Gloria perez: censura em novela está pior que na ditadura

Gloria Perez: Censura em novela está pior que na ditadura – 10/08/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Gloria Perez se expressa com a objetividade de quem não tem tempo a perder. Ao longo de uma hora e meia de entrevista, não titubeou. Zero do que dizia soava casual. Verbos e adjetivos eram escolhidos a dedo, uma vez que se soubesse o efeito que causaria no interlocutor —propriedade própria de alguém que encontrou na vocábulo o seu ofício.

Em mais de quatro décadas de curso, Perez criou novelas de poderoso apelo emocional, adicionou aos folhetins causas sociais, culturas estrangeiras e inovações tecnológicas que viraram sua marca na teledramaturgia pátrio.

A assinatura pode ser vista em enredos uma vez que “O Clone”, “América” e “Caminho das Índias”, que venceu o Emmy Internacional, em 2009. “No contexto atual, essas novelas nem chegariam ao público”, diz. “Foram tramas inovadoras, e inovar pressupõe decorrer riscos.”

Ela fala do pavor de ofender o público e das preocupações com o politicamente correto. As tramas, inclusive, já foram intuito de críticas. Para alguns, o retrato que fez de países uma vez que Índia ou Turquia, em “Salve Jorge”, é estereotipado.

Perez discorda. “Quem foi ao Marrocos, à Índia, à Capadócia viu de perto o quanto a população dos locais gostou desses retratos”, afirma. “Hoje em dia, com essa coisa de não poder ofender um grupo, não poder ofender outro, você acaba fazendo uma romance sem conflito”, elemento que considera a espinha dorsal do gênero.

Perez entrou na Orbe em 1979, uma vez que pesquisadora do departamento de teledramaturgia. Em 1983, colaborou com Janete Clair na romance “Eu Prometo”, antes de estrear a tecer sua obra. Em abril, veio a público que os laços com a emissora haviam sido rompidos, três anos depois “Travessia”, que sofreu diversas críticas e amargou uma audiência ruim para a tira das nove. “Essa romance foi implodida por dentro”, diz a autora. “Detestei não ver no ar aquilo que eu escrevi.”

Mas a saída da emissora se deu depois seu projeto seguinte, “Rosa dos Ventos”, ter recebido vetos da direção por sua trama com texto político e por abordar o monstro.

Para ela, essa preocupação em não desgostar o público teria feito com que a repreensão moral sobre a teledramaturgia, hoje, se tornasse pior que a da ditadura militar.

Perez ainda se lembra dos vetos da censora Solange Hernandes, a chamada “senhora da tesoura”. “Agora nós temos uma multiplicidade de Solanges. Nas redes, com raras exceções, cada pessoa é uma Solange dissemelhante”, afirma a novelista. “Antes, você tinha uma repreensão. Agora, a repreensão está espalhada na sociedade. É muito pior.”

Em uma entrevista de 2011, a senhora disse que o politicamente correto na teledramaturgia é um saco e que a vida não é politicamente correta. Catorze anos depois, mantém essa opinião?

Sempre achei que o politicamente correto engessa, reduz e elimina a possibilidade do conflito. Ao fazer isso, ele amordaça e empobrece o responsável. Só que romance é conflito. O que você procura uma vez que pai de histórias é compreender e mostrar os sentimentos humanos em relação a um determinado tema. Mas, hoje em dia, com essa coisa de não poder ofender um grupo, não poder ofender outro, você acaba fazendo uma romance sem conflito.

Quando eu fiz “Hilda Furacão”, a gente deixava a desenlace para o público. As pessoas entenderão e concluirão o horror do que o personagem está fazendo. Não cabe a mim cassar a fala dele ou fazer um exposição em cima disso.

É uma vez que um quadro. Não é necessário ter uma explicação ao lado da tela dizendo de que forma o público a deve enxergar. Porquê os avisos que aparecem em novelas antigas, dizendo que a obra reproduz comportamentos da era em que foi realizada. Para quê?

É óbvio que os valores e os costumes mudam em cada período histórico. Quando vejo uma romance de era em que é maravilhoso trinchar a cabeça de alguém com uma gládio, eu sei que aquilo é um pouco específico do pretérito e que é uma ação horroroso. Eu não preciso ser informada sobre isso.

