O que pode ser pior do que enfrentar os Seals, a tropa de escol da Marinha americana, para salvar o mundo? Adolescentes, diz o varão do horizonte para seu time, um quadrilha de gente generalidade e esquisita que ele recrutou naquela mesma noite em um restaurante. Se a premissa de “Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra”, de Gore Verbinski, lembra alguma coisa, prepare-se para outras duas horas de referências a cinema, games e uma salada de cultura pop.
Exibido no Festival de Berlim nesta semana e prometido para abril no Brasil, o novo filme do diretor americano, da trilogia “Piratas do Caribe” mas também de “O Chamado”, brinca com o mais atual dos temores, uma perceptibilidade sintético que vai tornar o planeta um lugar insuportável.
Ou ainda mais insuportável do que já está, uma vez que diz o varão do horizonte ao recolher e destruir os celulares dos clientes do Norms, tradicional “diner” de Los Angeles. É a 117ª vez que o soldado viaja no tempo para tentar fazer a mesma coisa, escolher, entre os presentes, quem melhor se encaixa na tarefa de encontrar um menino de nove anos que, futuramente, será o responsável pelo prompt decisivo para o controle da humanidade pelas máquinas. Nas outras 116 vezes, não deu notório, e ele abortou a missão para poder iniciá-la novamente.
O varão do horizonte gasta um tempo para se provar crível à tropa improvisada. Encarnado por Sam Rockwell, parece um morador de rua, um vidente de esquina, bradando uma vez que telas, jogos, redes sociais e conteúdos virais antecipam a decadência humana, a marcha para o apocalipse.
Os componentes do time, cada qual a seu modo, também parecem decadentes. Suas histórias são contadas em flashbacks. O parelha de professores, interpretados por Zazie Beetz e Michael Peña, traumatizados por alunos zumbis que não saem do TikTok; a mãe desesperada, personagem de Juno Temple, que perdeu o rebento em troada de escola e ganha uma segunda chance com um programa de clonagem; a pequena vestida de princesa da Disney, papel de Haley Lu Richardson, que sofre com alergia a aparelhos movéis “e wifi”, ela pontua.
Se a premissa do streaming dissesse que Verbinski mistura “Exterminador do Horizonte” com “Black Mirror”, a IA não estaria alucinando, mas dizendo o óbvio.
Também não faria mal-parecido se dissesse que “Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra”, além do título longo, lembra em alguns momentos o ritmo exaltado de “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”, Oscar de melhor filme em 2023, ainda que bastante contrariado.
Não existem, exatamente, multiversos, mas uma sucessão de tarefas, perigos e adversários, uma vez que em um game, mas enfrentados de maneira analógica. Em determinado ponto, o varão do horizonte põe óculos de leitura para checar o estampa em uma folha de papel. “É um planta”, afirma ele com raiva, quando alguém pergunta o que ele está fazendo.
Mesmo no momento chave da história, o ato de salvar a humanidade depende de uma conexão palpável, física, uma vez que os telefones fixos de “Matrix”. O mundo vintage, personificado principalmente na princesa de Richardson, parece mais lógico e mais interessante do que a parafernália que fabrica as sensações atuais.
Até o Norms, o restaurante, aparece ali uma vez que uma espécie de recado subliminar —não é o mesmo lugar, mas difícil não lembrar do prelúdios e do termo de “Pulp Fiction”. Seu mais tradicional endereço, um prédio tombado na Califórnia, será ocupado por uma rede de fast food em 2027. Por que o mundo não pode ser, pelo menos um pouco, uma vez que era antes?
O longo filme de Verbinski cansa antes de chegar a maiores conclusões, mas talvez não seja o caso de conseguir uma. Uma IA fará isso por todos nós daqui a pouco.
Enquanto o longa de Gore Verbinski condena comportamentos humanos, principalmente a indiferença diante da evolução de tecnologias generativas, o Festival de Berlim também testemunhou, nesta sexta-feira (13), reações a comentários dedicados a outras crises do contemporâneo.
Em resposta ao cineasta Wim Wenders, presidente do júri desse ano, que disse em coletiva que o cinema não pode mudar a política, e a outros representantes do evento que se esquivaram de se posicionar sobre questões uma vez que os conflitos entre Israel e a população palestina na Filete de Gaza, a autora indiana Arundhati Roy abandonou o festival, antes de apresentar seu filme. A mostra também testemunhou protestos de artistas iranianos contra o autoritarismo que graduação no Irã.
