gala me surpreende com suas poesias, mas também na sua praticidade, na sua ousadia. Ela é plural. Amante, esposa, marchant, interlocutora, agente, gerente, produtora e “cuidadora” de Dalí. Entre outras coisas que me fascinaram ao conhecê-la.

Você mencionou que, assim porquê Gala, procura sua realização porquê artista em um contexto reptante. De que maneira essa identificação influenciou sua versão?

Eu pensei, pesquisei e juntei mulheres com perfis parecidos, mulheres geniais, outras nem tanto, mas com garra e preceito das guerreiras; nessa cultura tão dominada por homens, pulularam mulheres que tiveram ou passaram por essa experiência. Estamos lutando, desde que o mundo é mundo, inclusive nos lugares mais comuns (onde tudo parece tão simples) por um espaço e pelo recta de sermos vistas sem preconceito e com saudação. Tudo é tão contemporâneo! Me identifico muito com Gala, vivi uma espécie de retaliação, senti na pele, ainda sinto porquê as pessoas colocam a mulher num lugar menor dando projeção mais ao ELE do que a ELA.

Gala teve uma relação complexa com a maternidade (rejeitando estereótipos da estação). Uma vez que esse conflito em ser mãe e sua relação com a filha Cécile repercute com a mulher atual?

A maternidade não pode ser cobrada, não pode ser imposta, nem determinada pelo outro ou pela sociedade. Existe preconceito e julgamento de mulheres que não desejam ou não convivem muito com a maternidade. E não tem zero demais o vestuário de Gala não ter tido afeto incondicional por Cécile. Ela faz uma escolha e ponto. Eu tenho recta de escolha, todo mundo tem esse recta. Um varão nunca será mãe, nunca vai saber a grandeza, ou não, da maternidade e isso não o deixa menor, deixa?

Minha versão vai ao encontro das escolhas de Gala. Eu acredito e as defendo porquê se fossem minhas próprias escolhas.

Mi Teatro – rua Pamplona, 310 – Bela Vista, região médio. Ter. a qui., 20h. Até 31/7. Duração: 65 minutos. A partir de R$ 80 (meia-entrada) em sympla.com.br


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Folha

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