Quando dizem “as novelas estão assim porque os talentos morreram e não aparecem outros”, eu discordo. Existem talentos, mas eles foram engessados.

Críticos de TV afirmam que as novelas passam por dificuldades não só de audiência, mas também de originalidade. A teledramaturgia pátrio está em crise?

Sem dúvidas. As novelas não estão tendo a relevância de antes nem uma vez que entretenimento nem uma vez que porta-voz de temas importantes. A explicação disso não se resume à multiplicação das telas e das opções do público. A cultura “woke” introduziu um cerceamento à imaginação. A opção de não desgostar, de não tocar em temas sensíveis, de transformar conflitos humanos em pautas, acabou por fechar a dramaturgia numa espécie de fórmula, retirando dela a capacidade de provocar. A cultura “woke” foi arrasadora para a dramaturgia.

Diante dessas preocupações, tramas uma vez que ‘O Clone’ e ‘Caminho das Índias’ seriam possíveis hoje?

No contexto atual, elas nem chegariam ao público. Foram novelas inovadoras, e inovar pressupõe decorrer riscos. “Salve Jorge”, além de tratar de um tema muito sensível, o tráfico de pessoas, trazia a personagem da Nanda Costa uma vez que a primeira protagonista favelada e prostituída. Não imagino que essa ousadia fosse aprovada hoje em dia.

Em abril, a senhora decidiu fechar o contrato com a Orbe depois uma trama envolvendo monstro na sua próxima romance ter sido vetada. Quais foram os bastidores da sua saída?

Eu decidi pôr um ponto final porque meu contrato acabaria quando terminasse esta romance que foi barrada. Decidiram protelar a romance por justificação do monstro. Aí eu falei “gente, se tem uma pessoa que sabe tocar com delicadeza nesse tipo de tema, sou eu, a minha história toda mostra isso”. Mas aí veio o pavor de desgostar algumas áreas. A minha assinatura é mourejar com temas delicados e trazer o público para a discussão. Se eu não puder fazer isso, eu acabo.

A emissora queria que eu assinasse um contrato de extensão para fazer a próxima romance, que viria depois de “Três Graças”, do Aguinaldo Silva. Eu falei que não me interessava e que queria rescindir o contrato. Eu senti que eu não conseguiria mais fazer as novelas que sei e quero fazer. Eu sou incapaz de pensar engessada. Ou eu tenho liberdade para voar, ou não tenho liberdade nenhuma.

A senhora entrou na Orbe em 1979, num momento em que a repreensão da ditadura ainda era uma verdade. Porquê compara a vigilância moral naquele período com a atual?

Na era, você tinha uma repreensão comandada pela dona Solange [Hernandes, chefe da Divisão de Censura de Diversões Públicas do regime militar]. Era ela quem mandava trinchar as coisas. Só que agora nós temos uma multiplicidade enorme de “Solanges”. Nas redes sociais, com raras exceções, cada pessoa é uma Solange dissemelhante, julgando o outro e tentando cassar a vocábulo alheia. Não era assim. Antes, você tinha uma repreensão. Agora, a repreensão está espalhada na sociedade. É muito pior.

Novelas suas foram criticadas por trazer um suposto retrato estereotipado de culturas estrangeiras. De que modo avalia essa sátira?

Fico com a aprovação das culturas retratadas. Quem foi ao Marrocos, à Índia, à Capadócia sabe disso e viu de perto o quanto a população dos locais gostou desses retratos. Sempre busquei incluir a face mais progressista e a mais tradicional de cada cultura. Mês pretérito, uma amiga jornalista viajou pelo Arzebaijão. Num restaurante, ao saber que era brasileira, os garçons falaram com exalo de “O Clone”.

A sua última romance na Orbe foi ‘Travessia’, de 2022. Ao longo da exibição, a obra foi intuito de críticas, muitas delas direcionadas à atuação de Jade Picon. A senhora se arrepende da escalação dela para a trama?

Eu não escalei a Jade. Quem escalou foi o Ricardo Waddington. Olha, eu vou falar pouco sobre isso, porque vou comentar mais no meu livro de memórias. Mas “Travessia” foi um ponto fora da curva. Essa romance foi implodida por dentro. Não deu perceptível propositadamente.

Quem atuou para que a romance não desse perceptível?

