Gilda Nomacce enfrenta próprios dilemas em nova peça 29/11/2025

Gilda Nomacce enfrenta próprios dilemas em nova peça – 29/11/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Em um apartamento que é também um palco, três amigos atores encenam a risca tênue entre a lucidez e o delírio, o sonho artístico e a pressão por reconhecimento. Nascente é o cenário de “A Palma”, espetáculo que representa o projeto culminante de um ano de residência da Mundana Companhia no Instituto Capobianco. A peça, uma obra profundamente metalinguística, investiga o adoecimento psíquico do artista, a notabilidade uma vez que fardo e o coletivo uma vez que contraveneno.

A gênese do projeto veio de um argumento do ator Mariano Mattos Martins, que assume sua primeira direção teatral. A partir de sua premissa, a dramaturgia foi construída a quatro mãos por Claudia Barral e Marcos Barbosa.

“Essa peça nasceu de um argumento que criei”, conta Mariano. “Estava numa reunião com uma dramaturga quando, de repente, uma voz ao fundo começou a gritar com ela: ‘Você é horrorosa! Péssima!’. Depois, a mesma pessoa disse ‘eu te senhoril’ e foi embora. Era uma amiga atriz que havia ‘surtado’. Aquilo me pegou. Por que uma atriz pira? O que faz a gente chegar nesse lugar?”

Essa inquietação deu origem à personagem Vânia Souto, uma atriz em crise existencial e profissional, interpretada por Gilda Nomacce. A escolha não poderia ser mais significativa. Gilda, com sua formação rigorosa no CPT de Antunes Fruto e uma curso sólida que transita entre o teatro de pesquisa e o cinema autoral, vive uma personagem que sofre por não ter conseguido o estrelato.

A sintonia entre a atriz e a personagem é intensa. “Será que ele me conhecia? Porque todo mundo sabe que eu sou louca para permanecer famosa”, diz Gilda. “Resolvi não esconder para não permanecer humilhada. As pessoas falam: ‘Ah, você não quis fazer televisão’. Aí você tem que falar: ‘Não, eu não quis’. Mas todo mundo vê que é pataratice. Eu quis, sim, quero! Negar é uma humilhação.”

Essa identificação se aprofundou durante o processo. “Cada vez mais a gente vai entrando nos subterrâneos dessa personagem e percebendo coincidências e conexões com sua vida. Ela está percebendo isso de forma meio mágica, oracular. É terrível”, diz Mariano, que não escreveu a personagem para Gilda, mas a conexão se mostrou inevitável.

Essa ironia não passa despercebida pela atriz. “Faço ambos os exercícios, o de sátira e o de espelhamento”, ela reflete. “Nossa dor em geral com a Vânia é a da notabilidade. O gostoso é fazer, tanto para Vânia quanto para mim. O gostoso é esse jogo cênico. Mas o ruim é ser desvalorizado por uma indústria.”

A atriz compartilha um incidente recente que poderia transpor do roteiro da peça: “Tive uma semana de muito notabilidade, todo mundo detrás de mim, e eu pensei: tive a chance de não morrer sem ser famosa.” Mas a veras do ofício logo aterrissa: “Voltei viralizada e já comecei a ensaiar nove horas por dia. Nem curti muito.”

A peça põe em cena justamente esse choque —a tensão moderna entre a integridade artística e a premência de validação externa, simbolizada pelo título, “A Palma”. O termo, referência irônica à Palma de Ouro, prêmio sumo do Festival de Cannes, é desconstruído para se tornar um catalisador de impaciência. “A gente vive num mundo hoje que tudo caminha para essa validação. Ao mesmo tempo que a gente celebra, a gente também critica e dá uma alfinetada para saber que requisito é esse”, diz Verónica Valenttino, que interpreta a advogada Marta, amiga de Vânia.

Nessa jornada vertiginosa, o coletivo surge uma vez que a tábua de salvação. Vânia é sustentada pelos amigos Marta e Sérgio, vivido por Donizeti Mazonas. Para Verónica, a metáfora do “bonde” é fundamental para entender não somente a peça, mas a resistência artística. “Quando a gente está de bonde, a gente respira melhor. Principalmente para mim, uma vez que corpo travesti. O que não nos deixa desabar é o indumentária de a gente estar junto e ir construindo um bonde, sabe?”, ela diz.

Donizete, que tem uma amizade de mais de 30 anos com Gilda, vê na peça um revérbero dessas famílias que se formam no teatro. “A peça fala, sobretudo, sobre os afetos. Quando você vive essa vida de palco, uma família se constitui, uma família de afinidades artísticas. O teatro faz muito isso.”

A estrutura da peça é um “teatro dentro do teatro”, embaralhando memórias, ensaios e confissões. Mariano Martins define essa escolha uma vez que um veículo para uma “navegação mapeada” do universo artístico. “Para acessar a loucura dela e ‘aterrá-la’, precisaríamos falar a língua dela. O poder da loucura teatral é essa sintonia que permite a notícia”, diz o diretor, citando uma frase de Zé Celso Martinez Corrêa —”louco fala a língua de louco”.

Apesar de reprofundar na dor, “A Palma” não é um lamento. É, uma vez que define Mariano, uma “ode ao sonho”. “A teoria desse trabalho também é sonhar cá, no soalho, com o que temos. Fazer teatro, a peça, o filme, é o que a gente tem. É uma ode ao teatro, leste espaço tão dispendioso onde a loucura é sagrada.”

Folha

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