O Festival de Veneza teve um segundo dia de competição altamente estrelado. Além de Emma Stone e Jesse Plemons, que apresentaram “Bugonia”, de Yorgos Lanthimos, o Lido recebeu Adam Sandler, Laura Dern, Greta Gerwig e Billy Crudup, do elenco de “Jay Kelly”, de Noah Baumbach.
Mas a presença mais aguardada na coletiva de prensa não apareceu: George Clooney, protagonista do filme de Baumbach, foi impedido por uma poderoso sinusite de participar da conversa com os jornalistas.
“Jay Kelly” é uma comédia em tom menor em que Clooney interpreta uma variação dele mesmo na vida real. Jay é um planeta de cinema que chega aos 60 anos ainda com grande demanda em Hollywood. Mas traz uma inquietude dentro de si, sobretudo depois que revê um ex-colega de curso de teatro, de quem ele teria roubado um papel na juventude —no reencontro, o ator malogrado revela possuir uma grande mágoa, e os dois acabam indo às vias de vestuário.
Jay decide dar um tempo na curso e usa uma vez que desculpa uma viagem para receber um prêmio em um festival europeu. Vai da França para a Itália de trem, e no trajeto interage com pessoas comuns de uma forma que ele nunca mais fez desde que ficou famoso.
Sandler interpreta o agente de Jay que praticamente dedica sua vida a cuidar da curso do ator, anulando sua própria subjetividade. E Jay volta e meia se pega relembrando momentos de seu pretérito, alguns deles muito turbulentos.
Mas o filme evita qualquer tom sombrio. Ao contrário: Baumbach procura sempre tornar o seu longa aprazível, ligeiro, mesmo que, para isso, desperdice algumas boas possibilidades que seu protagonista lhe oferece enquanto objeto de estudo.
Clooney não contém uma certa canastrice que, a rigor, deveria ser favorável ao lado cômico de seu personagem, mas seu Jay é um personagem à sombra do Clooney da vida real. É uma vez que se fosse uma versão reduzida do ator em charme, talento e dificuldade. E o filme pega ligeiro demais com ele, parecendo ser antes de mais zero um grande altar a Clooney enquanto grande ídolo do que um estudo minimamente sério sobre o estrelato.
“Bugonia”, de Lanthimos, já é uma obra muito mais arriscada. É uma comédia ácida sobre paranoia, negacionismo e teorias da conspiração, em que Jesse Plemmons interpreta um sujeito que acha que alienígenas estão espalhados pelo planeta para desestabilizar a humanidade e, depois, exterminá-la. Ele e um discípulo decidem sequestrar a dirigente de uma grande empresa, vivida por Emma Stone, achando que ela é uma dessas extraterrestres. Querem, por meio dela, entrar em contato com os seres de outra galáxia.
O filme tem o maneirismo estético, as ideias ensandecidas e o modo desdenhoso de falar da humanidade tão caros a Lanthimos —e que, muitas vezes, o tornam um cineasta que ou se governanta ou se odeia. Mas “Bugonia” não se leva tão a sério, e embora seja em espírito mais próximo das obras ruins do diretor, uma vez que “Tipos de Gentileza”, do ano pretérito, por vezes o longa tem a sagacidade do que de melhor o cineasta é capaz de oferecer. É um filme desproporcionado em sua violência e acidez, mas que se impõe enquanto fantasia absurda e cômica, com uma mormente curiosa reviravolta no final.
Mas o filme mais contundente até agora na competição é, de longe, “Orphan”, do húngaro László Nemes. É improvável que o cineasta um dia consiga fazer um filme sufocante uma vez que “O Fruto de Saul”, que o lançou em 2015, mas em seu novo longa ele chega muito perto disso.
A inspiração veio da história do pai do diretor: acompanhamos o pré-adolescente Andor, rebento de uma judia que sobreviveu à Segunda Guerra e teve que gerar o garoto sozinha. Ele nunca soube do paradeiro de seu pai e acha que ele pode ainda estar vivo. Quando a mãe se envolve com um carniceiro repulsivo e violento, o rapaz tenta desvendar de vestuário o que aconteceu ao seu pai e fica sabendo de coisas que talvez fosse melhor nunca vasculhar.
O filme se passa em 1957, um ano depois que os húngaros tentaram se rebelar contra a influência soviética no país, sendo prontamente retaliados. Andor tenta ajudar um rapaz que fez segmento da revolução, mas que precisa viver escondido sob o risco de ir recluso ou simplesmente ser assassinado —a brutalidade e vigilância das autoridades eram implacáveis.
As imagens aludem ao estilo de filmes amadores do pós-guerra, com matizes variando entre o vermelho e o sépia —é um dos longas recentes mais bem-sucedidos na procura por imprimir uma textura de uma outra estação a imagens captadas em pleno terceiro milênio. São de uma venustidade atordoante, desesperada.
Talvez Nemes exagere na miséria humana de Andor, mas haveria outra forma de falar de uma vida tão angustiante? É um dos filmes em que mais se compreende esteticamente o quanto um sistema totalitário pode ser apavorante.