Posso proferir que a Jade Picon, apesar da inexperiência dela, foi muito importante para mim nessa romance. Ela deu vida a momentos emocionantes e não atrapalhou o enredo. Mas eu não quero falar sobre isso. Detestei não ver no ar aquilo que eu escrevi.

A senhora aceitaria redigir novelas para o streaming ou para outras emissoras?

Eu não me aposentei. Somente tirei uns meses sabáticos para repousar, botar em dia tudo o que ficou procrastinado no que diz reverência à saúde e às pendencias da moradia. Tenho muitas propostas a determinar. Quando fechar o tempo para me destinar a mim, vocês terão notícias.

Em ‘América’, de 2005, uma cena de ósculo gay que seria exibida no último capítulo foi vetada pela Orbe. Porquê recebeu essa notícia na era?

Fiquei chocada e chateada. Não era um ósculo de sacanagem. Estava tudo muito muito construído. Nós fizemos sete versões da cena. Tinha versão mais punk, mais suave. Tivemos muito desvelo para ver se uma delas passava. Aí aconteceu uma reunião de cúpula no dia da exibição em que levamos as sete versões. Um monte de diretores se reuniu para testemunhar às cenas e votar. Os votos contrários predominaram e a cena foi suspensa.

Eu tinha que entender que a dona do resultado era a emissora e que ela tem o recta de determinar o que é melhor para o público. Eu e o Marcos Schechtman, diretor da romance, achávamos que era um tiro no pé e um grande erro.

Em 1998, a senhora fez o remake da romance ‘Perversão Capital’, da sua mentora, Janete Clair. Agora está no ar o remake de ‘Vale Tudo’. O que a senhora tem invento da romance?

Eu vi só o primeiro e o segundo capítulo. Tive uma péssima experiência com remake. Não paladar e não acredito neles. O remake de “Pantanal” deu perceptível porque essa romance passou na TV Manchete, emissora que tinha uma audiência menor do que a da Orbe. Mas eu não lembro de nenhum remake recente que tenha oferecido perceptível e despertado o mesmo exalo que a versão original despertou. O que fica na boca do povo é sempre o que foi feito lá detrás.

Em uma entrevista recente, o ator Raul Gazolla disse que a senhora voltou a sorrir quando soube da morte de Guilherme de Pádua, que assassinou a sua filha, Daniella Perez, em 1992. Porquê reagiu à morte dele?

Tive uma reação estranha. Não senti zero. Recebi esse traje com a psique e o coração em branco. Era uma pessoa que já tinha morrido havia muito tempo para mim.

Nas entrevistas à era do assassínio de Daniella, labareda a atenção o modo objetivo com o qual a senhora falava sobre o caso. Porquê conseguiu manter a lucidez?

Eu sabia que a minha filha seria assassinada de novo todos os dias se não tivesse ninguém para a proteger. Quem pode proteger o fruto, antes de mais zero, é a mãe. Por isso, era preciso preservar a lucidez. Por esse motivo, continuei a redigir “De Corpo e Espírito” [na qual Daniella atuava quando foi morta]. A romance me obrigava a ter um foco.

Nessa era, me lembrei de uma história do professor Manoel Maurício de Albuquerque, com quem tive lição na Universidade Federalista do Rio de Janeiro. Ele sempre contava para a gente uma vez que sobreviveu quando foi recluso na ditadura. Sozinho na cubículo, só tinha uma caixa de fósforo. Todos os dias, tirava os palitos para relatar. Depois, guardava e recomeçava a enumeração de novo. Fazer isso o mantinha lúcido.

Foi isso o que eu fiz. Cada palito era um capítulo que eu continuei escrevendo. Tem momentos em que você não pode se deixar no vazio, se não você cai. Se eu caísse, minha filha cairia junto.


Relâmpago-X | Gloria Perez, 77

Nascida no Rio de Janeiro, passou a puerícia em Rio Branco, no Acre. Cursou história na Universidade Federalista do Rio de Janeiro. Em 1979, entrou na TV Orbe uma vez que pesquisadora do departamento de teledramaturgia. O primeiro passo uma vez que autora se deu em 1983, quando colaborou com Janete Clair na romance “Eu Prometo”. Depois disso, emendou um trabalho detrás do outro, tornando-se uma das autoras mais importantes do país, com folhetins uma vez que “Ventre de Aluguel”, “O Clone”, “América” e “Caminho das Índias”.

Folha

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