Consumidores relatam ter recebido mensagens de WhatsApp que dizem ser da transportadora Loggi, pedindo o pagamento de uma taxa para regularizar o envio de mercadorias. As tentativas de golpe trazem dados pessoais detalhados de clientes, uma vez que endereço e informações sobre o rastreamento de compras feitas em sites, o que pode induzir ao erro.
Procurada pela Folha, a Loggi não respondeu se houve vazamento de dados, mas disse que estão em curso análises técnicas. A empresa afirma que acompanha um aumento de tentativas de golpes visando o mercado logístico. “A Loggi utiliza-se das melhores tecnologias de mercado para entregar aos nossos clientes e parceiros as melhores soluções para nossos serviços, adotando todas as medidas de segurança e monitoramentos necessários”, afirmou.
O desenvolvedor de software Allan Araújo, 27, conta que fez a compra em uma loja pequena, na qual confia e onde é cliente há alguns anos. Ele diz ter recebido uma mensagem que se passava pela transportadora Loggi “no mesmo segundo” em que seu status de rastreamento foi atualizado no site solene.
“Veio o email solene sem golpe, e logo em seguida o golpe. Eu tenho até uma suspeita técnica de uma vez que eles fizeram a automação desse golpe, parece que tinha alguma nequice na API [Interface de Programação de Aplicações, que permite que diferentes softwares se comuniquem] que faz o rastreamento”, afirmou o desenvolvedor.
Segundo Fabio Assolini, diretor da Equipe Global de Pesquisa e Estudo da Kaspersky para a América Latina, não foi provável verificar a origem dos dados, se vieram de vazamento de varejistas ou de transportadoras. “Uma vez que há muitos incidentes de vazamentos de dados no Brasil, é sempre difícil confirmar a origem exata.”
“Os criminosos utilizam o nome de transportadoras e marcas conhecidas em contas com selo de verificação no WhatsApp —recurso que transmite crédito, mas que pode ser facilmente explorado por golpistas.”
No site Reclame Cá, a Loggi recebeu 19.248 reclamações nos últimos seis meses, das quais 68,2% foram resolvidas. Dos consumidores que avaliaram, 43,9% disseram que voltariam a fazer negócio com a transportadora. Sua reputação é considerada regular, com nota 6,3.
Só no último mês, há 84 queixas que citam vazamento de dados no Reclame Cá da Loggi. Boa segmento deles posteriormente compras na Amazon, também parceira da empresa.
Procurada, a Amazon preferiu não comentar.
“Acho impossível não ser a Loggi, porque comprei em duas lojas diferentes e tive o mesmo problema”, diz Araújo.
Caso a vítima clique no link, ela é direcionada a uma página que imita a identidade visual da empresa, com a cor azul e a logo do coelho. Dados uma vez que última atualização, valor dito na nota fiscal, nome, telefone e endereço completo do destinatário são mostrados. Inferior, um botão de “Clique cá para remunerar a taxa”, que leva a um código Pix e pede outros dados pessoais, uma vez que o CPF.
O número de WhatsApp usado na fraude continha o selo verificado, que pode tanto valer que a Meta considerou a empresa segura quanto que o golpista comprou a assinatura Meta Verified.
Em resposta à Folha, a Meta afirmou banir contas que violam suas políticas e disse que está tomando medidas adicionais para manter a plataforma segura.
Há casos, porém, que não envolvem entregas feitas pela Loggi. O professor Carlos Fruto, 35, afirma não usar a Loggi há pelo menos dez anos. Ainda assim, recebeu a mensagem golpista e diz não saber de onde seus dados poderiam ter vazado.
A psicóloga Bárbara Helena da Silva e Silva, 32, conta que recebeu uma mensagem que dizia ser da Loggi na madrugada de um sábado, dia 26 de julho. O número era do Reino Unificado, mas tinha o seu endereço e nome completo.
Ela também não tinha feito nenhum pedido recente com a transportadora. “A única compra que fiz nos dias anteriores foi no AliExpress, no primícias daquele mês, e ela foi entregue pelos Correios. Essa encomenda foi taxada em muro de R$ 60, o mesmo valor que estava no site dos golpistas”, afirma.
Os Correios dizem que não enviam mensagens por email, SMS ou WhatsApp sobre objetos bloqueados, ou pagamento de taxas. Em junho deste ano, a estatal passou por uma vulnerabilidade que envolveu muro de 2% da base de cadastro, sem comprometimento de senhas ou credenciais. “Mal a situação foi identificada, a empresa agiu imediatamente, implementando medidas de segurança adicionais para proteger as informações e notificou a ANPD (Mando Pátrio de Proteção de Dados), conforme exigido pela legislação”, afirma.
A Aliexpress diz sentenciar veementemente qualquer ato de vazamento de informações pessoais dos consumidores ou envolvimento em atividades fraudulentas, e afirma que não trabalha com a empresa Loggi entre seus fornecedores. “Temos uma possante política de privacidade em vigor, em conformidade com as leis brasileiras. Enfatizamos rigorosamente a proteção dos dados pessoais de nossos usuários com todos os nossos parceiros, incluindo em colaborações logísticas”, diz. A empresa aconselha os clientes a verificar informações por meio dos canais oficiais dos Correios antes de fornecer dados pessoais ou realizar pagamentos.
Além de tentativas de golpes pelo WhatsApp, consumidores relatam extravio de pacotes de superior valor, e acreditam que não seria provável que os criminosos soubessem o que estava dentro das caixas sem qualquer tipo de vazamento de informações. No Reclame Cá, há 7.794 queixas que relatam roubo ou extravio de fardo.
Um cliente que não quis ser identificado afirma que sua namorada recebeu uma mensagem via WhatsApp, na madrugada do último domingo (17), de um número dos Estados Unidos. Ela havia realizado uma compra pela OLX —que também tem parceria com a Loggi— em nome de sua mãe que, depois de três tentativas fracassadas de entrega, foi extraviada.
Já um vendedor da OLX, que também não quis ser identificado, conta que anunciou sua câmera fotográfica por R$ 6.500 e efetuou a venda, mas que seu pacote constou uma vez que furtado no rastreamento da Loggi, no dia 13 de agosto. Ele diz que a OLX devolveu o quantia nesta segunda-feira (19).
Contatada por email, WhatsApp e telefone, a OLX não se pronunciou até a publicação desse texto.
COMO SE PROTEGER?
A Loggi afirma que é importante sempre duvidar de mensagens com links suspeitos e contatar os canais de atendimento oficiais para tirar dúvidas dos pedidos. A empresa orienta aos consumidores que não cliquem em links não oficiais.
Casos adversos devem ser reportados por meio do meio de atendimento
Seja qual for o serviço solicitado, a Loggi diz que, em nenhum momento, vai solicitar:
- Pagamentos de taxas, impostos ou cobranças extras para realização de entregas por qualquer meio (Pix, WhatsApp, SMS, links, canais não oficiais)
- Dados e documentos pessoais
- Foto facial para realizar uma entrega
- Pagamentos fora do site ou aplicativo
- Operações entre outros países
- Cadastro para contrato de trabalho com pagamento de taxas
